Música, Poesia & Canção Para Pedro Morais

a fonte - marcel duchamp
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francesco napoli · Belo Horizonte, MG
31/7/2009 · 2 · 0
 

Participei, no mês passado, da semana acadêmica do curso de comunicação social da Universidade de Viçosa, eximiamente produzida pelos discentes. Discutimos, eu e o professor da UFV Willer Araujo Barbosa o tema “Democratização da Arte e da Comunicação”. O debate, que proficuamente se estendeu noite adentro, provocou saudáveis inquietações nos interessados/interessantes alunos que nos colocaram algumas questões que são o mote deste texto.

A canção é um gênero híbrido. Há no mínimo dois territórios nos quais ela se situa: a música e a poesia. Nos primórdios das civilizações estas categorias estiveram unidas. Sabemos que para os gregos a música envolvia impreterivelmente o texto. Hoje vivemos a cisão entre a música erudita, considerada indubitavelmente sofisticada e de alta qualidade artística e a música popular, que por aliteração suscita o moderno “pop” (que tem origem onomatopéica a partir do estouro da pipoca - pop corn). Enquanto o termo “popular” tem sua origem nas manifestações culturais mais espontâneas e autênticas, o termo pop vem da fugacidade do estouro da pipoca, característica da modernidade. A cultura de massa e sua lógica indiferente: uma onomatopéia – o pop do estouro da pipoca - se aproxima por aliteração do termo “popular” que não tem nada de efêmero, fazendo-os parecerem sinônimos. É claro que, mesmo antes de existir a cultura de massa, as pessoas gostavam de aproximar as palavras por sua forma (significante) independentemente de seu conteúdo (significado), recurso literário espontâneo, presente nas culturas mais humildes. E é fato também que a indústria cultural não só molda nossa forma de fruir a arte, como também incorpora as manifestações culturais transformando-as em mercadorias, como nos disse Adorno, que preteriu a expressão benjaminiana “cultura de massa” preferindo o termo “Indústria Cultural”, justamente por não querer incluir o termo “cultura” ao processo de manipulação das massas.


Mas é impossível separamos o pop do popular. A cultura de massa é a forma moderna da cultura e, melhor ou pior, é o modo pós-moderno de vivenciar a arte. E mesmo havendo este processo denunciado por Adorno, segundo o qual a indústria cultural molda nossa forma de fruir a arte, isto não retira a possibilidade de uma fruição profunda e exitosa. A indústria cultural tende a padronizar tudo, mas assim como a própria natureza, o homem é multiplicidade e inexauribilidade e alguns vão sempre escapar a esta padronização.

Acredito que a música pop/popular é um território rico no qual é possível fazer arte inovadora e de qualidade. Aqui reside um paradoxo: Por mais que a cultura de massa seja conservadora, ela vende a idéia de modernidade e inovação. Se o público dos barzinhos quer ouvir sempre as mesmas músicas e isso te incomoda, você esta no lugar errado. Há de haver vários públicos para várias vertentes, há de haver públicos interessados em inovações e trabalhos autorais. A cultura de massa segue a lógica da racionalização e padronização de tudo, mas o mesmo sistema que gerou a cultura de massa gerou também a internet que mesmo com todos os problemas é o meio de comunicação mais democrático que eu conheço. O único que não implica concessão do governo para ser utilizado como meio de divulgação de idéias, obras artísticas, movimentos e reuniões por afinidades.

A música pop/popular é em geral considerada pelos acadêmicos das universidades de música, uma espécie de subgênero, que repete sempre os mesmos movimentos harmônicos e não contém sofisticações formais como contrapontos ou polirritmias. Mas o objetivo de um compositor popular, por ter também o texto como material artístico, é diferente do compositor erudito, que lida com a música “pura”. A canção na verdade se aproxima mais da poesia do que da música. Por isso existem que pessoas que não tocam instrumentos e não conhecem teoria musical, mas são capazes de compor canções “de ouvido”. Assim como a poesia, o instrumento da canção é a palavra o ritmo e a voz. Como me ensinou o poeta Ricardo Aleixo no excelente curso que fizemos no ano passado: “Palavra Falante: A Voz na Poesia”, a canção aproxima a poesia da linguagem coloquial, da fala cotidiana: “seu garçom faça o favor de me trazer depressa uma boa média que não seja requentada...”. Diferentemente da música erudita que, mesmo quando o texto esta presente, como no canto lírico, a voz tende a imitar os instrumentos musicais e sua extensão, alcançando notas muito agudas e com intervalos não usuais no âmbito da fala. Já quando estamos do lado da literatura a canção já não é vista de forma pejorativa, como na música. As universidades de Letras contêm pesquisas sobre canção popular inserindo-as entre as produções literárias mais relevantes de nossa cultura.

Isto se dá por causa do abismo criado entre a música erudita e a música popular. Os músicos eruditos que depreciam a música popular não entenderam que se trata de outro território, mais complexo e muito menos estudado do que a música. Cito alguns autores que se debruçaram sobre a questão: José Ramos Tinhorão, José Miguel Wisnik e Luiz Tatit, entre outros. Todos entendem que a canção é um gênero a parte e merece um tratamento singular.

Se a canção se aproxima da poesia uma “letra” de música é um poema? Isto vai depender de cada poética individual. Há compositores que se aproximam muito da poesia chegando aos limites da canção e adentrando a poesia-sonora, como Arnaldo Antunes e Marcelo Dolabela, categoria esta na qual também me incluo. Já existem compositores que fazem letras de canções que implicam a melodia, como Chico Buarque, que no início de sua carreira musicou um poeta que não gosta de música: João Cabral de Melo Neto. Se a canção é poesia ou vice-versa, não vem ao caso agora. O que importa é sabermos que estas categorias são instrumentos para pensarmos a arte e não rótulos que aprisionam e engessam a arte.

Resta a questão: A democratização da arte provocada pela cultura de massa é um engodo? Eu diria que sim. As escolhas dentro da cultura de massa são sempre exíguas. Se antes da industrialização da cultura a música erudita, por exemplo, era fruída somente por uma minoria privilegiada, hoje ela é acessível a todos, porém o modo de acesso a Beethoven, por exemplo, se tornou um toque de celular ou uma propaganda de artigos sanitários. Para fruir a arte com a profundidade é preciso freqüentação e sensibilidade, pois não é necessário erudição para entender a arte, mas sim diversidade para ampliar o leque de opções da pobre cultura de massa. E somente uma educação artística efetiva pode proporcionar esta abertura.


texto originalmente publicado no jornal "O Cometa Itabirano"

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