Gengibre e Ganga Zumba

Paulo Sacramento - www.paulosacramento.com.br
Missa da Consciência Negra no Bairro de Fátima, Ponte Nova/MG
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Paulo Sacramento · Viçosa, MG
31/12/2006 · 128 · 1
 

Desde que havia entrado no Gengibre – Grupo Interdisciplinar de Estudos Sobre Cultura Popular, ouvi muito falar no Ganga Zumba. Demorou algum tempo até que eu tivesse a oportunidade de conhecer o trabalho deles. O grupo afro desenvolve projetos sócio-culturais no mesmo lugar em que foi criado, há aproximadamente quinze anos, no bairro Nossa Senhora de Fátima, na cidade de Ponte Nova/MG. Em meu primeiro contato com o projeto realizei algumas fotos da Missa do Dia da Consciência Negra, promovida pela entidade em parceria com a Igreja Católica. Foi surpreendente ver a igreja do bairro completamente transformada. Várias coisas me chamaram a atenção naquela noite, como por exemplo, a missa ser celebrada por um padre que vestia uma bata de estilo afro, enquanto instrumentos de percussão de origem africana eram utilizados na execução das canções litúrgicas. Algumas das que mais me impressionaram falavam sobre o passado de escravidão, exaltando o poder libertador de Jesus Cristo. A igreja estava decorada da uma maneira totalmente diferente também. No portal de entrada foram colocadas grandes folhas de palmeira. Já no altar, encontravam-se objetos que pareciam representar oferendas. Voltei para Viçosa empolgado, tentando decifrar como haviam se combinado os elementos daquela manifestação religiosa que acabara de presenciar. Ao chegar em casa vi que consegui fazer algumas fotos interessantes, inclusive as melhores estão disponíveis aqui neste artigo. Bem, esta foi minha primeira experiência de interação com o Ganga Zumba.

Algumas semanas depois, voltei ao bairro de Fátima juntamente com Ana, outra integrante do Gengibre. Nós fomos lá para oferecer ao Ganga Zumba uma oficina sobre o tema "Fotografia e Identidade". Não posso me esquecer de falar que os temas das oficinas são sugeridos pelos integrantes da comunidade, ou seja, nós nunca vamos lá impondo um assunto que não lhes interessa. Dessa forma, iniciamos levantando uma série de questionamentos aparentemente fúteis, como "Quem tem fotos na parede da sala ou dentro da carteira?", "Quem já perdeu alguma foto importante?" e "Alguém tem uma história interessante envolvendo uma fotografia?". Ana e eu então utilizamos as perguntas como fio condutor da reflexão coletiva que nos levou a repensar como nós nos vemos, em como a fotografia podia ser uma boa aliada no ato de relembrar pessoas e momentos especiais. Também perpassamos as questões de como recordamos as mudanças na própria vida, as transformações que ocorrem no lugar em que vivemos e nos valores que possuímos em comum - todas essas ações mediadas pelo registro fotográfico. Um dos objetivos principais era ajudá-los a reconstruir a própria imagem, não só no sentido de se perceberem enquanto negros, mas principalmente como pessoas especiais e preciosamente únicas. Ao fim da conversa, tiramos três conclusões: que devemos nos lembrar de fotografar as atividades do Ganga Zumba, que devemos organizar e anotar as informações nas fotos (sejam digitais ou ampliadas em papel fotográfico), e que devemos preservar as fotos e cuidar delas para que não se estraguem.

A preocupação em cuidar da preservação das fotos do grupo faz mais sentido ao lembrarmos que o Ganga Zumba já possui aproximadamente quinze anos de idade. Seu Pedrinho, líder do grupo, conta que em meados da década de 90 o grupo perdeu forças e quase acabou. Foi necessário o empenho constante de Seu Pedrinho para que o grupo não terminasse. Também é curioso notar que o grupo surgido como um mero conjunto de música baiana, executando o que seus membros chamavam de "som africano", ofereça hoje aos moradores do bairro aulas de dança, percussão, capoeira e já tenha até um coral formado. Dentre as atividades de cunho social, a população do bairro conta com um cursinho pré-vestibular, cursos de corte e costura, e dentre outras iniciativas, ações de arrecadação periódica de alimentos para famílias necessitadas. No contexto sócio-econômico em que estão inseridos, a maior parte da população possui baixo poder aquisitivo e há carência de serviços básicos do governo. Participam do grupo não só adultos, como crianças, mulheres e jovens. As reuniões ocorrem na própria sede do grupo, edifício cuja construção ainda não está concluída. Seus membros agem impulsionados pelo desejo de valorizar a identidade negra, assim como as práticas culturais afro-brasileiras das quais são herdeiros.

Disposto a promover o aperfeiçoamento dos percussionistas e dançarinas da comunidade, no fim do ano de 2004, Seu Pedrinho buscou apoio no Departamento de Artes e Humanidades da Universidade Federal de Viçosa. Depois de conversar com Carla Ávila, líder do Gengibre e professora do curso de graduação em Dança, ocorreu na casa de Seu Pedrinho, no dia 14 de janeiro de 2005, uma reunião do Gengibre com as lideranças do Ganga Zumba. Não tenho receios de falar em nome do Gengibre que poder ajudá-los tem sido realmente muito gratificante. Por meio do trabalho com eles, particularmente, aprendi uma lição que julgo extramente valiosa: que o conhecimento acadêmico pode ser traduzido em uma linguagem mais simples e acessível às pessoas que não entram na universidade. O Gengibre tem trabalhado em um livro que narra a história de interação com o Ganga Zumba, contando sua trajetória, dificuldades, superações e perspectivas. O livro irá falar sobre os trabalhos desenvolvidos pelo Gengibre na comunidade, da participação em eventos organizados pelo Ganga Zumba, assim como do apoio do mesmo aos projetos artístico e culturais promovidos pelo Gengibre. Há de se destacar também os eventos produzidos pelo Ganga durante o ano de 2006, como a Missa Conga e as festividades da Semana da Consciência Negra. Por fim, o Gengibre poderá entregar ao Ganga Zumba os registros fotográficos, sonoros e escritos realizados. Creio que com seu lançamento será reforçado o ideal de que é possível, rico e, para ambos, benéfico o diálogo de organizações populares e grupos de estudos acadêmicos. Pode ter certeza, vale a pena.

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Alê Barreto
 

Me chamou muito atenção as seguintes questões: "lembrar de fotografar atividades", "organizar e anotar as informações nas fotos", "preservar as fotos" e "o conhecimento acadêmico pode ser traduzido em uma linguagem mais simples e acessível às pessoas que não entram na universidade". Muito obrigado pel conteúdo rico, está me produzindo muitas reflexões.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 31/12/2006 13:37
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