Perfil ou falsa entrevista: Otto, músico

Cécile Duchamp
Marco Zero, Recife
1
Carlos Gomes · Recife, PE
12/1/2011 · 14 · 0
 

Enquanto, sentado e naturalmente taciturno, esperava pelo homem para a tal conversa programada na obscuridade, será que virá? Vi assolar dentro minha cabeça algumas vozes, mal pude contê-las, e mesmo que difusas, soltavam certas palavras amigas, de bom agouro. Vá embora, largue esse cais, vá. Mas mesmo que quisesse ouvi-las, alguma ideia mais segura, ou ainda, a fome no meio dos bolsos me fazia esperar um pouco mais pelo homem. Era o que eu estava a fazer. O bairro do Recife Antigo cheira forte demais. A minha alergia naturalmente também é tão forte quanto à força avassaladora do vento que interrompe gradativamente as minhas pequenas espirradas. Três estudantes riem da minha figura. Uns estrangeiros atravessam o mar até um outro lado, um com certeza de degradação. Onde estará o homem que ergueu aquelas coisas todas, aquela torre, aquele recife artificial? E não é que, entre o sol que martiriza os vagabundos e os moleques, o homem gigante veio surgindo? Talvez não tenha vindo das tumbas ou seja um velho adamastor - um monstro. Talvez.

O homem é grande, com barba desgrenhada, olhos confusos e alegres, ele anda torto, mas confiante. É você? me pergunta enquanto vislumbra alguma onda incerta que bate os recifes. Sou. Respondo olhando para uns cães negros que atravessam a rua de maneira mais ou mesmo desavisada. Ok. Vamos sentar. Ok. Click. Um, dois, três.

Dá-me a impressão de que o seu último disco, “certa manhã acordei de sonhos intraquilosâ€, é um disco de ruptura; um par de canções que quebram com qualquer expectativa sobre a sua obra, ninguém esperaria um disco assim - e ainda sob a influência da literatura de Kafka -, um ódio assim, ninguém imaginaria você criando canções como essas?

O homem, bem mais velho do que eu, arranca uma tosse de algum pulmão misterioso, e pela primeira vez me encara o rosto, percebe que não passo de um idiota, percebe, assim, de soslaio, mas percebe. No entanto, eu, que claramente não acho que pertença a esta classe tão distinta, tento recuar a sua agressividade. Algum problema com a pergunta? Aí o homem troca a tosse pelo riso desajeitado. As ruas são somente as ruas. Ninguém nunca esperou nada de mim. Só os meus. Os que andavam junto. A derrota não vende se você não está disposto a tê-la como amiga. Fazê-la parte desse jogo maldito. Eu não faço parte disso. Sou músico, batuqueiro, só isso. Eu amo, simplesmente isso.

Esse é o tempo que esperava para lançar a segunda pergunta, se deixar, como é fama desse homem, o cara não pararia de falar. Eu, de modo ingênuo, acreditava que fazer minhas perguntas era o meu trabalho, mas, com o tempo, passei a perceber que o meu trabalho é somente ouvir, ouvir, e as perguntas são partes do jogo, só partes.

Gostaríamos que você falasse sobre a presença de “a metamorfoseâ€, de Kafka, em seu disco; podemos interpretar o artista como aquele inseto, aquele que causa incômodo e estranheza aos olhos dos outros, mesmo que os outros sejam gente muito próxima, como família, amores, filhos, amigos? Como se deu a descoberta dessa estranheza em você, ela existe de fato, artistas devem ser os portadores desse incômodo?

Quem é você? O que você quer arrancar de mim? Tinha, naquele momento, uma nítida impressão de que estivesse fazendo as perguntas erradas, ou pelo menos, tocando em palavras que são só palavras, nada que realmente valha a pena, assim, contrariado, o homem e eu resolvemos parar com aquela ideia girando em círculos e vento. Calma, me disse o homem. Tu quer me ferrar? Não entendi. Vamos terminar isso aqui. Ok. Não existe essa de artista. Vê aquele cara? (um gari fardado de cor laranja) Você não vê. Ninguém vê aquele cara. Entende? É isso que quero dizer. Kafka era um daqueles caras, ou na melhor das hipóteses, a sujeira que aquele cara varre pro canto.

Em entrevistas você vem afirmando que esse disco é o primeiro de uma nova trilogia, haverá algum guia conceitual para os três discos, seja na produção musical deles, na temática das letras, na referência à literatura?

Não sei. Vê essa tatuagem? Deveria ser um guia. Está marcada. Fincada em minha pele. Como todas essas outras tatuagens. Mas são só marcas. Nada do que está em meu corpo eu posso assegurar como verdade. Não posso. Como sei que não posso...

