Os 3 do Oeste. Três Cabras da Peste.

Wilson Félix
1
Esso A. · Natal, RN
20/6/2006 · 65 · 1
 


Há muitos anos atrás, pelos idos 58/59, à época da explosão do baião, os irmãos Zé, Chico e João montaram o trio lá no sertão. Nascidos no Coroatá, comunidade rural enclavada entre a divisa RN/PB, eles eram catadores de algodão, mas também tinham pendores para a arte.
À custa de muita confusão com seu pai Cezário, quando fez 18 anos Zé viajou a uma cidade para comprar uma ... sanfona. E não demorou a aprender logo os primeiros chorinhos, as primeiras valsas, embasbacado pelas teclas brancas do instrumento e animado por um aparelho surgido naqueles dias por ali onde moravam, que tinha o nome de rádio e onde eles escutavam um certo Luiz Gonzaga e um tal Mário Zan. Embalados, Chico e João desataram a batucar. O primeiro, mais jovem, aprendeu a bater o pandeiro, e o outro passou a tocar um instrumento feito de pau oco que era chamado melê, e que naquele tempo substituía o zabumba.
Logo-logo os três começaram a fazer festa, muita festa. Muitas festas. Foram aparecendo os primeiros convites para bailes na vizinhança. Compraram bicicletas com farol, e pelos fins de semana, após o duro trabalho na roça, partiam pedalando pelas estradas do sertão até onde o arrastapé iria acontecer. Muitas vezes essas distâncias eram realmente longas, e os tocadores tinham que já sair pelo meio da tarde para alcançar cedo o local onde se apresentariam. Chegados, o ritual continuava com um jantar oferecido pelos donos da casa, banquete que habitualmente incluía uma galinha caipira engordada no chiqueiro para a ocasião.
Àquela hora tinham aprontado o salão com uma decoração simplíssima, à base de arranjos improvisados com estacas e ramos de árvores, além é claro, do tradicional candeeiro a gás. No terreiro, às voltas da quadra onde aconteceria o fuzuê, eram montadas algumas bancas para a venda das bebidas e dos tira-gostos, e onde normalmente também eram deixadas as armas levadas pelos dançadores, muitos deles homens valentes e alguns até envolvidos em confusões mal resolvidas.
Certa vez, fui levado menino a um lugar como o que descrevi. Calcei as botas e fiz caminhada de léguas. A alegria de chegar era ainda maior porque à medida que nos aproximávamos, íamos começando a ouvir a pancada do pandeiro como que a marcar o ritmo da escuridão que ia descendo com a noite. O céu muito estrelado daquelas noites do luar do sertão cedia uma mágica atmosfera àqueles encontros ao pé das serras, e invariavelmente realmente as despedidas não eram aceitas antes do sol raiar.
Nos anos sessenta seu Zé mudou para a Várzea da Caatinga, pequeno povoado ao lado do Patu. Nos setenta, conheceu as máquinas de som. Comprou amplificadores de corrente alternada (AC/DC) e modernizou-se, passando a fazer suas apresentações nos sítios, puxado à potência de baterias de automóvel. Foi quando precisou de um cantor e chamou para o conjunto Edmundo Gabriel, que assumiu o papel de Chico, que se mandou para as bandas do Goiás. João também deixaria de tocar. A partir de então, quando os forrós começaram a ficar cada vez mais urbanos, integrou-se às novas modalidades do gênero. Experimentou. Jorge de Altinho, Elba Ramalho, Sivuca... sem deixar de lado Os 3 do Nordeste, o Trio Nordestino, Zé Paraíba, e principalmente um artista fabuloso que desde sempre ele interpreta: Nóca do Acordeon.
Morando em Natal desde o começo dos 90, agora sexagenário, Zédi Cezário é um sujeito admirado pelo seu carisma e fidelidade à arte. É ímpar. É bom para ver e melhor ainda pra dançar.

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Lulinha Alencar
 

Um grande sanfoneiro até hoje.

Lulinha Alencar · Santos, SP 2/8/2006 10:51
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