Grito Rock Petrópolis

Vane Oliveira
Roots of Hate no Grito Rock Petrópolis 2013
1
Rafael Lage · Niterói, RJ
20/2/2013 · 0 · 0
 

Artes integradas na Cidade Imperial

Em busca de testemunhar e mapear as particularidades e processos produtivos de coletivos culturais do estado do Rio de Janeiro, parti ao encontro das cidades produtoras do Festival Grito Rock, evento realizado de forma colaborativa, que em 2013 conecta 300 cidades de 30 países. Assim como Jack Kerouac - pé na estrada e mochila nas costas - pretendo conhecer e (porque não?) participar das manifestações culturais destes coletivos que, facilitados pelas novas mídias digitais, vêm se interconectando e aprendendo na prática princípios de empreendedorismo musical.

O primeiro festival (e o único durante o carnaval) realizado no estado do Rio de Janeiro foi o Grito Rock Petrópolis. No dia 08 de fevereiro de 2013, acontecia a terceira edição do evento na Cidade Imperial. Realizado na Boate Savana, o Grito Rock produzido pelo coletivo Petrópolis Inc mostrou-se o resultado do trabalho coletivo não apenas de músicos e produtores culturais, mas de toda uma série de artistas e agentes ligados a artes plásticas, poesia, grafite, tatuagem e moda.

Conversando com Alex Bello e Deyanira Garcia, dois dos responsáveis pelo coletivo e integrantes da banda Neutrônica, descobri que esta característica de artes integradas percorre todos os eventos produzidos pelo coletivo, como também foram o Festival de Inverno e será o Tomate Seco. A reunião de linguagens artísticas revela-se dessa forma uma força maior para o coletivo, que integra mais participantes e dá a oportunidade de artistas independentes muitas vezes sem espaço para mostrar seu trabalho não apenas apresentá-los, mas também participarem colaborando e agregando valor aos eventos.

Já antes de abrir, a casa estava repleta de todo tipo de obras: quadros espalhados pela parede, stands de piercing, zines, roupas e fotos de show. Um grande destaque no evento era dado à poesia, que também mostrou-se uma força colaborativa na cidade: o Confraria da Poesia Informal, integrado por Catarina Maul e diversos poetas e escritores. O coletivo expunha quadros, fotos, grafites e um varal de poesias, todas escritas a partir do tema “grito”. A participação do coletivo poético também leva a entender mais uma das forças do movimento independente na cidade: ele é, na verdade, um coletivo de coletivos.

Mas o que une e entrelaça fortemente toda essa movimentação cultural é mesmo a música. O evento contou com sete apresentações, sendo cinco delas da cidade e duas convidadas de fora.

Por volta de 19hs, a casa começava a encher para a primeira apresentação: a Pulse, de Petrópolis, abria o evento com um rock pesado com influências de Incubus e Linkin Park. O vocalista, muito carismático, brincava o tempo todo com a plateia e fazia piadas com os amigos presentes ao show. A banda apresentou músicas próprias com letras em português e inglês e covers de bandas como Queens Of The Stone Age e Incubus. Rodas de pogo (sempre frequentes) se abriam durante todo o show enquanto o grupo tocava com competência. Ao final, o vocalista discursava em favor da música independente: “é muito fácil bater palma pra banda cover. Artista autoral que sempre se f*** tem que ser valorizado. Bate palma pra nossa música aí!”

Tal fator é notável em shows e cenas musicais independentes: o grito pela autoralidade, autonomia musical e a necessidade de se manter um circuito sustentável para este tipo de arte. E foi esse o esforço que percebi acontecendo ali no Grito Rock Petrópolis.

Já com a casa lotada (em torno de 500 pessoas), a Putrefatos (também de Petrópolis) manteve a roda de pogos ativa com um punk/hardcore ramonesco que em alguns momentos de fúria lembra também Ratos de Porão, Black Flag e GBH. A banda é formada por guitarra, baixo e bateira e um vocalista alto que berrava letras como “Xana é aidética” e covers de Ramones como “Now I Wanna Sniff Some Glue” e “Commando”. Atendendo a pedidos, a Putrefatos encerrava o show com a já famosa, entre o público, “Madre Teresa”: que “foi descabaçada numa noite de natal”.

A terceira a subir ao palco foi a Roots of Hate, que se apresentou para uma plateia abarrotada de fãs que demonstravam conhecer todas as músicas. “Esse show é de vocês”, anunciava o vocalista. Emendavam logo em canções trash/speed metal, com letras em inglês, uma ótima execução e a roda de pogo comendo na plateia. Em meio a covers de “Cowboys From Hell”, do Pantera e “From Whom The Bell Tolls”, do Metallica, a banda apresentava composições próprias como “Hate Machine” e “Hell Can Wait”. Todos cantando. Abusando também dos covers, a Roots of Hate mandava “Territory”, do Sepultura, e “Ace Of Spades”, do Motorhead. Antes de encerrar o show, o vocalista agradecia o apoio do site Eh!Música, que cobre e produz conteúdo para as bandas da cidade, me lembrando outro ponto forte do coletivo Petrópolis Inc: a organização e esforço em torno da produção de conteúdo (vídeos, fotos e divulgação virtual) para as bandas e a cena musical da cidade.

