Música é a Arma

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Walisson Menezes · Contagem, MG
6/6/2012 · 8 · 0
 


Poucas vezes um som me causou um impacto tão forte quanto a primeira vez que escutei Fela Kuti, o Rei. Fui abatido já nos segundos iniciais de “Zombie” (1976). Assustado, parei tudo para prestar atenção e só fui dar por mim nove minutos depois. Era como se meu cérebro tivesse sido espancado.
Fela Ransome Kuti, nasceu na Nigéria, em 1938. Filho da primeira mulher a dirigir um automóvel no país e do primeiro presidente da União Nigeriana de Professores. Cresceu em berço revolucionário. Mudou-se para Londres em 1958 para estudar medicina mas acabou deixando o curso para estudar música. Anos depois, sua vida mudaria ao conhecer os Panteras Negras, em uma temporada nos Estados Unidos, no final dos anos sessenta. Nesse período, Fela foi fortemente influenciado pela música negra norte americana e pela ideologia Black Power. Quando retornou à sua terra natal, fundou a República Kalakuta, que declararia independência deixando o governo nigeriano furioso. A República Kalakuta era uma comuna e estúdio de gravação, que servia de abrigo para os músicos da banda de Fela, a Africa 70 e seus familiares e amigos. Chegou a ter centenas de moradores.

Mudou seu nome de Fela Ransome Kuti para Fela Anikulapo Kuti. Ransome era o nome de um escravo, já Anikulapo o nome de um rei. A cada música lançada Fela Kuti se tornava mais famoso e reconhecido, na África e no mundo. Era considerado um profeta, um rebelde revolucionário e um rei em sua república. Seu som era tão original que passou a representar um estilo à parte, o Afrobeat. Cada música era uma viajem de dez, quinze, vinte minutos; repletas de ferozes ataques ao governo e ideais de liberdade, eram uma fusão entre o Jazz, o Funk, High Life e vários outros ritmos africanos.A duração de suas músicas talvez tenha sido o principal motivo para que não ficasse conhecido no restante do mundo. Mesmo assim, ficou muito popular entre os africanos em geral e dizia sempre que ainda seria presidente da Nigéria.

À medida que sua popularidade aumentava, crescia também o ódio do governo, que via no músico e sua comuna, uma ameaça em potencial.

Hakim Bey dizia que “No Oriente, às vezes os poetas são presos – uma espécie de elogio, já que sugere que o autor fez algo tão real quanto um roubo, um estupro ou uma revolução.” Fela Kuti fez algo tão real quanto um crime quando lançou “Zombie” em 1976. Estrondoso sucesso, a música compara os soldados nigerianos a zumbis que não pensam, só obedecem ordens.

“Zombie no go go, unless you tell am to go
Zombie no go stop, unless you tell am to stop
Zombie no go turn, unless you tell am to turn
Zombie no go think, unless you tell am to think”


Outra canção lançada nessa época é “Sorrow, tears and Blood” que também é um ataque direto às forças de segurança da Nigéria, e fez tanto sucesso quanto “Zombie”.

Foi a gota d’água para o governo. No auge do sucesso, a República Kalakuta foi brutalmente atacada por mais de mil soldados. Eles incendiaram o lugar, estupraram mulheres e espancaram a todos, inclusive Fela e sua mãe, em cadeira de rodas. Os animais chegaram ao absurdo de matar a mãe do músico jogando-a pela janela. Revoltado e ferido, Fela Kuti conduz uma manifestação levando o caixão de sua mãe até o principal quartel da capital Lagos.

Anos depois, a comuna seria atacada novamente e Fela espancado mais uma vez. Fundou o partido Movimento do Povo e tentou candidatar-se à presidência, mas como era esperado, não teve seu pedido de candidatura aceito pelo governo. Até hoje dizem que se sua candidatura tivesse sido aceita teria chegado à presidência. Foi inúmeras vezes injustamente acusado pelo governo por vários crimes. Continuou lançando álbuns de sucesso e crítica social até ficar impossibilitado pela AIDS e falecer em agosto de 1997.
Fela Kuti é visto hoje como o maior músico africano da história. É um deus para o povo africano. O Afrobeat influenciou incontáveis artistas ao redor do mundo, como Gilberto Gil, Chico Science e outros. Está entre os músicos mais importantes e influentes da história. Foi quem melhor soube provar que a música tem sim o poder de mudar o mundo.



(Walisson Menezes)

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