Eu tinha um sonho: era fazer um documentário que recontasse a história da Banda e do Movimento Black Rio. O sonho não se acabou, mas há muito esta adormecido. Comecei as pesquisas em 2002, acho. Muito material chegou a ser reunido. Algumas entrevistas preliminares foram feitas. Mas, o projeto desandou por falta de dinheiro. Anos atrás, estive em Londres e visitei a sede da Mr. Bongo, o selo que lançou os álbuns históricos da Banda em CD. Mais uma vez me pareceu que os gringos sabem apreciar a nossa história melhor que nós mesmos. Para acender uma palha do meu sonho, estou publicando a primeira entrevista que eu, com o auxÃlio do cineasta André Martins e do então estudante de História Thiago Norton, fiz para o "filme". O entrevistado foi o William Magalhães, filho do Oberdan Magalhães, o homem que deu vida à Banda Black Rio. Embriagado pelas memórias afetivas, ele nos ofereceu o seguinte depoimento que estava naquelas esquinas de sites que não existem mais e que, agora, compartilho com o OverMUNDO.
A Banda Black Rio surgiu em 1976 e, em sua proposta original, lançou apenas três discos de carreira: Maria Fumaça (1977), Gafieira Universal (1978) e Saci Pererê (1980). Há poucos anos, chegou ao mercado, acompanhando uma caixa comemorativa da obra de Caetano Veloso, o disco ao vivo Bicho Baile Show. A banda teve três diferentes formações e dentre os músicos que a integraram estão nomes que arrepiam qualquer um que entenda um pouco de música popular: o baixista Jamil Joannes, o trompetista João Carlos Barroso (o Barrosinho), o guitarrista Cláudio Stevenson (já falecido), o baterista Luiz Carlos dos Santos (o Batera) e os tecladistas Cristóvão Bastos e Jorjão Barreto.
Em 2001, William resolveu resgatar o trabalho do pai e lançou o álbum Movimento (Rebirth, no mercado internacional). Nesta entrevista, William fala de suas impressões sobre a Black Rio original, os motivos que o levaram a retomar o projeto e sobre sua história de vida, intimamente ligada com a música, em especial, com a Banda Black Rio.
Roberto Maxwell – O que levou você a montar de novo a Black Rio?
William Magalhães – Olha, cara, essa é uma pergunta que muita gente me faz. Foram muitas razões. Primeiramente, porque acho que meu pai morreu precocemente, muito cedo, entende? Ele havia conseguido fechar um contrato com a gravadora Fantasy, que era uma gravadora americana da época, super-quente, que representava um tipo uma GRP internacional, fazia muita coisa africana nos Estados Unidos, umas coisas sul-americanas etc. Acho que sua morte precoce causou uma certa frustração, uma interrupção porque, apesar de já ter criado a Black Rio, ele sempre esperou chegar até esse passo, de entrar no mercado americano, de entrar no mercado europeu. Ele mal sabia, no entanto, que a banda já estava entrando, principalmente na Europa e depois, também, em algumas cidades dos Estados Unidos, tipo Nova Iorque e Los Angeles. Essa foi uma das razões: tentar continuar o trabalho dele, que, a meu ver, tinha uma certa importância cultural, representava com o movimento Black Rio um momento, um elo perdido e espero que esse documentário consiga realmente dar a tônica dessa importância. Outra razão é a questão musical mesmo, é o som, uma das poucas músicas que, apesar de ser antropofágica, ou seja, de ter influência de fora, nasceu no Rio de Janeiro, assim como o choro ou como o samba, samba-enredo. Acho que isso faz parte da cultura, da história do Rio de Janeiro e é uma coisa que tem um valor musical muito grande. Teve um reconhecimento internacional também por outra razão, entendeu? Sabia que neguinho em Londres se amarrava, que tinha muita gente na Alemanha que curtia? De uma certa forma, esse disco mostra um pouco isso para o próprio Brasil, para o Rio de Janeiro, pois muita gente não faz idéia do que seja a