O silencioso grito da periferia
Velho Mulato
O pai era pintor de automóveis. Daí a primeira relação com a tinta. Mas os desenhos ele começou a fazer ainda no jardim da infância. Aos poucos, o vigilante bancário Paulo Corrêa foi tomando consciência política e social do mundo a sua volta, e os ingênuos desenhos infantis foram transformando-se em arte que inspira reflexão social, com um olhar sobre a periferia, sobre os excluídos e sobre toda e qualquer injustiça social. "Minha arte é uma maneira de cobrar da sociedade um olhar para a questão social", diz Paulo.
O artista pelotense, nascido em 1965 e habitante da periferia, já usou várias técnicas em seus trabalhos. Do tradicional grafitte, passou pelo guache artesanal (que se diferencia do acadêmico por se feito com a tradicional têmpera) e pela tinta acrílica até chegar na pintura a óleo, utilizada nas obras mais recentes. O resultado engloba trabalhos que começam a receber reconhecimento. Uma brasileira que vive em Nova York acaba de comprar três quadros e, junto com as obras, levou também o currículo de Paulo para ser analisado nos Estados Unidos.
A forte ligação do artista com os movimentos sociais o levou a participar de atividades culturais ligadas à questão racial, como o seminário sobre Cultura Afro, realizado em 2000 juntamente com o grupo Odara, ligado ao Colégio Pelotense. Foi aí que Paulo conheceu a artista plástica Carla Chuab, que o convidou para expor junto com seus alunos do Instituto de Letras e Artes da UFPel. "Foi uma ótima oportunidade, principalmente pelo fato de que são poucos artistas negros que conseguem reconhecimento, a maioria fica no animato", diz ele num misto de alegria com uma ponta de frustração.
Paulo é autodidata, nunca estudou arte. Tudo que produz parte do instinto, da alma mesmo. "Uma manifestação silenciosa mas que chama a atenção", diz orgulhoso por ter vários trabalhos seus utilizados pelos movimentos sociais como símbolo de uma luta e, muitos deles, premiados em importantes festivais. A tela "Grito da Periferia" ficou classifacada entre os cinco melhores do trabalhos do país e em primeiro lugar no RS no 1º Salão de Arte Afro-Brasileira do RS, realizado em 2005 no Memorial do RS, em Porto Alegre. A exposição saiu da capital e percorreu as principais cidades gaúchas.
Perseverança
Nem mesmo o grave acidente ocorrido em 2001, que resultou na perda do braço esquerdo, fez paulo repensar seu trabalho. Pelo contrário, serviu de estímulo e de força de retomada da própria vida. "Ainda no hospital, quando soube que ficaria sem o braço, pedi à minha mulher meu material de desenho e alí mesmo comecei a criar", diz ele sem dar qualquer chance ao desânimo.
Por: Jairo Sanguiné (Núcleo Popular de Jornalismo)
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