REMONTANDO A BANDA E O MOVIMENTO BLACK RIO (PT. 2)

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Roberto Maxwell · Japão , WW
10/11/2006 · 83 · 0
 

Esta é a segunda parte da entrevista com o músico e produtor William Magalhães, que rememora a história da Banda Black Rio, fundada por seu pai nos anos 1970.

RM - Como músico, como você definiria musicalmente o som da Black Rio?
M - Musicalmente eu diria que é um som assim, antropofágico mesmo, é um som que, independente dessa questão da encomenda, que acho que conseguiu dar um patamar de profissionalismo, porque os caras tiveram estrutura, o primeiro disco foi gravado e mixado, mandaram vir dois técnicos dos Estados Unidos só pra gravar o trabalho, por isso que o som do Maria Fumaça é foda! Eu diria que o som da Black Rio é uma necessidade de universalização de uma música que tem uma essência carioca e, quando eu digo antropofágica, é essa coisa da mistura com o conceito que vinha lá de fora, que era o conceito da Motown (lendária gravadora de soul music dos anos 60 e 70, gravou nomes como Marvin Gaye e Stevie Wonder), da música black americana, acho que casou muito bem. O meu pai falava isso, porque o samba, tecnicamente, ele é 2 por 4 ou 2 por 2 e o funk, essas músicas são 4 por 4. Então, um era divisor do outro, matematicamente é possível você ter uma elevada de funk e encaixar um pandeiro por cima. Então, eu diria que foi um momento de fusão mesmo, assim, onde os caras conseguiram colocar o samba num nível de mixagem e de simbiose com o ritmo americano que, eu acho, resultou numa coisa interessante, numa coisa única e que, infelizmente, é difícil de reconstruir esse painel hoje em dia, até porque eu acho que o samba se afastou muito mais, porque o samba sempre foi uma coisa que tinha assim, mesmo os sambas do Cartola, que é um cara que você fala, tem uma coisa de erudição que se ouvia muito nessa época, Chopin, nas rádios AM, na década de 40, década de 50, se ouvia muito a rádio MEC, que tinha música clássica. Então você vê que os sambas daquela época tinham um nível de erudição e a década de 70 foi assim o lance pra pirar, assim com o samba, mas, esteticamente, o samba sempre foi uma coisa meio reaça, assim, o samba não se mistura muito, tinha até uma coisa engraçada que um jornalista, o Antônio Carlos Miguel falou num artigo, comparando meu pai ao Silas de Oliveira (o maior compositor do Império Serrano, autor de sambas como Aquarela Brasileira), dizendo que teoricamente eram uma mesma família, mas que eram inimigos estéticos porque a intenção do meu pai era subverter o samba, totalmente, a ponto de misturar ele com a música da Motown ou subverter o baião. Então, eu acho que a Black Rio tem pouco isso, é uma música que não tem purismo, é uma música que busca uma universalização, uma mistura de línguas, uma mistura de estilo. Então, na realidade, tinha essa coisa, de subverter a linguagem tradicional do samba, e ao mesmo tempo não deixa de ser samba nunca, passa a ser samba sob uma ótica diferente, inclusive, no próximo disco eu estava pensando em botar o título de "A Nova Ótica do Samba", não sei essa palavra "nova", "nova" porque é uma coisa que sempre soa bem, internacionalmente, mas "Ótica do Samba" é legal, assim, justamente baseado nessa coisa, porque a Black Rio apresentou uma nova ótica do samba, é como se o cara chegasse dentro de um desfile de escola de samba e botasse um sintetizador, sabe, fazer uma subversão mesmo. Então, eu acho que isso aí foi bem legal e, apesar de ter essa coisa, ao mesmo tempo tem o conceito totalmente tradicional, você vendo hoje que a gente está em 2000, ouvindo o Maria Fumaça, é um disco foda, é muito difícil definir qual o estilo que está rolando ali, é uma coisa que ficou muito rotulada a Black Rio, dessa subversão do samba, é claro que muita gente faz isso hoje em dia de outras formas: o próprio Max (de Castro, cantor, compositor e produtor, filho do lendário Wilson Simonal), o Jorge Ben(Jor), sendo que o Jorge Ben pegou uma ótica mais do rock com o samba, daí usou a história do samba-rock... Já a Black Rio foi pra essa outra praia. Na realidade, todos esses samples de música eletrônica, muita gente vai na década de 70, geral, porque ali é que foi tudo descoberto, em termos dessa loucura mesmo... Existia um frenesi, uma necessidade de buscar um novo som. Então, eu acho que isso foi um comportamento social em relação aos artistas e intelectuais da época. Acho que isso sempre existiu em várias épocas das artes.

RM - Você via naquela época alguma procura, alguma busca de um engajamento de raça, de problema social, de os caras pensarem que estavam fazendo uma música negra, diferente da música do Roberto Carlos, por exemplo?
WM - Com certeza. Totalmente. Eu acho que isso foi uma das grandes razões também. Ter uma postura dos negros que estavam junto com aquele novo som, uma nova postura... Existia muito isso... Só que eu acho que o racismo no Brasil é uma coisa tão insana, tão mal compreendida pelas próprias pessoas, que naquela época era muito pior. Então, essa coisa de movimento negro no Brasil é totalmente diluído. Nunca teve uma coisa, assim, que representasse um ícone, a gente nunca teve um Martin Luther King, não é? Até nas escolas se passava um pouco isso, que o negro... Na época em que tentaram escravizar o índio, que não dava... Que o negro era mais passivo... Que ele aceitou a escravidão. Não, não aceitou a escravidão. A única foda é que eram várias tribos de vários lugares diferentes da Ãfrica, que vieram aqui para o Brasil, famílias e tal... Então, nego estava distante da sua terra de origem e teve que aceitar aquilo. Agora, acho que, assim, a visão do herói negro, mais recente da gente é o cara lá do Quilombo dos Palmares, o Zumbi, não é?

