A Volta do Regresso: explicando para confundir?

Ana Paul
Gustavo Engracia em "A Volta do Regresso", de Marcelo Valletta
1
Marcelo V. · São Paulo, SP
25/11/2007 · 113 · 1
 

De modo geral, acho que o preconceito está enraizado na ignorância _ou na preguiça de pensar, porque contestar dá trabalho. No que tange a arte (porque esta discussão serve para praticamente tudo, mas vamos direcionar melhor o foco), sou contra preconceitos de gênero: não acho que a comédia (no cinema, lembremos de Lubitsch, Preston Sturges, Jacques Tati, Leo McCarey, Chaplin etc.) ou o melodrama (Visconti, Douglas Sirk, Nicholas Ray, Emilio Fernández e outros _entre eles Chaplin e McCarey, de novo) sejam menores do que a tragédia _como repetem na imprensa e algures alguns papagaios, baseados em cânones duvidosos, porém aparentemente perenes. Assim como não acho que a poesia seja necessariamente melhor do que a prosa. Ou de que o jazz seja melhor do que o samba. Ou que a arte dita “erudita” seja automaticamente melhor do que a “popular” _e vice-versa. E por aí vai.

Tenho grande apreço pela arte como expressão de tudo que é humano (e não só do que é “belo”, mas não vamos entrar em Estética) , e não vejo por que limitá-la. Discursos na mera base do “isto é bom, aquilo é ruim” ou “isto é certo, aquilo é errado” me soam como um atentado à liberdade do artista e à diversidade da vida, um exagero de arbitrariedade que não considero bem-vindo.

Na área do cinema, à qual venho me dedicando nos últimos anos (após passar por várias outras, principalmente a literatura), mas ainda como iniciante, além destes preconceitos de gênero (ou do “erudito” _ou “cult” ou qualquer outro rótulo diluidor e limitante_ versus “popular”), existem uma série de outros. Um deles é a valorização (muitas vezes automática e irrestrita) da tal da “pesquisa de linguagem” (ou “experimentalismo”) em detrimento de um formato clássico (“tradicional”).

Mas quem defende este tipo de idéia (em geral no nicho do curta-metragem, talvez porque o formato não tenha “apelo comercial” _mas isto não é meio covarde? E não se pode “experimentar” num longa sem ser exceção só porque o “povo” _uma minoria, talvez a tal da “elite” _não da tropa_ que nosso presidente insiste em criticar, apesar de fazer parte dela_ paga pra ver?) não define direito o que é, afinal, “experimental” (que já virou rótulo a ponto de existir categorias em festivais que os premiem). Por acaso é um projeto não-narrativo? (Se for, o nome da categoria não poderia justamente ser “não-narrativo” ou “poético” ou algum outro menos frouxo?) Por acaso é algo que use de novas tecnologias _e não seriam elas mesmas “experimentais”, ou mais experimental é resolver fazer um filme mudo e em preto-e-branco com uma câmera pinhole em pleno século XXI? (Mas aí sucessos populares como “A Bruxa de Blair” e os “Star Wars” do George Lucas não seriam tão “experimentais” quanto os cults “O Mistério de Oberwald” do Antonioni ou o “200 Motels” do Frank Zappa?)

Outro clichê que vejo e ouço reproduzido por aí, aparentemente sem muito critério, é o da busca por um “cinema puro” (essa história de pureza me lembra o “Mein Kampf”, brrr!). Este cinema “puro” seria aquele que “se libertaria dos grilhões da literatura e do teatro”, algo assim. Só que esta idéia (ou melhor, a defesa de que “assim é bom, assim é certo”) é que me parece um grilhão. Como meio audiovisual, creio que o cinema pode muito bem trabalhar imagem e texto, em um formato dramático-narrativo, aristotélico (que não envelheceu nem um pouco, justamente porque contar e ouvir _ou ver_ histórias é algo básico na experiência humana; básico, porém sofisticadíssimo), sem ser necessariamente menos interessante do que obras que investem no estímulo sensorial de seu espectador ou em associações poéticas também sofisticadas, com conceitos pertinentes e muito bem formulados (eu adoro videoarte, a vanguarda francesa dos anos 1920, o Buñuel, a Maya Deren, o Julio Bressane, o David Lynch, filmes como “Caramujo-Flor”, do Joel Pizzini etc.).

