A partir da Bossa Nova a música popular brasileira passa a ser conhecida e reconhecida mundialmente. É o marco de origem, a polida pedra angular da nossa música como elemento da cultura universal.
Melhor do que o silêncio
João Gilberto sempre tão próximo da perfeição, mas que é tão sábio e seguro de si a ponto de preferir ignorá-la, é considerado o pai da Bossa Nova. O inventor do banquinho e do violão e do cantar suave, calmo, baixo e de ar soturno.
Seu suposto desafino ganhara o mundo e o fizera cantar nossa música e até mesmo nossa lÃngua luso-brasileira. João tem curiosamente em Caetano Veloso o seu maior fã, que chegara a afirmar que este seria o único melhor do que o silêncio e ele vai bem mais além na canção Outro Retrato do disco Estrangeiro de 1989:
„Minha música vem da
Música da poesia de um poeta João que
Não gosta de música
Minha poesia vem
Da poesia da música de um João músico que
Não gosta de poesia“
De João Gilberto, que me parece sempre mal-humorado, acho que Caetano poderia ouvir a seguinte resposta: „Não se pode machucar o silêncio, que é sagrado.“
O maestro brasileiro
Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o maestro soberano da Bossa Nova, o nosso Tom.
O responsável pela viabilidade musical da Bossa Nova traduzindo e ampliando-a em notas musicais sofisticadas. E mesmo assim tenho a impressão de que ele e VinÃcius sempre foram como dois malandros, boêmios, brasileirÃssimos a serviço da música e da poesia.
Tom é aquele que deu dimensão sonora ao Orfeu brasileiro de VinÃcius de Moraes com sua eterna Manhã de Carnaval. Junto com este ele deu vida a uma das figuras que provavelmente mais marcou a imagem da música brasileira no exterior; a Garota de Ipanema imortalizada na voz de Astrud Gilberto acompanhada pelo saxofone do saudoso Stan Getz.
As músicas de Tom Jobim, suas Ãguas de Março, sua Sabiá, sua Luiza, seus Anos Dourados fazem parte da memória afetiva da nossa música.
O poetinha maior da MPB
„Poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil“ assim se define VinÃcius de Moraes no emocionante Samba da Bênção um hino ao samba, que cita os seus nomes mais importantes desde sua origem e os grandes parceiros de VinÃcius.
VinÃcius de Moraes é é o grande poeta da Bossa Nova . Mas sua obra poética é ao mesmo tempo independente. Seus sonetos e versos cantam o amor e a mulher de uma maneira até então pouco comum na nossa tradição literária.
Numa „ brusca poesia da mulher amada“ ele canta a mulher carnal, alcançável feita para amar e ser amada. Convida, sábio e Ãntimo como poucos, o amor para brincar. Mas o amor lascivo, mundano e cotidiano, que por ser intenso, também é casto, mas sempre apenas voltado a si mesmo.
Amor
Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca
Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo
Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação?
Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos
Dores de má fama Ãntimas como as chagas de Cristo
Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto
Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos
Fingir que hoje é domingo, vamos ver
O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão?
Vamos, amor, tomar thé na Cavé com madame de Sevignée
Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar
Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do Parto?
Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos
Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol
Vamos, amor?
Porque excessivamente grave é a Vida.
VinÃcius também era um bendito vagabundo – como o dissera Zuenir Ventura – e como todo bom vagabundo gostava de vaguear através do tempo e nos levar junto.
Sua Arca de Noé, trilha sonora anacrônica, admito, de minha primeira infância ao lado dos Saltimbancos de Chico Buarque. Que até hoje me transportam para lá, para os turbulentos primeiros anos da década de 80 onde para meus olhos infantis tudo era encantador e assombroso! Inúmeras pessoas pelas ruas, um polÃtico discursando na Praça da Liberdade, todos clamavam por „Diretas Já!“. Pairava algo no ar, que me enchia de alegria; os sorrisos estampados no rosto daquelas pessoas, havia muita esperança nos olhos e nos corações de todos. E de repente estes se desfaziam em viaias ensurdecedoras ao pronunciamento de certos nomes, o que me provocou também muito medo. Estes instantes de euforia e revolta foram se alternando até o final da manifestação e por fim na minha inocência de criança acabei ficando sem entender; afinal quem „teria levado a melhor?“ Aquela gente toda ou os que eles estavam vaiando?
O moleque VinÃcius é o de que mais gosto, pois sabe nos fazer rir e recordar da nossa meninice.
A gente pega o abacate
Bate bem no batedor
Depois do bate-que-bate
Que é que parece? – Cocô.
Ô abacate biruta:
Tem mais caroço que fruta!
in Poesia completa e prosa: "Poesias coligidas"
Minha bênção, poetinha maior!
O violão-berimbau
Baden Powell e seu violão-berimbau. Mestre das cordas e seus estudos musicais geniais.
Baden foi um dos grande parceiros de VinÃcus de Moraes e com os Afro-Sambas ambos deixaram um legado de Ãmpar beleza na história da nossa música.
O som que sai das cordas de Baden Powell é como o canto de Orfeu, nos seduz, nos encanta, nos faz ficar apaixonados.
Ele fora um dos mais virtuosos e inteligentes mestres do violão na história da música brasileira. Ao ouvir Baden este aparato ganha uma outra dimensão parece um instrumento clássico, afinadÃssimo humildemente a serviço da música popular.
Pura riqueza e beleza sonoras!
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