RM - E de encontro ao samba, a Black Rio poderia parecer um postura anti?
WM - Mas sempre foi acusada de ser anti. A Black Rio sempre acusada de várias coisas. Inclusive, nesses jornais, era muito acusada no início de ser americanizada. E eu não consigo ver, eu diria que tem influência americana, mas já é um terceiro som, não é samba nem funk, é samba-funk, é o resultado de uma simbiose, que, hoje em dia, daí é que eu falo, todo esse valor que está tendo, até o ponto de vocês descobrirem e quererem fazer um documentário, é fruto disso, é uma coisa que tem uma marca, num tempo, numa qualidade, um modernismo, uma ousadia, uma coisa assim que realmente acho que é o que todo artista procura, conseguir, não todos os artistas, mas alguns artistas se preocupam com isso, com a contemporanização. Eu acho que a Black Rio, na minha cabeça, foi uma viagem, assim, tão profunda... Eu diria que se fosse uma banda americana, teria um mérito enorme, e o pior é a postura dos caras de preservação da própria cultura. Aqui, até hoje, as pessoas conhecem mais ou menos; quem conhece e quem entende é apaixonado pelo lance. Agora, não é uma coisa que teve um respaldo, assim, como o choro, por exemplo. Eu tenho a esperança que um dia venha ter.

RM - O que você lembra, assim, da banda, quando você era criança, do teu pai?
WM - Era uma memória boa, uma coisa, assim, muito difícil pra mim, porque, desde moleque, a minha família, por ter essa coisa do Silas de Oliveira, do Império Serrano, sempre teve muita coisa de música, muita festa na minha casa. Então, meu pai também tocava em casa o tempo todo, tocava piano, tocava sax e, de repente, uma coisa que eu me lembro,que era legal, eram esses ensaios no barracão, em Vaz Lobo, na casa da minha avó, que era o espaço que era a oficina do meu avô, que eles usavam pra ensaiar. Isso foi em 77, em 78. Naquela época que eu já tinha uma compreensão, tinha nove, dez anos, mas já tocava. Então, cara, era uma lembrança muito boa, uma lembrança tão boa que eu acho que uma das felicidades que eu tenho de estar trabalhando nesse lance da Black Rio é até resgatar essa lembrança desse som e é uma coisa que eu já tinha uma emoção, eu já sentia que tinha uma beleza, uma coisa que me atraía no som da Black. De fato, meu pai tá ali, né cara, meu pai, tocando sax, líder da banda, coisa e tal, era uma descoberta, foi uma grande descoberta da música, ver a coisa através da Black Rio ali, presente. E obviamente que, depois que eu comecei meus estudos de música, eu fui estudar outros estilos, música clássica, jazz, harmonia, teoria musical. Então, me distanciei um pouco e meu pai ainda estava vivo. Mas no momento que ele morreu, parece que essa morte dele me trouxe de volta ao encontro dessa lembrança, desse passado, que era do caralho, não só pela Black Rio, mas ia muito a show. Meu pai gravava com todo mundo, gravava com Gal Costa... Então, com dez anos, eu estava lá no estúdio, pentelhando todo mundo, pentelhando o técnico, o músico, perguntando o que que é isso, e tal.

RM - Você começou profissionalmente tocando o que?
WM - Profissionalmente, tocando contrabaixo, acústico. Eu estudei com o Sandrinho, na Escola Nacional de Música, depois com Sebastião Tapajós estudei um pouco de violão. Aí meu pai comprou um piano novo e eu comecei a me atrair pelo instrumento, aí fui estudar piano mesmo aos 13 anos, com a Sonia Maria Vieira, que é uma professora que tem doutorado em piano na Rússia, em São Petersburgo, e em Viena, na Ãustria. Estudei com ela muitos anos. Fiz oito anos de piano, depois comecei meus estudos. Aí fui também querer estudar sociologia. O meu pai era químico, né. Curiosamente, cozinhava pra caramba. Mas era químico mesmo, formado, mas ele dizia que não dava pra esse xabu, tinha que ter outras visões, e tal, mas ele queria que eu fosse músico, é claro, senão não teria investido tudo que investiu. Mas aí, cara, me desiludi com a faculdade. Fiz dois anos de sociologia, achei um saco. Eu já tava tocando profissionalmente, já estava viajando. Comecei com Antônio Carlos e Jocafi (dupla de música sertaneja de raiz), 16 anos, piano, aí, depois, toquei com outras pessoas, Tânia Alves, a Marina. Aí pintou o Gil, toquei com a Gal, Djavan, com Tim, fiz uma substituições, o Tim Maia gravou uma música minha. Trabalhei com o Cassiano... E trabalhando essa coisa do projeto pessoal, que era o negócio da Black Rio, nesse meio tempo também estudando as coisas, escrevendo muito, as partituras, chamando amigos... Vamos testar, abrir essa voz aqui pra depois produzir. Virei produtor, produzi Marina (Lima), produzi uns trabalhos pra Vison também, uns discos coletânea, que são pra Alemanha, trabalhei com Leo Gandelman (saxofonista) uma época, e hoje em dia estou aqui, na minha casa, tocando aí com a banda.

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