Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Outros Críticos entrevistam Rhaissa Bittar

Cécile Duchamp
Rhaissa Bittar
1
Carlos Gomes · Recife, PE
15/3/2011 · 14 · 0
 

"voz ziguezagueante, como são as canções” - Alberto Infante, Diário Austral

"parece que embarcamos num trem fantástico, rotas inexatas, cidades, países, junções impensáveis: lindo." - Clarice Flor, Suplemento Palavra.

"a língua francesa ainda faz algum barulho no Brasíl?" - Marcel Ginsber-war, News Days Poems.


"que ótimo… vozes vozes no paço alfândega!" - Anônimo, Fã Clube.

"trocadilhos, neologismos e outros mais são só para poetas, vocês músicos, não se atrevam!" - Poeta Anônimo, Clube de Literatura dos Corações Solitários do Sargento Carrero.




Rhaissa Bittar, à margem do rio na segunda-feira de carnaval. Endereço: RecBeat. Essa conversa foi feita por esses dias, a nossa única para o carnaval. Aproveitem a música inventiva dessa cantora, dessa banda que acompanha a passarinha de voz ziguezague. É isso. Té.

Publicado originalmente em 04 de março de 2011 no Blog Outros Críticos.



Gostamos de começar as entrevistas com perguntas que tratem da relação que os músicos tiveram com o seu instrumento principal - no seu caso a voz - na época da infância. Quais lembranças desse tempo aproximam ou afastam você de seu canto?

Ser cantora era meu segredo - daqueles que a gente tem vergonha de falar. Eu achava que era sonho de moleque, que quer ser jogador de futebol. Tenho uma foto, de quando era pequetitica, em que eu quase engolia um microfone de plástico enquanto meu irmão me acompanhava numa guitarra de botões coloridos. Não lembro direito como despertou em mim a vontade de ser cantora, mas lembro que sempre me hipnotizei pelo palco e pelo estúdio também... Quando criança, fiz aula de muita coisa, xadrez, karatê, vôlei, informática... Mas foi aos 13 anos de idade que a música ganhou corpo no meu cotidiano, comecei a tomar aulas de canto e violão. E aos 16, resolvi fazer parte do grupo de teatro musical da escola. Foi, então, que um leque de possibilidades se abriu na minha cabecinha.

Antes de ir morar do outro lado do mundo, em um intercâmbio resolvi assuntar como pessoas podiam viver de música. Me afastei dos palcos e fui ser assistente numa produtora de áudio, lá vi como é que música acontecia dentro de estúdio. Depois de um ano vivendo aventuras em Taiwan, voltei para meu Brasil brasileiro, gravei um disco e me resolvi cantora. (Não é tão simples assim como parece nessa frase. Mas é mais ou menos isso.)



“Voilà”, o álbum, nos soou como um grande baú, nele, uma quantidade gigantesca de referências, ritmos, gente, sons e instrumentos estão lado a lado, dentro a dentro; estão misturados à-la Tropicalistas. Como cantar todas essas vozes? Ora samba, ora outra coisa, ora nenhuma ou outra... Como cantar? E em que circunstâncias a sua voz e musicalidade tiveram que se associar a Daniel Galli - compositor de faixas do álbum, diretor musical e instrumentista – para a feitura de “Voilà”?


O cara que soltou a faísca pra "Voilà" ganhar esse fogo todo, foi o Daniel Galli. Ele sacou essa minha gana por cantar personagens e começou a compor músicas que usam e abusam disso. Hora sou um pombo correio revoltado, hora sou uma mulher de malandro, hora sou isso, hora sou aquilo, e ele foi quem me deu essas carapuças. Então, Daniel também botou esse ovo. E a capa só não leva o nome de Rhaissa e Daniel porque ia parecer dupla sertaneja (que eu não tenho nada contra, até gosto, mas não era a proposta).

E ao longo do processo de composição e de gravação, “Voilà” foi ganhando esse corpo, divertido, meio coringa, que acabou virando um passeio por entre gêneros musicais, personagens, histórias... algo despretensioso, sem nenhuma filosofia, nosso disco é só pra divertir, entreter, tocar. Outros grandes culpados desse fogaréu foram as participações especialíssimas, como a do clarinetista Nailor Proveta, do acordeonista Lula Alencar, do baixista Lucas Espósito, do baterista Pedro Ito, do compositor e cantor Maurício Pereira, do guitarrista Michel Leme, da Banda Paralela... e outros fantásticos que incorporaram personagens pra me ajudar a contar essas histórias que o disco traz.

