Teatro Carioca Maio 2006 - Parte 3 (Espaço)

Bruno Maia
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Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ
9/6/2006 · 125 · 0
 

Eis o resultado de impressões e conversas ao longo de dois dias: um, na noite de lançamento do Ciclo de Palestras Sopa de Pedras, sobre alimentação, na casa em que eles realizam eventos na Rua do Mercado; o segundo, no dia seguinte, na sede do grupo, no quarto andar da Fundição Progresso. Registro feito por uma câmera de vídeo e o duo iPod+iTalk.

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Apresentação (por Bruno Maia):
A Georgiana, todo mundo que está na faixa dos vinte e poucos anos conhece. Ela era a segunda filha da série “Confissões de Adolescenteâ€, ícone dos anos 90, aquela do cabelo meio raspado... Tranqüila, hoje ostenta cabelos bem mais compridos do que naqueles tempos. Tanto ela quanto o resto da equipe demonstram entrosamento nos dois encontros, sem muitas interrupções de um sobre as falas dos outros. Cada um respeita o momento e o discurso do companheiro de uma forma particular, sempre se complementando, nunca se atropelando.

Apresentação feita pelos próprios:
Helena Stewart: Eu sou Helena Stewart...
Georgiana Góes: Só isso? Já acabou sua apresentação?...
HS: Não... você quer que eu fale do grupo?
GG: Fala um pouco de você e tudo... fala o que você faz no grupo, sei lá, é formada...
HS: Eu sou atriz, a gente formou o grupo em 2001, alguns do grupo já trabalhavam juntos em outros grupos, e outros em outros grupos, então a gente tem esse histórico de trabalhar em grupos de teatro. A gente formou o Pedras em 2001, montamos um espetáculo de final de curso de faculdade, curso de direção teatral, depois reestreamos este espetáculo com algumas modificações. Em 2004, a gente montou O Muro, que é o segundo espetáculo do grupo e tem o fato de que a gente mesmo escreveu, dirigiu, produziu...
GG: Eu sou Georgiana Góes. Faço parte do grupo desde o início, em 2001. Trabalhei 10 anos no “Atores de Lauraâ€, que é um outro grupo. Em 2001, nós montamos o Pedras justamente com o objetivo de ter mais autonomia sobre o nosso trabalho, em todos os sentidos: o que a gente gostaria de montar artisticamente, como a gente gostaria pensar essa gestão, os rumos que gostaríamos de tomar, que tipo de pesquisa no trabalho do ator. Essa é uma das características do grupo, investigar linguagens... a gente chama de técnicas tradicionais do trabalho do ator, então nós nos identificamos muito com o trabalho de máscaras, desde a Comédia Dell’arte... a gente se identifica muito com a linguagem de palhaço, aprendemos muito com o pessoal do Teatro de Anônimos, que são nossos sócios na sede da Rua do Mercado, próximo a Praça XV. A gente troca muito com outros grupos como o LUME, ligado à Unicamp, outros grupos que, como nós, fazem parte da CASA (Cooperativa de Artistas Autônomos). Além disso, sou atriz, trabalho também como produtora e co-dirigi o nosso primeiro espetáculo, o Restin, que era uma reunião de textos de vários poetas brasileiros e nós usávamos andarilhos para falar aqueles textos e, além disso, sou formada em teoria do teatro, pela Uni-Rio.
Marina Bezze: Meu nome é Marina Bezze, eu sou atriz, jornalista, bailarina e astróloga, (risos). E, na verdade também, minha formação de teatro mais forte foi no Parque Lage, onde eu participei da montagem de peças que ficaram muito tempo em cartaz. Acho que, com o Pedras, a gente nunca subiu num palco. O Restin, a primeira peça, era montada em arena e para O muro, nós construímos uma estrutura que lida com espaço aberto. A gente pesquisa muito essa relação com o público, que pra mim é uma coisa que já vem desde o Parque Lage.
Diogo Magalhães: Bem, meu nome é Diogo, eu não sou muito de falar, mas em 2004 eu fui convidado para o grupo, pela Marina. Nós estudamos juntos no Parque Lage. Ano passado eu tive a chance de participar do Restin, já que a Adriana, que é do grupo e fazia a peça, estava viajando. E é isso.