“6 minutosâ€, do seu novo disco, é aquele tipo de canção que vale por um disco inteiro, talvez o disco não fosse o que é sem essa música, é como um filho estranho e necessário, uma família não seria o que é sem ele... enfim... como se deu a construção da letra e melodias dessa canção? Sabemos que você trabalha muito com o pandeiro, na hora de compor, na criação das letras houve alguma mudança no processo, sobretudo nessa?

É uma música que sempre esteve dentro de mim. Só tenho isso a dizer.

Você regravou “Naquela mesa†e “Lágrimas negrasâ€; gostaríamos que você falasse sobre a escolha destas canções, o que motivou a escolha, há algo nelas que se liga ao título do álbum, há algo que amarre ao conceito do disco? Entre “lágrimas negras†e “naquela mesa†há “saudadeâ€, foi proposital?

São canções de dentro. Dizia o homem apontando os seus dedos enormes para o peito. E eu tentava tornar aquela conversar uma breve passagem, assim como era breve o canto dos pássaros selvagens, que de maneira muito comum pairavam sobre nossas cabeças nessas margens de cais imundície, o local onde estávamos. Resolvemos nos levantar e andar um pouco, pois um grupo de turistas estava rindo de sua desgraça e afasia. E nós, de forma consensual, decidimos instintivamente tomar certa distância daquelas falsas risadas.

Voltemos ao mote das trilogias; agora com o distanciamento da sua primeira trilogia, que incluiu “samba pra burroâ€, “condom black†e “sem gravidadeâ€, o que você, em poucas palavras, poderia observar criticamente sobre aquele período e aqueles discos e canções, ali estão as coisas que você precisava falar e desejava cantar naquele tempo?

Você é louco? Ouça os discos e pronto. Música. É só que tenho a dizer.

O lugar onde agora sentamos fica próximo a uma estátua, uma que nos dá certa sombra, e é ali, numa data não muito distante dessa conversa que o homem cantou uma música de Luiz Gonzaga para uma multidão. Foi ali que o homem virou outro homem, diferente desse aqui, que não sei por que, me diz tantas palavras inexatas, mas devo fazer um mea cupla: sou tão inexato quanto as palavras que crio, estigma da modernidade, creio.

Em entrevista a Antônio Abujamra, no programa de TV, “Provocaçõesâ€, Abujamra indagou a você o fato de a imprensa afirmar que não entendia as coisas que você falava (ou cantava), mas que ele, Abujamra, estava entendendo nitidamente todas as suas palavras. Você percebe, ou pelo menos intui, que há em parte da imprensa uma tendência de jogar alguns artistas para a obscuridade, com afirmações como: “A música dele é muito difícilâ€, “É demasiado hermético†Essa tendência parte de um jogo de rótulos que a imprensa necessita para separar o joio do trigo, manter cada qual no seu devido “lugarâ€? Qual o seu pensamento sobre essas coisas?

O homem deu um sorriso cínico, um que mostrou os seus dentes dilacerados, por tempo, por mágoa, por estrada. Você me perdoaria? Por todas as minhas palavras? Não. É isso. A imprensa colhe os macacos que sabem abanar o rabo do jeito que elas querem, um jeito gostoso e sensual. Não faço parte dessa turma. A minha turma é a turma dos músicos. Só. Nem de poetas eu gosto. Cinema e teatro ainda me dão tesão. Mas ler esses jornais, como o seu ou o deles. Não. Não me furto à essa beleza.

A palavra beleza, como vocês devem imaginar, veio carregada de uma enorme máscara. eu fiz cara de outra cara. Fui persona. Outro nome. Heterônimo.

Para encerrar, gostaria que você desse três dicas: Uma escrita que seja doce e insana, um cinema que seja sertão e mar e cidade e uma canção de lua (o Gonzaga).

Peça dicas a um astrólogo ou ao presidente da república. Não dou dicas. Sou músico. Mas se quiser jogar o seu gravado ao mar, não fará nenhuma falta a ninguém. Click. Clack. Ok.

E assim, o homem foi percorrendo as ruas, não foi por onde veio, aliás, nem vi surgir o homem, quem sabe eu tenha apenas inventá-lo, tal qual a personagem de um conto de Borges. Quem sabe essa conversa tenha vindo com o vento que sopra por esse lado da cidade, esse que é o marco zero. Vou pôr a fita para rebobinar. Ver se há alguma voz de homem dentro desse cassete. Se houver, terei uma entrevista para manter as mãos aquecidas do frio. Caso contrário, manterei o frio da noite e insanidade de minha cabeça de escritor. Click. A fita voltou. Chiiiii...



Publicado originalmente em pq?,

e-zine lançado em novembro de 2010 por Outros Críticos.

Texto de Júlio Rennó.

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