.Mamelo Sound System - Entrevista.

.joao xavi.
.Mamelo Sound System em ação na festa Phunk.
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joao xavi · São João de Meriti, RJ
12/8/2007 · 103 · 1
 

Depois de dar as caras em várias listas de melhores do ano com o disco Velha Guarda 22, o Mamelo Sound System reaparece em grande estilo nas páginas virtuais da Rock Press. Trocamos uma idéia via e-mail com Rodrigo Brandão, MC do Mamelo e legítimo representante da contemporânea malandragem paulistana. Sim, existe malandragem sonora do lado de lá da Dutra.

Na entrevista Rodrigo esclarece alguns dos mecanismos de funcionamento desta verdadeira entidade urbana. Fala do processo de produção, as parcerias envolvidas e os objetivos. Confira o resultado deste papo reto:

O que Velha Guarda 22 tem a dizer ao mundo?

Classe que você perguntou isso, sinal de que a gente conseguiu passar o recado… porque esse disco é um manifesto, uma carta de intenções, que vem com os ventos da mudança que começam a soprar no hip hop do Brasa. Tem a dizer que o Terceiro Mundo produz música original, diretamente do lado de fora da Matrix, livre de clichês sociais, étnicos, estilísticos e estéticos. Tem a dizer que rap (dazantiga e novidade), psicodelia, batuques afro-brasileiros, a cidade de SP, nenês recém-nascidos, discos de vinil, lírica-navalha, Sun-Ra e atitude punk (no sentido do Faça Você Mesmo) tem tudo a ver entre si, One Nation Under A Groove mesmo. Som de b-boy maluco made in Brasil - com S!

Pode-se dizer que é um disco mais pessoal, instrospectivo ou espiritualizado que os anteriores?

Concordo com os três adjetivos, é isso, sim. Antes, a gente escrevia em terceira pessoa, como espectros que flutuam sobre a city e narram suas observações. Nesse disco a coisa passou pro nível do Pessoal & Intransferível.


E esse time de participações, como foi reunir toda essa rapaziada sinistra em um só álbum?


Essa, por incrível que pareça, foi uma das partse menos complicadas da jogada toda, porque a gente não divide o processo criativo com qualquer um. Primeiro, tem que admirar o trabalho da pessoa, depois tem que rolar uma sintonia natural, e daí, sim, a coisa flui beleza. Em conseqüência desse nosso modus operandi (que nem é opcional, na real a gente não funciona na forçada mesmo), a maioria dos convidados é gente com quem a Lurdez Da Luz e eu desenvolvemos uma relação de amizade pessoal. E os gringos, como a lenda Tony Allen e o MC Sebastian Laws, foi coisa de conhecer pouco e curtir muito, sabe?


Como rolou o o processo de composição e produção do disco?


Foi uma parada doida, rolou uma conexão de intenções e idéias, numa intensidade tamanha, entre nós e o Scotty Hard, que nem a surpresa de ter que mixar o disco todo de madrugada (a partir da uma hora!) baixou a bola. Não teve uma briga, discussão, discordância ou clima ruim durante todo o processo. Antes desse disco, eu curtia muito mais fazer show do que gravar, agora ambas as coisas me trazem satisfação.


Como foi a experiência de fazer um disco nestes tempos de loucura no mercado fonográfico? Vocês disponibilizaram o disco inteiro, inclusive a arte gráfica no site. Comentem um pouco essa decisão.

Esse disco era uma coisa necessária pra nossa existência aqui na Terra. Foi um período difícil e ao mesmo tempo importante pra caralho, aquela coisa de que “a vida molda as pessoas” é mais real que um ataque cardíaco. Então, enquanto provas (literalmente) vivas disso, nós não podíamos deixar de contribuir com nosso testemunho. Por tudo isso, a situação do mercado fonográfico acabou não contando muito pra gente na hora da decisão de fazer o álbum do jeito que ele foi feito. Mas é claro, tamo bem ligado que essa trilha é - desde sempre - árida, e que agora tá mais embaçado ainda, porque quem vive essa época tem, ao mesmo tempo, a bênção e a maldição de presenciar O Fim Do Mundo Como Nós Conhecíamos.