As apresentações foram longas e já indicaram muitas coisas. Inseridos na execução do Projeto Cultural Mercado do Peixe, que vem revitalizando a Rua do Mercado, no centro do Rio, o Grupo Pedras enxerga um movimento mundial de reaproveitamento de espaços conduzidos por artistas. “Em várias grandes cidades do planeta isso está acontecendo e no Rio de Janeiro isso também vem se realizando de uma forma feliz. A Lapa (região boêmia do centro da cidade) foi um exemplo disso, com os movimentos espontâneos que foram surgindo e os movimentos que se organizaram a partir dos primeiros, em pólos gastronômicos, pólos culturais, etc. Agora, está acontecendo algo parecido lá na Praça XV, mas ainda está no inícioâ€, explica Georgiana. “Esse movimento todo, dos anos 2000, tem a ver com uma coisa de resgate que é uma pouco resposta a todo o processo de modernização que se viveu. Uma sociedade que se apropria dessa tecnologia nova, mas que resgata o passado. Essa identidade histórica é muito forte no centro do Rio de Janeiro e não é à toa o fato de estarmos láâ€, completa Marina.

No caso específico da casa onde o grupo se apresenta – localizada no número 45 da tal Rua do Mercado, bem próximo ao Centro Cultural Banco do Brasil e à Candelária –, o pioneirismo foi do Grupo Teatro de Anônimos, que comprou a casa no ano 2000. “Era uma casa que tinha três andares e tinha sido restaurada em 1999. Mas três meses depois de uma linda reinauguração, pegou fogo. Isso fez com que o imóvel se desvalorizasse e o Anônimos pudesse comprá-lo. Durante o pagamento das promissórias, eles viram que precisariam de ajuda dos parceiros deles e nós entramos, junto com o Cordão do Boitatáâ€, explicam as três moças. Diogo assiste a tudo calado e aquiescente. Junto com essa junção de artistas, outros movimentos de reurbanização da região se somaram, fizeram melhoras estéticas e fecharam a rua à entrada de carros. “No início, éramos apenas nós ali. Aos poucos, algumas pequenas coisas começaram a acontecer na região e nós íamos angariando. Um amigo fazia uma peça ali no Arco do Teles, depois o outro vinha e fazia algo que começava na Praça XV e terminava na porta da casa... Aos poucos, as pessoas foram vendo que aquela galera, daquele sobrado, estava fazendo alguma coisa. A gente sempre dava um jeito de fazer alguma coisa, nem que fosse de graça...â€, conta Marina.

A casa é simples. Por dentro, um terreno retangular que – de olhômetro – deve ter uns 70m², com um pé direito altíssimo. Mesas e cadeiras, como essas de bar, estão espalhadas pelo ambiente. Há um segundo nível, que não pode ser considerado um andar – só ocupa uma parte da área e só é acessível por uma escada, dessas de parede, em que se sobe segurando com as mãos os degraus de cima e impulsionando nos degraus de baixo. “O objetivo é transformá-la numa mini-casa de espetáculos. A idéia é bagunçar mesmo aquela região da Praça XV. Estamos tentando captar recursos para reformar, criar um teatro pequeno para 70, 80 pessoas e fazer um segundo e terceiro andares com salas para os grupos que participam da cooperativa. Queremos construir também uma salinha de ensaios, mas, por enquanto, nós ainda não temos nenhuma estrutura lá dentroâ€, conta Georgiana.