A quarta banda era a Nardones, da cidade de Niterói. O grupo subiu ao palco com forte apelo visual inspirado em contos de terror, abusando de maquiagem e roupas de inspiração macabra. O estilo horrorpunk da banda manteve viva a roda de pogo que naquele momento também se transformava em moshs: “abre a roda aí galera, o cara quer dar um mosh”, anunciava Victor Rocha, vocalista da Nardones. Vestindo um jaleco “ensanguentado” do Hemorio, Victor apresentou letras como “os mortos caminharão e você vai ver / mais cedo ou mais tarde, você vai morrer”.

E como o próprio vocalista anunciava, toda boa banda tem uma balada. Eles mandavam a ótima “O Chamado”, uma homenagem a H.P. Lovecraft, criador do horror. Mesmo com o palco se abrindo sob seus pés, o baterista apresentou um solo e depois a banda voltava à “programação normal”, com músicas como “A Coisa Veio do Espaço”, “A Sete Palmos” e “Eu Não Sei Dizer Adeus”, com a plateia cantando junto.

Logo após, a Hover, de Petrópolis, chegava para se apresentar. Com um som inspirado no indie rock, a Hover parecia deslocada em meio a tantas bandas de rock pesado. Nem por isso o grupo esmoreceu, mostrando um rock vigoroso com letras em inglês e citações, em tom de brincadeira, de “Enter Sandman” e “I Believe in a Thing Called Love”, do Darkness. Bradando um divertido “chega mais, galera, a gente tá cherosão”, a Hover apresentou canções próprias e covers de Artic Monkeys, Smashing Pumpkins e Beatles. Esta última, uma genial versão de “Eleanor Rigby” recheada de guitarras, com dedilhados preenchendo o espaço da orquestração original da música. No fim do show, agradecem o apoio de Olliver Reeve, artista plástico da cidade que expunha diversos quadros no evento, com destaque para uma versão da Santa Ceia com caveiras.

Logo depois, quase com a mesma velocidade que subia ao palco, Felipe Ricotta descia, após tocar alguns poucos acordes em sua guitarra e produzir alguma microfonia, deixando seu próprio baterista surpreso e a plateia sem reação. O projeto de Felipe é um duelo sonoro entre o artista e um baterista convidado, produzindo material inédito a cada apresentação. Talvez possamos pensar este happening analisando-o sob a ótica de compositores vanguardistas como John Cage em peças como “4:33”, onde os músicos presentes não tocam nada, enquanto o som ambiente cria sua própria peça musical concretista.

Após a apresentação relâmpago, a Itsari subia ao palco munida de aparatos tecnológicos, guitarras pesadas e letras alternando inglês e português. A banda encontrava problemas com o som, mas mesmo assim iniciou sua apresentação, em um metalcore recheado de efeitos eletrônicos, vocais guturais se alternando com passagens cantadas e ritmos em andamento lento, quase tribal, contrapondo-se a ataques de aceleração grindcore. A roda de pogo retornou, mas infelizmente a banda tocou poucas músicas, prejudicada pelos problemas técnicos. Mesmo assim, deixou uma boa impressão e a certeza de ser uma banda respeitada na cidade, com fãs próprios, resultantes de um trabalho sólido que já rendeu apresentações em festivais como o DemoSul (Londrina – PR) e Kool Metal Fest (São Paulo), além de clipes como Loony by Chy, veiculado na MTV brasileira, e apresentações ao lado de bandas como Throwdown (USA), No Turning Back (Holanda) e The Black Dahlia Murder (USA).

O evento terminava me deixando a certeza de que o que une tantos artistas e agentes em torno da música é a necessidade de fomentar o trabalho autoral em uma constante luta por autonomia criativa. Cada cidade do estado é movida por suas necessidades e problemas, mas também pela criatividade de seus agentes culturais, empregada na busca de soluções para se criar diferentes processos produtivos.

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, não encontraremos, nem de longe, situações culturais parecidas em suas diversas cidades. É preciso, assim como Sal Paradise e Dean Moriaty (do livro “On The Road”, de Jack Kerouac ), botar o pé na estrada, para só assim presenciar e desvendar as peculiaridades - com suas belezas, virtudes e problemas - deste continente chamado Brasil.

O próximo passo é o Grito Rock Rio de Janeiro, no Circo Voador, dia 23/02, com a Ponte Plural, coletivo do qual faço parte. Os outros eventos no estado acontecerão em: Cabo Frio, 24 de Fevereiro, Três Rios, 02 de Março, Duque de Caxias, 02 e 03 de Março, Volta Redonda, 09 de Março, e Saquarema e Resende, com datas ainda a serem definidas.

Sobre o Festival
O Grito Rock é um festival realizado em rede, produzido de forma colaborativa desde 2005, em diversas cidades do mundo, de fevereiro a março, período de festas relacionadas ao Carnaval brasileiro, e se apresenta como uma opção complementar aos tradicionais festejos.

Conectando 300 cidades de 30 países, o Festival Grito Rock se torna global em 2013. Além da América Latina, mais países da Europa, Oceania, África integram-se ao evento.

Mais informações:
http://gritorock.com.br

compartilhe

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados