Espírito de cardume

Ilustração: Delfin
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Delfin · São Paulo, SP
6/3/2006 · 101 · 1
 

A cena surreal aconteceu no meio de um debate sobre mercado para a música independente. No meio de um claro embate de idéias e das perguntas de uma platéia atenta e participativa, uma voz arrogante, de uma mulher que se dizia jornalista da Folha de S. Paulo, começou a questionar a importância dos debatedores, desmerecendo cada um deles de um modo vulgar e que revelava seu total desconhecimento sobre o que estava acontecendo ali. A ignorância colocava público e palestrantes em xeque: qual a importância daquele assunto e de quem o estava expondo? Qual o sentido daquilo?

Quando eu me propus a escrever sobre o Humaitá Pra Peixe, festival de música que ocorre há 12 anos na cidade do Rio, também fui colocado em xeque. Afinal, o que havia de novo para se escrever sobre o HPP? Eu tive que concordar que uma dúzia de anos é tempo suficiente para análises, teorias e para que se digam muitas obviedades. Coisas como apontar o evento como celeiro de novas bandas, vitrine de valores musicais ou, ainda, ponta-de-lança para os futuros sucessos sonoros. Tudo isso não deixa de ser verdade, mas o que mais haveria lá? Eu me propus a descobrir e, durante todo o mês de janeiro (e um pedacinho de fevereiro), me misturei ao público para observar. Tentar descobrir a cola que gruda tudo aquilo.

Resolvi que não iria ouvir nenhuma banda antes dos seus shows. O site do HPP fornecia a possibilidade de conhecer um pouco do trabalho de cada artista que estaria tocando. Mas, para ir despido de qualquer julgamento, eu me impus o desconhecimento total. Ou quase, pois já conhecia o trabalho de uma das bandas, o Cidadão Instigado. O que foi bom: a quantidade de nomes que não me era familiar só me fez prestar atenção em reações, no público, no ambiente.

Nos nove dias oficiais de shows, teve de tudo. Bandas adolescentes fazendo o mais puro emo, pra delírio de uma galera que ainda nem pensa a sério no serviço militar. Rock mais ácido, para ouvidos menos delicados. Rock com vozes melodiosas, para sentidos agridoces. Sons viajantes, atormentados e atormentadores, que deram um tom lisérgico à platéia. Pedaços do céu e do país, expostos em sobrenomes de artistas que revelaram um tom de qualidade para a música popular. Guerra de rima e poesia, com palavras duras e ritmo cadenciado. Sempre com a participação expressiva do público, fosse ele de superlotar o Sérgio Porto, fosse modesto a ponto de todos poderem se sentar.

É um belo painel musical. Só que muitos festivais pelo Brasil também o são. Mas o HPP possui um bom diferencial: a realização de um debate, versando sempre sobre o mercado musical para o cenário independente e das bandas emergentes. Ele já acontece há três anos e, na edição de 2006, contou com a presença de jornalistas de mídia impressa e eletrônica, um representante do novíssimo mercado de comércio musical via internet e dois artistas, um consagrado e o outro independente. Pessoas de qualidade inquestionável: Frejat (Barão Vermelho), Gabriel Thomaz (Autoramas), Wilson Cunha (Multishow), Antônio Carlos Miguel (O Globo) e Felippe Lerena (iMúsica). Digo, inquestionável para todos, menos para a pretensa repórter de Folha.

Na verdade, ela não era repórter coisa nenhuma. Mas a questão dela tinha razão de ser. De muitos modos, foi o que me motivou a ir até o Humaitá por todo um mês. Eu ainda não tinha exatamente uma resposta. E sentia tudo meio vago em minha cabeça até o dia seguinte ao debate, um 2 de fevereiro nublado em que haveria um show de encerramento numa noite extra do festival. Era um tributo ao músico Liô Mariz.