Acho curioso que, ao mesmo tempo que é dito que Eduardo Coutinho é o maior documentarista brasileiro (acho fascinante o trabalho dele com a palavra), também corra por aí que seu cinema seria “chato” ou “antiquado” porque se resumiria a “talking heads”. Os vídeos documentários que eu fiz não contêm palavras (são espécies de “sinfonias da metrópole” _embora nem todos tenham sido feitos em grandes cidades), mas também não concordo quando um dos cineastas que mais admiro (são dezenas), Alfred Hitchcock, diga numa entrevista que acredita que o diálogo num filme deveria se limitar a um ruído _também acredito que esta regra do “show, don’t tell” deva ser relativa, nunca absoluta. Em certo ponto de “Adaptação”, Charlie Kaufman e Spike Jonze ironizam a crítica que o “guru dos roteiros” Robert McKee faria ao uso de narração no cinema, como se um bom texto lido em um filme fosse demérito _e se fosse, um filme como “Palavra e Utopia”, do Manoel de Oliveira, não seria a maravilha que é.

Estou rascunhando este texto com rapidez, deixando as idéias fluírem, e não sei se estou me expressando bem (não vou fazer uma revisão nem reescrevê-lo, o tempo urge _mas prometo dar uma olhada nos comentários durante o período de edição e discutir mais e melhor se os leitores desejarem). Tendo dado uma pincelada no problema (que é um iceberg), devo relevar o motivo de estar escrevendo isto, hoje.

Em 2003, mais de dez anos depois de ter feito meu primeiro vídeo, escrevi um roteiro de curta-metragem que foi filmado no ano passado, em película de 16mm, e que finalmente vai estrear, no próximo domingo (25 de novembro, às 15h, no Teatro Nacional Claudio Santoro, com reprise no dia 26, no Centro Cultural Banco do Brasil), durante o 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (o filme passa em São Paulo em dezembro, dentro da 21ª Mostra do Audiovisual Paulista). O desafio a que me propus foi o de conseguir, no espaço exíguo de tempo que o curta oferece (este ficou com menos de 14 minutos), criar, além de um filme, uma peça dramática que contasse uma história com começo, meio e fim (também há muito preconceito com esta progressão temporal natural, embora a maioria dos filmes que busquem fugir dela apenas embaralhem a ordem de apresentação dos fatos _claro que há exceções notáveis, como “O Ano Passado em Marienbad” e outros), com personagens arquetípicos (de acordo com uma tradição cômica que funciona desde a aurora da humanidade), com múltiplos níveis de conflito, alguma metalinguagem e que fizesse referências a questões da contemporaneidade. Algo que eu raramente vejo nos festivais de curtas, que acompanho fervorosamente há muitos anos.

Dos trabalhos que fiz, é o filme que mais se apóia nos diálogos _embora cada cor, objeto, figurino, música, posicionamento de câmera etc. tenha sido minuciosamente pensado _é o meu trabalho mais racional, até porque em sua gênese é um projeto acadêmico. Apenas estas questões formais já estimulam minha curiosidade a respeito da recepção do filme no contexto de um festival (já que o pensei também como uma forma de comunicação com o público leigo, talvez acostumado e acomodado demais com os formatos propagados pela dramaturgia televisiva _embora fazê-lo chegar a este público seja dificílimo), mas faltou falar que ele, além de ser uma comédia (sem evitar o ridículo, o patético, o grotesco, o vulgar _tudo é humano), enfoca personalidades ligadas ao cinema brasileiro mais popular _no caso, as famigeradas “pornochanchadas”, muito vistas por muitos e muito mal-vistas por poucos. Quando o público dos festivais vir Carlo Mossy vestido de Papai Noel e falando “puta que pariu”, qual será a reação: choque, indiferença, desprezo, risadas ou aplausos? E os jurados, o que pensarão? “Ousado”? “Tosco”? “Irônico”? “Estúpido”? Estou louco para descobrir.

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Desculpem! Foi necessário!

Grande abraço!

Lailton Araújo

LAILTON ARAÚJO · São Paulo, SP 25/11/2007 18:17
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