E isso tudo acabou se tornando até um desafio pra transferir por palco. Não dá pra chegar cantar e ir embora. “Voilà” requer uma atenção a mais. Coisas que costurem uma música na outra e que tragam em vários sentidos o que “Voilà” traz em áudio e visual estático (que é o encarte feito pela Paulica Santos).


Músicas como “Pa Ri”, “Pif-Paf” e “Chilique Chique” nos lembraram imediatamente Tom Zé, sobretudo no álbum “Defeito de fabricação”, em que o compositor trabalha a palavra cantada através do neologismo. Há essa influência nessas músicas, ou nas letras? Senão, de onde vem o gosto por moldar a palavra desse modo?

Passo essa bola pro Daniel mesmo responder:

"Não tenho dúvida de que tenho influências de Tom Zé. Tenho também influências de Chico Buarque, Noel Rosa, Assis Valente, Maurício Pereira, Caetano, Gil, Luiz Gonzaga, John Lennon e Paul McCartney, Ary Barroso, Vinícius de Morais e tantos outros. Mas também sofro influência de escritores de romance, como Gabriel García Marques e Jonatan Safran Foer. O que eu penso sobre letras de música, e aí não saberia dizer de onde vem, é que não basta o sentido ser interessante. É preciso que a música ajude a letra a contar a sua história. Uma melodia pode fazer saltar o sentido da letra, quando bem feita e bem interpretada. E, pra isso, vale repetir sílaba, gaguejar, cantar muito agudo ou muito grave, gritar, sussurrar, etc. Acho que é isso."


Já é bastante comum as bandas mais novas fazerem shows num circuito de Festivais ou criarem uma rede de amigos que acabam por colaborar tanto na área de criação quanto na de produção artística. Como tem funcionado o circuito de shows para você? E mais especificamente, o que pode adiantar da apresentação no Rec-beat?

Como eu falava numa resposta anterior, “Voilà” está sendo um desafio para trazer para os palcos. Chocamos esse ovo dentro de um estúdio e não imaginávamos que iria se tornar tão imagético. Não dá pra simplesmente reproduzir o que está no disco como se a plateia tivesse apertado o botão "play"... se fosse assim, eu iria sugerir pra ouvirem em casa, que o som seria melhor. O grande X está em como traduzir o que as pessoas ouvem, para um espetáculo que mexe com todos os sentidos. Então nós temos feito show em lugares menores, com lotação para no máximo 300 pessoas, e explorando o lance teatral do disco. Claro que fazer isso com pouca verba é tarefa para artista brasileiro, por isso fomos moldando “Voilà” para os palcos aos poucos. E esse show do RecBeat vai ser nosso primeiro para tanta gente. (Ui, friozinho na barriga!) Então vamos experimentar alguns artigos maiores... encurtar algumas histórias... e fazer o espetáculo acontecer, Voilà!


Uma música em palavras preciosas:


"Um dia útil", de Maurício pereira.
Uma palhinha pode ser?
"De manhã eu levantei, fiz xixi, li o jornal sem escovar os dentes
tomei café com leite, como sempre correndo, me arrumei, fui trabalhar
nem lembrei de dizer tchau pro povo lá de casa
Fui tocar música com meus os amigos músicos
E aí eu canto o dia inteiro, eu canto, e canto, e canto...
(...)
E amanhã é mais um grande dia
um dia comum de muito trabalho
um dia grande que nem um diamante
um longo dia, belo, baita dia, duro e lindo
eu ganho pra estar brilhante
um dia útil."

Uma cidade selvagem em arte:

Pode ser duas? São Paulo, que eu descubro todo dia desde pequena; e Recife, que eu comecei a descobrir há pouco.

Um poema doce e pueril:

Ontem mesmo li na estação de metrô, “Ismália”, do Alphonsus de Guimaraens. Quando era criança, li esse poema na escola... lembro de ter me identificado com ela.

compartilhe

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados