O debate raso sobre a USP e o papel do Escritor

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Fernando Paganatto · São Paulo, SP
8/11/2011 · 1 · 0
 

Fico muito triste, como escritor e cidadão, quando há algum protesto ou movimentação popular contra a "Ordem" que nos convenceram a aceitar. Não que eu seja contra. Tampouco porque sou a favor e não vejo o clamor reverberar na sociedade. Mas porque no Brasil os debates são feitos de maneira muito rasa e, por vezes, estúpida.

Não se raciocinam as consequências ou razões, tanto dos atos, como de suas "próprias" opiniões.

É o que vem acontecendo com o caso desta nova ocupação da reitoria (de novo) da USP. Resume-se o debate em dois lados: um, que quer a polícia em cima dos vagabundos, e o outro, que quer a liberdade de fumar maconha.

Esta é a triste imagem que a grande mídia no país coloca para a população, que aceita sem pestanejar. E que propaga a ideia de que universidade é lugar de formação de profissionais. Triste, triste imagem...

Esquecem que a polícia, para além de dar segurança, tira a liberdade, e isso dentro de uma universidade pode ser um problema. Esquecem, também, de como os governos ditatoriais ocupavam suas universidades e prendiam estudantes.

Dirão alguns: mas agora, estamos num país livre e a polícia está lá para reprimir o crime. E eu perguntaria para os alguns: Mas o alvo da ação seria mesmo aqueles presos como "criminosos"? Ou seria aqueles que ficaram calados e, cada vez mais calados, permanecerão? A repressão sobre os movimentos sociais e os protestos que visam debater o status quo, inclusive repressão ideológica da sociedade (já repararam nisso?), implica em um país livre?

Claro, temos que levar em conta que o brasileiro médio não tem noção do que significa uma universidade livre para uma nação. Que não tem ideia do que representa, para o futuro de uma sociedade, a repressão sobre essa pequena parte dela que deveria ser responsável pela inovação, pelo debate sobre o status quo, pela proposição de ideias novas. Que não sabe de tudo isso porque, em sua história, foi alijada por sempre das universidades e do livre pensamento.

Mas se você pretende-se escritor, que pressupõe-se artista e formador de opinião, não pode se dar ao luxo de fazer debates rasos. O escritor tem a reponsabilidade de esclarecer, por meio de palavras escolhidas, os meandros e as essências dos fatos cotidianos. E tem a obrigação de se posicionar, como cidadão esclarecido que deve ser.

Não há prática da literatura sem a prática da filosofia. Sem boas doses de lógica e dialética. Se você quer ser escritor e ainda não sabe o que é isso, estude muito. Sendo a favor ou contra, você tem a responsabilidade de sair do marasmo ideológico e da mesmice argumentativa, presa em vícios de raciocínio como o preconceito e as falácias. Escrever o que todos querem ler é fácil. Difícil é todos quererem ler o que você escreve.

Um dia melhor a todos!

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