Black Rio e, às vezes, só lembra por causa da música da novela Locomotivas (novela exibida pela Globo no fim dos anos 70). Essa rapaziada nova pouco conhece, quem conhece mais é o pessoal que está mais ligado mesmo à música, em pesquisa, que vê discos, os DJs etc e tal. Então, basicamente, é a vontade de levar à frente um trabalho que meu pai começou e que acho que não conseguiu terminar, mostrar o valor desse som, um som muito bom, que chega a influenciar um Jamiroquai (banda de pop/acid jazz). Uma vez fui a uma festa de neguinho que conhece a Black Rio e, quando tocava também Jamiroquai eles se confundiam e hora diziam que era uma, outra era a outra. E, de repente, Jamiroquai é uma banda que vendeu 20 milhões de discos, se dizendo influenciada pela Black Rio. Aliás, como outras bandas, até o Simply Red. E eu acho um absurdo não se atentar para esse fato, que existe uma admiração internacional, que esse som Black Rio influenciou a música no cenário internacional londrino, que é o top da música no mundo, em termos mundiais mesmo, da música africana que chega lá, da própria música brasileira... E aqui, neguinho nem fala da Black Rio, não tem nenhuma citação, nenhuma homenagem... Mas não tem nada não. Acho que sou um pouco predestinado. Mesmo que não venha esse reconhecimento agora, nesse tempo que a gente tá vivendo, um dia vai ter sim, no próprio Brasil vai cair a ficha e isso pode ser a qualquer momento, como daqui a vinte anos.
RM – Quando começou o trabalho para essa retomada, exatamente?
WM – Na realidade, começou em 89. Eu estava com o Gil em Londres, fui à Feira de Portobello e achei um vinil por 100 dólares. Quando eu vi aquilo, percebi que havia um reconhecimento. E não foi só em Londres não, pois eu comecei a fazer uma tournée pela Europa, inclusive até o Japão, e vi que havia esse reconhecimento. Claro que não era geral, mas de uma área especializada, dos DJs etc e tal. Isso foi um dos estÃmulos: saber que existia um reconhecimento internacional e que eu poderia ter acesso a isso sem depender do Brasil porque, fundamentalmente, a década de 90 foi a pior década da música brasileira. E eu já tinha a idéia de fazer um disco. AÃ, pensei, vou fazer um disco direto para o mercado de Londres porque não tinha como pensar em construir, em fazer um som Black Rio aqui no meio da década de 90, justamente pela questão mercadológica, de não aceitação. Isso foi uma coisa que foi mudando também, porque, no inÃcio, eu queria fazer uma coisa só instrumental. Depois, pensei bem, pensei nessas questões de se tentar popularizar o trabalho, que foi uma tentativa da primeira Black Rio. Assim, isso foi mudando e surgiu esse repertório que está aÃ. Mas, independente dessa questão, eu tinha que ver primeiro que, se eu quero fazer a Black Rio, como eu posso fazer? A primeira coisa que fiz foi tentar chamar os caras antigos. Ninguém quis vir. Ninguém. As pessoas, principalmente o Barrosinho, que era um cara que se encaixaria mais, pois foi um dos mentores, não quiseram saber, até porque eu era um garoto e ninguém acreditava que eu poderia fazer essa merda. Ninguém realmente botou fé. Nego já me conhecia como músico, sabia... Mas refazer a Black Rio era uma missão tipo desencavar um dinossauro. AÃ, eu comecei a pesquisar. Comecei a pegar todos os discos, peguei os discos lá do Abolição (banda do lendário Dom Salvador que, de alguma forma precedeu tudo o que a Black Rio construiu), peguei os discos do Impacto Oito (banda seminal da Black Rio), consegui na casa da minha avó ver uns registros de partituras, de idéias, de esboços que meu pai escrevia. Comecei a analisar como é que era a forma mais ou menos que ele pensava, que não era só ele que pensava, era um trabalho de criação coletiva, mas ele já chegou com muita coisa esboçada, em termos de voz, e nos discos