Liô, nascido Leonardo Mariz de Oliveira Resende, era compositor e vocalista do Som da Rua, banda carioca que se apresentara na edição passada do HPP. No último dia 13 de dezembro, Liô morreu num acidente envolvendo o seu Fiat Uno com um coletivo. Uma perda sentida por toda a cena musical do Rio, da qual Liô era defensor e para a qual trabalhava ativamente. Integrantes desta cena tiveram a feliz idéia de homenageá-lo numa noite extra do HPP, atitude que foi levada avante por Bruno Levinson, organizador do festival, e por todos os envolvidos com a produção do evento.

O ambiente não tinha nada de triste. Bem ao contrário, o que se via era um ar de contentamento de todos os que chegavam ao centro cultural. Integrantes de várias bandas se preparavam para a homenagem, que aconteceu poucos dias antes do aniversário de Liô Mariz, 5 de fevereiro. Alguns iriam tocar, outros apenas assistir. Dava pra contar gente de pelo menos 15 bandas locais por lá, além de muitos fãs. Um dia lotado, que contou basicamente com o boca-a-boca para a divulgação. Compareceram, efetivamente, pessoas que queriam ajudar a fazer o barulho que Liô gostava que fosse feito nos shows do Som da Rua.

A homenagem começou com vídeos comemorativos exibidos antes da apresentação de duas bandas especiais, compostas por membros de bandas heterogêneas e que se juntaram especialmente para o tributo. E, então, o barulho começou. Especificamente, com um minuto de barulho, o contraponto perfeito aos mórbidos minutos de silêncio em solenidade. O que se viu depois foram interpretações inspiradas de músicas de Mariz, sempre acompanhadas pelo público, que, aos poucos, foi se envolvendo no ambiente.

Após os dois mini-shows de homenagem, foi a vez do Som da Rua entrar no palco. E era claro, neste ponto, que aquele show era, para a banda, a confirmação do carinho do público por eles, eleitos em enquete popular do Globo Online como o conjunto preferido dos espectadores. E foi emocionante, com a participação do irmão de Liô, Marcelo, e de Arnaldo Brandão. Ao final, todos subiram ao palco para cantar Só uma canção, música que era o carro-chefe do primeiro disco da banda. A letra diz, em certo momento: "Pois tudo que restou fomos nós". Cantado por mais de vinte músicos simultaneamente num palco, naquela situação, aquilo adquiriu outro sentido. Pois, como havia sido anunciado antes da primeira banda, naquela noite nós todos éramos Liô.

Mas, na verdade, era mais que isso. Naquela noite, a união em torno da homenagem a um nome participante de uma cena deixou exposto o elo que há para que a mesma exista. Esta união é a idéia. O Humaitá Pra Peixe reflete, na verdade, este sentido de corrente, ao fazer com que haja uma cena que o apóie. Pois todos que um dia já passaram pelo palco do festival são, cada um, um dos peixes que ajuda a formar o cardume, que só cresce a cada ano, e que só existe porque peixarada que se preze tem que se manter unida. É este o espírito de um evento que, realizado a duras penas financeiras em 2006, continuará ainda por muito tempo.

Teoria elaborada? Análise profunda? Nada disso. Mas é a importância real do Humaitá Pra Peixe existir. E é também o único sentido de eu estar aqui, escrevendo este texto: o espírito deste cardume faz valer cada palavra.

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absurdosturos
 

Ótimo, Delfin. Pena que uma iniciativa tão legal quanto o HPP pene tanto pra acontecer, pena que seja tão difícil pro Bruno realizar cada edição, pela falta de patrocínio e pela falta de público - principalmente pela ausência do público, pois, sem o apoio massivo deste, fica difícil conseguir patrocínio e, sem receita, fica impossível realizar um festival, mesmo de pequeno porte.

E, com o perdão da palavra, pau no cu da pseudo-jornalista da Folha.

absurdosturos · Rio de Janeiro, RJ 12/4/2007 17:15
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