Agora, a opção de liberar o disco é assim: eu cresci basicamente movido a fita cassete gravada, porque a vontade de ouvir e conhecer música era muito maior que o poder aquisitivo da minha família. Então, enxergo a coisa de um jeito parecido - não quero que ninguém deixe de ouvir o Mamelo porque não tem grana pra comprar o CD. Só que o outro lado da moeda também é verdadeiro, ou seja: se todo mundo baixar e ninguém comprar, a tendência é que isso impossibilite (ou no mínimo dificulte bastante) a produção de um próximo trabalho. Então, é uma questão de consciência mesmo… quem tem dinheiro, compra pra apoiar, pra ver a coisa progredir, e quem é durango kid não fica excluído.


O que vocês acham da situação da música brasileira contemporânea?


A maioria das glórias nacionais vêm do passado, poucos são os talentos que têm chance de brilhar na atualidade sem abduzir a alma. Então, tirando os mestres (ativos ou não), sobra pouca coisa que interessa. Eu enxergo a Nação Zumbi, os Racionais MC’s, o mundo livre S/A, o Rappin’ Hood, a Céu, o Rua de Baixo, o Hurtmold, o Mzuri Sana, o Siba, o Elo Da Corrente, a Thalma De Freitas, o Contra-Fluxo, o Tetine, o Simples, a Geanine Marques, o Akin, o CSS, a Cibelle, o Mr. Catra e… cabô.

Vocês tocaram em importantes festivais na Europa e no Brasil, tocando inclusive com o De La Soul, como vocês acreditam que isso soma pra carreira do Mamelo?

Tenho a impressão de que cada vez que você sobe num palco, vale mais que dez ensaios. Quando é muita gente concentrada na tua frente então, aí não tem ensaio que te prepare praquilo. Nessas, cada show é tipo “avance duas casas”, e nesses dois casos específicos que você citou, rolou o “avance sete casas”, tá ligado? Porque o sabor de pôr os pés num país que você não conhece, levado pelo som que começou lá no quartinho de casa, é uma coisa que não tem preço. E trombar os caras do De La no corredor que leva ao palco, mais de uma década depois de 3 Feet High & Risin’ ter mudado a tua vida, também não. Num país onde o reconhecimento (e um conseqüente retorno financeiro) é praticamente nulo pra quem não tá na lista de Robocops Das Gravadoras Major, esse tipo de acontecimento funciona como combustível pra seguir em frente.

O show do Mamelo vai além da música, rola também um trabalho visual com projeções. Como vocês acham que isso pode contribuir pro show? Existe uma estética Mamelo?

Nunca teve essa conversa de Estética Mamelo, não… é o tipo de coisa que foi rolando naturalmente, sem muito caso pensado. Mas tanto a Lurdez quanto eu somos fissurados em cinema, quadrinhos, ambos temos muito gosto (e pouco tempo) pra leitura. Então acho que essas coisas aparecem no som e no show. Mas na verdade, a gente tem sorte de ser camarada dos Embolex, uns malucos que dominam a arte do VJ, curtem nosso som, sacam e englobam as referências que pontuam nossa conversa cotidiana. Na faixa “Zulu/Zumbi”, por exemplo, eles usam cenas do Fela Kuti, que não é citado nessa letra (mas em outra, sim!), só que o espírito da canção tem a ver com ele, então a coisa fortalece a mensagem música, somando um elemento novo, ao invés de repetir em imagens o que a letra diz – o que seria redundância pura e besta.

Daqui pra frente, quais são os planos do Mamelo pra 2007?

A idéia é tocar em tudo quanté canto do Brasil e do mundo que a gente conseguir chegar, espalhar nosso som, promover o Velha-Guarda 22 e o site (www.mamelo.com), conhecer lugares e criaturas no percurso, tocar e gravar com entidades parceiras e, se Deus quiser, fazer um clipe e lançar um single em vinil antes que 007 se acabe.

Pra finalizar e esclarecer: Mamelo faz música de festa, ou música de luta?

As duas coisas, tudo junto e misturado, com muito amor, dedicação e doidêra. E tenho dito.

Entrevista originalmente publicada no site Rock Press.

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Judah Zulu
 

DA hora a entrevista e as idéias queforam fluindo...è isso aí, se vc passa a liberdade da éssoa se expressar, podescrer que é a possibilidade de sair idéias boas... Caso do MAmelo e do saudoso Rodrigo Brandão...
Zulu NAtion para todo o universo... One Love, One Nation...

Judah Zulu · Curitiba, PR 8/11/2007 12:59
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