também, tirando cada detalhe. Às vezes ficava quase um mês pra achar a voz do trompete ali no meio, sabe, tirando os detalhes... Foi difÃcil sim, mas acho que a gente conseguiu, através desse material e, obviamente, o Lúcio (Silva) também foi um cara que ajudou muito, porque, como ele era da primeira formação, só as histórias que ele contava já dava pra mais ou menos você imaginar e muita coisa ele também tocava, a parte dele, então... A partir da parte do trombone a gente conseguiu decifrar a parte dos metais. Inclusive, o que mais impressiona as pessoas no nosso show é isso, que a gente toca os arranjos fiéis, cada nota... Pega o disco Maria Fumaça e a gente toca aquelas músicas exatamente igual. Nenhuma nota mal tirada. Então, a gente conseguiu, cara, e, partir daÃ, saiu esse disco, que foi muito bom, a gente ganhou um prêmio de melhor banda Pop Rock do prêmio Caras. O disco conseguiu ter uma edição em inglês. O Bernardo que é um cara lá da gravadora ele foi em Londres e a primeira gravadora que ele entrou, neguinho: "Black Rio, claro!". Ai saiu esse disco que é o Rebirth e o disco está no mundo inteiro, os caras têm um escritório dessa gravadora – Mr. Bongo - no Japão. A capa do disco é muito boa. Não existe nenhum artista pop no Brasil que tenha uma capa dessa. Só a capa vende cem mil. O disco é o Movimento com quatro faixas por remix, remixadas pelos caras e remasterizadas.
RM - Dessas histórias, na redescoberta da banda, que ele contava, fala da que mais te impressionava?
WM - Tinha uma história muita engraçada que Lúcio falava, que é sobre uma música que tem no disco, Leblon Via Vaz Lobo. É uma história assim boba, mas que dá pra entender meu pai, que, na época, não tinha carro. Inclusive, ele morreu de acidente de carro. Começou a pilotar depois dos 38 anos, então dirigia muito mal. Ele morava no Leblon e minha avó em Madureira, Vaz Lobo, e, assim, toda vez que ele pegava um ônibus, sempre chegava com uma música, de tão longe que era e o cara ainda vinha com os instrumentos todos. Ele falou que Leblon Via Vaz Lobo, que é muito tocada em banda de baile, em abertura de show, é uma música que ele escreveu no ônibus e foi essa partitura justamente uma das que eu achei, um esboço, assim, meio borrado. Foi no ônibus que ele compôs a música. AÃ, o Lucio começou a trocar a linha do trombone, que é dobrada com o baixo. Isso foi maravilhoso, eu ouvir essa história e sentir a viagem e sentir que a Black Rio tinha uma exposição muito forte dentro do lance popular, pois a minha famÃlia vinha do samba, minha avó era tesoureira da Império. Meu pai fazia esse circuito, do Leblon, onde ele morava, atravessava o túnel, pegava a Avenida Brasil e chegava a Vaz Lobo, fazia o link. E acabou acontecendo que a Black Rio só foi tocar no subúrbio depois de um ano, descansada; ela só tocava na zona sul, Teatro Carlos Gomes, Catacumba, naquele lance que tinha ali na praia de Ipanema, Caetano obviamente, etc. Só depois, é que ela começou a fazer baile, baile-show, no subúrbio. E o mais curioso é que todo mundo era do subúrbio. Vai ver, meu pai pensava: "Pôxa, meu som é todo calcado nessa raiz do subúrbio, do lance do samba, do partido-alto, mas a gente tem que ir lá pro outro lado do túnel pra mostrar esse som." É. Porque não existia, porque era um som que tinha uma influência do samba enorme, mas com aquela coisa jazzÃstica. Então, o pessoal do subúrbio não entendia. Eu me lembro nitidamente de um show que eles foram fazer no Cassino Bangu e as pessoas ficaram assim, chapadas, com o som... Nego não dançava, por mais que tivesse um samba, um funk... Era uma coisa assim, a banda causava um impacto com aqueles arranjos e nego não entendia. DaÃ, eu acho que a Black Rio realmente estava uns 20 anos na frente, em termos da concepção que ela tinha idealizado naquele