No meu livro, no último texto, conto a história do meu então novo vizinho. Ele passava as tardes tocando guitarra, justamente enquanto eu escrevia o livro, em meados de 2007. Muitos textos foram escritos ouvindo suas improvisações. Eu imaginava se tratar de um adolescente de 14 anos, mas fui conhecê-lo e era um cara de 36, que tinha largado o emprego de muitos anos como administrador de empresas pelo velho sonho do rock.
– Larguei tudo. Vou voltar a me dedicar a guitarra – disse entusiasmado, em meio a uma enorme pedaleira, amplificadores e emaranhados de cabos do seu micro estúdio caseiro.
Pensei se tratar de um adolescente não pela técnica e sim pela energia do som que saía da guitarra. Todas as tardes, sem exceção, ele tocava. Ouvi muita coisa interessante.
Minha bateria ficava exatamente no andar de cima e naquele momento estava desmontada e nem essa conversa nem outras que surgiriam depois me animaram a montá-la.
Como toda conversa entre músicos, essa acabou com a clássica frase “vamos marcar de fazer um som”.
Lembro que quando era adolescente eu ensaiava até no horário da manhã. Das nove ao meio-dia. De tarde ia pra escola. Mas agora, nos 30, com todo mundo cheio de compromisso, os ensaios só podem ser no horário da noite. Eu não tinha a menor vontade de sair da minha cama, no meu início de sono gostoso, às 21h, pra ir a um estúdio ensaiar até meia noite. Fazer shows já sabendo que só começariam de madrugada, para mim, era uma verdadeira via crucis, carregando a bateria pra lá e pra cá. Bumbo, caixa, tom, surdo, pedal, pratos, baquetas, ferragens, a putaquepariu... É por essas e outras que o rock cheira à espírito adolescente¹.
Larguei todas as bandas que tinha. Até a de cover dos Beatles, mesmo a banda só tocando a cada seis meses em um encontro de beatlemaníacos.
Conversei com tudo mundo e disse “chega de rock”.
Duas semanas depois desse grito de independência, encontrei Renezão, um cara com quem eu já toquei infinitas vezes.
– Vamos fazer um show com a gente? Pedrão não vai poder fazer... – pediu ele.
– Bora – disse eu, no automático, arrependido no segundo seguinte.
– Na verdade são quatro shows, só os clássicos dos Beatles, Bob Dylan, Rolling Stones, Janis Joplin... – detalhou ele, piorando tudo.
Enquanto ele falava fui me lembrando de todos os caminhos, de todas as fumaças de cigarro impregnadas na roupa, o som ruim, o leva e traz da bateria, os calos nos dedos pela falta de prática, os horários, os desentendimentos, as decepções e, corajosamente, enquanto ele falava as músicas de Neil Young que estariam no repertório, eu disse:
– Porra, man... na verdade... quero tocar não.
– Hein?
– Vou tocar não.
– Não? – perguntou Renezão, surpreso.
– Não – afirmei.
– Como assim? Por que isso?
Disse a ele que não era nada pessoal e expliquei o motivo.
– Eu não aguento mais o rock, Renezão, enchi o saco – disse pra ele, concluindo meu pensamento.
Ele respondeu:
– Porra, eu já tinha desistido do rock desde 2004, mas dois anos atrás um imbecil me colocou a pilha dizendo que eu era músico, que eu não devia tá trabalhando com nada a não ser com a música e blá, blá, blá...
Respondi que continuava achando aquilo tudo dele.
Eu nunca tinha negado antes e foi uma das melhores sensações que tive. Depois desse dia saí dizendo “não” que foi uma beleza. Estava livre.
– Você tá escrevendo um livro? – perguntou meu vizinho, ainda no nosso primeiro encontro.
– Pois é...
– Porra, que massa, não conheço ninguém que escreveu um livro... Livro de quê?
– Ah, um monte de coisa...
– Mas o quê, assim? Qual é a história?
– Rapaz.... É um monte de história...
– Sei... Mas qual é a idéia principal? – insistiu ele, querendo entender.
Descobri nessa sabatina que nem eu sabia qual era a idéia do livro. Se é que ele tinha alguma idéia.
– Todo livro conta uma história... O seu conta o quê? Diz o quê? – perguntou ele.
Fui obrigado a ficar em silêncio, pensando. Ele percebeu que eu estava buscando alguma respostase respeitou meu silencio, ansioso pela resposta. Após um tempo pensando, cheguei a uma conclusão que me pareceu sincera naquele momento e disse a ele que o livro contava muitas histórias, mas, sobretudo, de como me livrei do rock.
Seis meses depois eu lancei o livro onde no último texto está a crônica desse encontro com meu vizinho – sem narrar essa conversa. Duas semanas depois do lançamento eu e Cris recebemos uns convidados em casa. No meio da noite fui com um amigo na garagem pegar alguma coisa no carro quando encontramos com meu vizinho-guitarrista arrumando o seu carro, colocando malas e mochilas dentro.
– Faustão?!
– Genésio?!
– Vocês se conhecem?! – perguntei.
– Porra, esse aqui é meu brother, grande guitarrista – disse Faustão.
Me lembrei do livro:
– Porra, ele que é o cara do último texto do livro – disse eu pra Faustão.
– O vizinho guitarrista?! – perguntou Faustão, entusiasmado.
– Que livro? – perguntou Genésio.
Displicente que sou, não tinha lhe oferecido ainda uma cópia. Como tinha algumas no carro, concertei o erro.
– Ah, é aquele livro que você disse que estava escrevendo? – relembrou.
– Isso.
– E que texto é esse?
Ele leu o texto atentamente. Começou motivado, mas foi perdendo o entusiasmo nitidamente a cada linha que lia. Quando terminou, fechou o livro e disse meio cansado:
– Legal...
Ficou um breve silêncio e ele emendou:
– Estou indo morar no interior.
– É mesmo?! Vai fazer um som? – perguntei.
Ele ficou um tempo em silêncio.
– Não... Recebi uma proposta de trabalho.
Outro breve silêncio.
– Tô justamente indo agorinha, nesse exato minuto. Acabei de arrumar o carro. Vou pegar a estrada agora de noite.
– É mesmo?! – perguntei, tentando calcular a ironia no destino.
– É... – disse ele.
Depois de mais um silêncio nos despedimos, um desejando boa sorte ao outro.
Me mudei faz um ano e assim que cheguei descobri que o vizinho de cima toca piano. Toda noite ele toca. Um dia vou lá ver qual é a dele.
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(1) Smells like a teen spirit, de Kurt Cobain.
bom post.
meio sem nexo o final, mas me indentifiquei.
abs
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