Que caminho tomou Manuela?

Manuela Rodrigues, cantora baiana das melhores
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Raiara Azevedo · Salvador, BA
21/6/2011 · 0 · 0
 

Raiara Azevedo

"Aquele meu caminho é tudo que num passo, aquilo que procuro um dia hei de encontrar", as suas palavras continuam, ainda hoje, após se passarem dois anos desde que a conheci, ressoando na minha cabeça. O som é doce, e transita entre o tranquilo e o exuberante, e as letras além de discutir múltiplas questões psicológicas e emocionais, como a identidade do ser humano e a busca da felicidade, trazem uma paz e um sossego que são inesquecíveis. Foi mais ou menos há dois anos que conheci o som de Manuela Rodrigues através de minha amiga Tininha, que na época era aluna dela. A partir daí nunca mais parei de procurar seus trabalhos, suas músicas e letras.

Manuela Rodrigues é cantora, compositora e atriz. É brasileira e baiana. Ainda na adolescência descobriu que possuía o dom para a escrever música, com a composição da canção Velha História, quando tinha 15 anos de idade. Dali por diante, ela nunca mais parou. Sua carreira contou com momentos altos, como a premiação do Prêmio Braskem de Cultura e Arte, por seu projeto musical Rotas. A cantora ganhou muita notoriedade devido as suas participações realizadas com grandes nomes da música brasileira como Tuzé de Abreu, Fafá de Belém e Joatan Nascimento, através do grupo Octeto Vocal Sai do Canto, dirigido por Sérgio Souto. Entretanto, foi a apresentação do show Rotas, baseado no CD homônimo, (ambos lançados em 2003) que a consagrou, dando a ela, o reconhecimento do público baiano enquanto uma das artistas que melhor representam a Bahia na atualidade, e , por conseguinte, a cidade de Salvador.

O trabalho autoral de MPB intitulado Rotas está disponibilizado gratuitamente no site Trama Virtual (no endereço http://tramavirtual.uol.com.br/manuela_rodrigues) e pode ser baixado por qualquer usuário do site. Graças a Deus, eu tive acesso ao Cd através de minha amiga, como já disse ex-aluna. Tirei cópia do Cd que Manuela tinha dado a ela, e logo de imediato me apaixonei. As letras, a melodia, o som, os arranjos, tudo pareceu ter sido feito de uma forma tão detalhada, tão miúda e tão grandiosa que não parava de escutar. O Cd Rotas é um trabalho de Mpb extremamente interessante. As músicas propõem uma liberdade imensa, uma liberdade que não é dada ao ser humano assim tão facilmente, mas conseguida após muito suor e luta. Propõem a liberdade do pensar. Do refletir e do filosofar sobre as coisas e sobre a vida. Músicas que nos dão a ousadia para questionar coisas como a vida e a morte, assim como o filosófo José Saja faz, ao questionar o que fazemos com nossas vidas, com uma simples pergunta: "Há mesmo vida antes da morte?".

As letras cantadas por Manuela em Rotas são assim, profundas, e concomitantemente, divertidas. Os arranjos são de uma beleza incrível, uma beleza que me fez dançar, chorar e muitas vezes parar no tempo para contar as batidas, acompanhar em palmas e exercitar o ouvido em busca do reconhecimento de cada instrumento. Letras como "Enquanto eu me encontro" e "Tô", são românticas mas não melosas, doces e de uma profundidade inenarrável; para mim, verdadeiras obras-primas da música popular brasileira. Lembro bem de cada música. Velha História e Comunique, eu até tive a ousadia de usar num trabalho de teatro de grupo com adolescentes, e tenho certeza que ela não iria me processar por isso, porque nem bilheteria teve.

Manuela é um retrato do bom gosto musical, é a prova de que temos (no Brasil), grandes artistas experientes e engajados no "fazer bem-feito", aliás, fazer música de forma bem mais que perfeita, na minha opinião. Manuela Rodrigues, assim como também Mariene de Castro, e a propagandística, mas maravilhosa, Ivete Sangalo, são as "cerejas" do bolo baiano, e digo, as últimas. Devemos valorizar Manuela, exaltar Mariene, reverenciar Ivete, colocá-las no ponto mais alto e declará-las nossas representantes, porque apesar da onda de mediocridade que assolou no país, e principalmente na nossa Bahia, essas mulheres resistem. É claro, que não vou ser hipócrita de negar que Ivete tem apelado bastante para a baixaria, e que isso acabou pegando um pouco mal para nós, mas também não há como dizer que a mulher não canta, não tem uma voz divina, um talento primoroso, tem?

Pois bem, o fato é que não tenho visto mais falarem de Manuela, não sei onde anda, qual rota ela tomou. E depois de tanto tempo sem ouvi-la, bateu saudade. Na verdade, uma urgência de sua voz. Procurei no google, no you tube, nos sites de músicas, e descobri poucas coisas atuais sobre a artista. Fiquei sabendo, que está prestes para acontecer o lançamento de seu segundo Cd, onde ela apresentará as canções de seu show Quanto Vale Gente. Mas como não descobri a data do lançamento, pode ser que eu já esteja atrasada. Consegui saber também, que neste novo Cd, ela traz um repertório que mistura canções autorais com canções de compositores famosos, a exemplo do paulista Romulo Flores e do baiano Leandro Morais.

Até onde eu havia acompanhado, Manuela tinha feito de tudo um pouco no campo artístico. Estudou piano, canto lírico, flauta, música clássica, estudou música no exterior, se graduou em canto lírico pela UFBA e experimentou, estudou novos ritmos, inventou, fez teatro, foi professora de canto, sambou e tudo mais. Na música popular brasileira se fortaleceu, e com ela representou festivais e concursos por todo país, representando a Cultura Brasileira. O fato é que, embora tenha achado algumas informações, ainda considero muito pouco. Quero saber como anda a carreira de Manuela, quero saber mais sobre seus trabalhos e sobre a sua música. Aliás, eu só não, todo mundo.

Todo mundo deve ter o direito de conhecer seu trabalho, suas músicas e seu talento. Por isso eu protesto pela falta de divulgação de seu trabalho nos jornais, nas revistas, nas ruas e nos mercados. Eu não enxergo o caminho que Manuela tomou por agora, não a vejo, como vejo (todos os dias) Ivete e isso me preocupa. Embora, ambas sejam grandes artistas e grandes representatividades da Bahia, a divulgação é imcomparável. As pessoas poderiam estar lendo, sabendo sobre Manuela, por exemplo, nos jornais, lado a lado de Ivete Sangalo e algumas outras. Mas ao contrário disso, em seu lugar, estão estampadas bandas eróticas sem preocupação musical nenhuma. Grupos que se intitulam musicais para ganhar dinheiro, empobrecendo assim a nossa cultura.

O que digo é que sabemos que a baixeza existe, vemos, presenciamos, nos omitimos , julgamos, criticamos e nada fazemos. E isso não modifica nada. O que devemos é tentar impedir que o espaço de artistas como ela, sejam sucumbidos pela mediocridade. Porque se há espaço na Bahia para mediocridade, também deve haver para a boa música, e se não houver espaço para a boa música, então é hora de irmos à luta. Para que não deixemos morrer carreiras de artistas como Manuela. Uma artista baiana completa, de tamanha beleza, talento, e com uma versatilidade incomensurável.

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