momento, porque era uma coisa que tinha aquela mistura toda, tinha a coisa fina do jazz, com a essência de samba, e o funkão que rolava na época, o James Brown, e tal, até que a banda começou a fazer, a botar umas músicas assim de baile no meio, quando era show em subúrbio. Pegava uns big hits assim do James Brown, do Chic (banda de rhythm‘n’blues famosa nos anos 70), tirava e tocava. Quer dizer, essa é uma das histórias. Tem muita coisa assim de comportamento mesmo dos caras. Eu comecei a conhecer bem o Barroso através do Lúcio, que contava as histórias dele, que, aliás, tem um puta som de trompete... O cara era um super-compositor, arranjador, mas tinha umas manias, assim, engraçadas... Era um cara do Nordeste, que eu não sabia, acho que de Pernambuco, e foi um dos caras que forçou a barra pra ter essa coisa do baião também na Black Rio, a mistura do baião com o funk, do maracatu com o funk, com o funk da época, no caso, não esse funk de hoje. O LuÃs Carlos, que era o baterista, era um cara assim totalmente intuitivo, não lia uma nota de música, era um cara que nem era baterista, era percussionista de escola de samba mas que resolveu tocar batera. Quer dizer, o estilo dele de tocar bateria foi uma coisa, assim, revolucionária. Outro dia, eu encontrei o Lobão na Pizzaria Guanabara e ele disse que tinha descoberto o LuÃs Carlos e ficou horas falando do cara, porque ele também é baterista, né?
RM - Você falou da dificuldade de achar registros, porque eles compunham...
WM - É porque existia no disco Maria Fumaça, quer dizer, de cara é aquela coisa: foi feita uma encomenda internacional pra se fazer a Black Rio e o que eles fizeram primeiramente? Pegaram duas músicas, uma do Luiz Gonzaga e outra do Ary Barroso, que é o Baião e Na Baixa do Sapateiro, como referência de composição e de estilo pra fazer essa experiência e, do momento que era uma música conhecida, que todo mundo tocava, o trabalho, na verdade, era achar a concepção em cima daquele tema, que era como se fosse um standard pra todos os músicos. E esse primeiro experimento, essa quÃmica deu muito certo, cada um por si já foi descolando a sua onda, meio com uma condução do meu pai, nós vamos puxar mais pro samba aqui, olha, a gente faz uma elevada funk, e deu certo assim. Então, resolveram fazer o disco todo assim. Cada um criava a sua parte e ninguém escrevia, apesar todos saberem escrever, de todos terem essa formação, ninguém escrevia. Cada parte de cada pessoa ficou com ela e na hora que você põe tudo junto no mix, pra você identificar que coisa é coisa é fogo, cara. Qual é a voz do meio, do tenor, qual é a voz que o clavinete tá fazendo junto com a guitarra, normalmente o Claudinho gravava três, quatro canais de guitarra, isso tudo era uma linguagem que tinha que ser decifrada. E eu fiquei colado assim, com orelha, pegando gravações, pegando fitas que eu tinha de ensaios da Black Rio que meu pai tinha deixado, que isso se perdeu, eu não sei onde está isso mais.
RM - Onde eles ensaiavam?
WM - Eles ensaiavam no estúdio Level, que tinha ali em Botafogo, nem sei o estúdio ainda existe ou se mudou de nome, ensaiavam lá no (ininteligÃvel) Tim, meu pai era muito amigo do Tim Maia, amigo mesmo. O Tim Maia só ligava pra três pessoas no fim do ano, no Natal: meu pai, Roberto Carlos e a mãe dele, lá. Então, meu pai tinha um esquema com ele, que o Tim ensaiava ali na Ladeira do Sacopã, na Lagoa, então eles já ensaiaram muitas vezes ali, até porque meu pai já tocou com o Tim. Ensaiavam também lá no barracão da minha avó, em Vaz Lobo, antes de rolar essa fase mais de Sacopã. Essa casa era legal da gente ir. Minha avó, nem meu avô estão vivos, mas eu tenho minha tia, irmã de meu pai, que conhece muita gente que tem muito a ver com essa história.
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