Rennó entrevista Nuda, banda.

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Carlos Gomes · Recife, PE
19/3/2008 · 50 · 1
 

não são apenas músicos, são pensadores." - Alberto Infante, Diário Austral.

"vejo que as novas bandas já estão conformadas por não tocar nas rádios. É uma pena." - Barbara Woolfer, Revista de Cinema.

"música e letra quase como um só corpo sonoro." - Clarice Flor, Suplemento Palavra.

"me soa um pouco pretensioso, quem sabe daqui a um ano eu tenha uma outra opinião." - Marcel Ginsber-war, News Days Poems.

"entre as novas bandas, são os que apresentam as canções mais bem elaboradas." - Anônimo, Fã Clube.

"experimental demais!" - Poeta Anônimo, Clube de Literatura dos Corações Solitários do Sargento Carrero.


Depois de uma entrevista monossilábica... Apresento-lhes a banda Nuda, que lançou há pouco tempo o EP “menos cor, mais quemâ€, que traz cinco canções (â€Alumiaâ€, “Colibrilhoâ€, “Deus, às Éticasâ€, “Duns†e “Fato: Mamado Vadoâ€). O Nuda é formado por Rapha (voz e guitarra), Henrique (contrabaixo), Arthur Dossa (guitarra e violão) e Scalia (bateria e percussão).


Júlio Rennó: Das novas bandas de Recife, há algo que toca e/ou influencia vocês? É difícil ser influenciado por bandas contemporâneas? A palavra influência está desgastada?

Nuda: Há uma mítica antiga aplicada aos escritores que defende que "os contemporâneos não se lêem". Com as devidas adaptações às nossas circunstâncias, discordamos do mote, visto que realmente há grupos daqui que ouvimos e apreciamos bastante.

Creio que esses dois vetores, ouvir e apreciar, são suficientes para dizermos que estamos sendo (muito bem) influenciados. Acreditamos na influência como um continuum de alimentação, que agrega desde um sucesso brega ouvido na infância à conversa despretensiosa ontem num ônibus, tudo.

Tudo está se consolidando em planos conscientes e subconscientes. Assim, desgastada talvez, mas a expressão "ser influenciado" anda e andará sendo principalmente mal interpretada, quando encarada, por exemplo, como um atestado de falta de originalidade assinado pelo descuido e ignorância dos egos afora.

De Siba e a Fuloresta a Isaar, passando pelo rock da Amp, o samba do Trio Pouca Chinfra, atualmente há um leque fantástico de manifestações musicais e, para nós, difícil seria constatar uma falta de fontes contemporâneas a serem admiradas, o que não é o caso aqui na "Rectrópolis".

JR: "Quantas bandas, cantores ou grupos atuam na mesma seara musical que vocês atuam?"

Nuda: Aqui, chamaríamos isso de "pergunta cabulosa", difícil ou mesmo impossível de se responder. Todo dia esbarramos com tantas, que tentar uma quantificação seria, no mínimo, injusto. Acima, citei algumas bandas e já senti a pontada da agonia de resumir! Mas não podemos deixar de citar a Amps & Lina e a Tabacos de Guevara, que além de ótimas bandas, são grandes amigos.

JR: O que vocês acham do modelo de patrocínio cultural da cidade de Recife? Os músicos têm o dever de pensar sobre isso? Ou simplesmente devem apenas se preocupar com a música?

Nuda: Parafraseando a missa: "é nosso dever e nossa salvação!" (risos). Tudo começa com a pergunta: por que não rasgo o lindo poema que acabei de escrever? Apesar de termos o direito fundamental de rasgá-lo, geralmente não só não os rasgamos como corremos atrás e publicamos o poema a todos os olhos, não? É do nosso ofício, percorrermos, às vezes tortuosamente, o ciclo artístico: emissão-captação.

Não podemos forçar ninguém a apreciar uma canção, mas se atualmente temos em mãos a real possibilidade de gravar e deixar nossa música à beira dos ouvidos, é como se surgisse um tipo de obrigação "informal" de assim fazê-lo, principalmente aos que aspiram viver de sua arte, ou seja, dever e salvação.

Na verdade, os músicos devem ser, antes de tudo, sinceros. Sim, sinceros. Podem não deter o conhecimento, os contatos ou mesmo a paciência necessária à formatação de um projeto cultural, mas que então corram atrás de quem os tem! Os mecanismos, públicos e privados, estão aí para todos e, apesar de todos os defeitos detectados e críticas pertinentes quanto à possível criação de uma relação de subsistência, vemos a regularização desses mecanismos como um passo importante no fomento cultural e devem ser encarados como uma opção válida, porém nunca exclusiva.

Você perguntou sobre o modelo de patrocínio cultural do Recife e te digo que se assemelha a outros modelos por aí, em suas qualidades e defeitos. Você pode escolher entre as modalidades de apoio direto, via um Fundo de Cultura, ou indireto, via mecenato, fato que abre uma vasta gama de possibilidades. Há desorganização, direcionamento e outros problemas, mas que não são exclusivos de secretarias culturais (vide licitações em outras áreas) mas sim da própria engrenagem pública brasileira. Contudo, o modelo do Recife já viabilizou grandes obras e está sendo aperfeiçoado paulatinamente.

JR: Eu nunca ouvi nenhuma canção da Nuda nas rádios, ou, pelo menos, uma simples menção que seja, isso preocupa vocês? Ou sou eu que não estou procurando nas rádios certas?

Nuda: Oxe, não ouviu? Mas eu paguei o jabá!! (risos). Não, Júlio, isso não nos preocupa, já que acreditamos estar hoje na "faixa perceptiva" onde devíamos estar, ou seja, colhendo maduros os primeiros frutos do lançamento virtual do nosso EP. Acreditamos numa espécie de "teoria das ondas", onde vamos proporcionando ondas sucessivas e crescentes de criação e divulgação, planejando nossos passos mídias adentro, para que estes sempre estejam condizentes com nossa maturescência artística. Há muitos que "publicam" mais do que têm, outros estão além do que se sabe.

O importante é ter uma proposta sólida, densa e, como dito anteriormente, deixá-la acessível na medida do que as circunstâncias permitirem.

Agora, se você digitar NUDA no Google, encontrará algumas rádios digitais e sites que se "intrigaram" com nossa proposta e estão começando a divulgar. Esperamos que daqui a pouco nossos nomes e conteúdo apareçam, naturalmente, cada vez mais, seguindo as ondas... as ondas.


Um título intrigante de canção, um grande livro nunca lido e uma cena de filme por Nuda.


The Secret Life of Plants - Steve Wonder

Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa

Seqüência inicial de 8 ½ - Fellini

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Carlos Gomes
 

publicado originalmente no blog:
www.marcozeroparalelo.blogspot.com

Carlos Gomes · Recife, PE 17/3/2008 13:02
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