Antes da realização desta matéria, só conhecia o trabalho do Pedras através de alguns pequenos e curtos pedaços de matérias em jornais. Por isso, durante a produção, entrei em contato com o grupo para saber quando teria um novo evento na casa. Fabrício Dornelles, do Departamento de Comunicação da CASA, me enviou a filipeta virtual do Sopa de Pedras, a produção do Pedras programada para o mês de maio. Li rápido, só para checar o dia e o horário.

Eis que, para surpresa deste jornalista, ao chegar lá, uma palestrante falava sobre qualidade alimentar. Primeiro, achei que fosse alguma das atrizes do grupo e que aquilo seria uma esquete que se revelaria em pouco tempo. Que nada! Mais de uma hora e pouco depois, ela ainda falava e já estava claro que Rachel Barros não era uma atriz e, sim, uma educadora alimentar. Georgiana Goes era o único rosto conhecido por mim. Procurei e a avistei, vestida com uma camiseta branca, uma flor vermelha na orelha e um avental. Dedução lógica de que as outras moças vestidas de maneira parecida deviam ser do grupo. E a peça? Não vem? Eis que Rachel Barros acaba a apresentação. Agora vai começar, né? Nada. Helena Stewart e Georgiana Góes explicam que será servido uma degustação de alimentos, chás e sopas que fazem bem à saúde, e que depois vai rolar um filme. Mas elas querem avisar que o estacionamento de carros nas redondezas ainda não é muito seguro e que, por isso, entendem se algumas pessoas não ficarem para a sessão. A noite de quarta-feira já flertava com as 22hs. Meu carro estava muito a esmo e, com todo o pé-atrás que os cariocas têm em maio de 2006, parti. A pergunta da minha namorada – que, lindamente, aceitou me acompanhar apesar da dor-de-cabeça que a atormentava desde a manhã – é perfeita: “Eu adorei, agora, me explica? Não era teatro?â€

Era, ué. Mas não era. Ficou evidente que o trabalho desenvolvido pelo Pedras é ligado à cultura. O que justificava aquilo tudo era a discussão de um aspecto cultural, no caso, a comida. Aquela tinha sido apenas a primeira de uma série de cinco palestras envolvendo este tema no mês de maio. O tratamento da cultura é feito de forma mais ampla. “Somos um grupo de arte, antes de sermos um grupo de teatro. O teatro é o nosso instrumento, mas nós somos artistas muito alimentados pela função da arteâ€, afirma Georgiana. Uma nova informação fecha o sentido, inicialmente incompreendido, sobre o evento da noite anterior: “O nosso próximo espetáculo vai se chamar Mangiare e tratará da comida. Este ciclo já está sendo uma preparação, abordando várias formas da relação do homem com a comidaâ€, revela Georgiana.

Ainda sem data para estreá-lo, o grupo lamenta que as condições financeiras não permitam um horizonte mais claro. Para quem está acompanhando esta série, deve parecer que o jornalista quer direcionar sua pena (ou, no caso, o teclado) contra o poder público, mas isso não é (necessariamente) verdade. Mais uma vez, as reclamações surgem no discurso e, rapidamente, se multiplicam. “É uma loucura, uma contradição. O que manda geral na história da captação de recursos é ter um nome, sim, é quem pode vender melhor um produto, sim, e isso se confronta com a nossa paixão em levar o trabalho adiante. É esse amor misturado com uma tristeza, com um desânimo. Eu tenho quinze anos de carreira e até hoje não tenho independência financeira disso, mesmo botando um monte de projeto na praça, estando de olho nos editais... Só que sempre são as mesmas pessoas escolhidasâ€. Não demora e pipocam os inconformismos diante da liberação através da Lei Rouanet de R$ 9,4 milhões para a vinda do Cirque du Soleil ao Brasil. “Essa história é uma vergonha. Enquanto isso, a gente está sempre penando para conseguir o aval e captar cinqüentinha, vinte aqui, cem ali, para os nossos pequenos projetosâ€, reclama Georgiana. Helena Stewart emenda: “Nós fazemos parte de um grupo que não coloca ator como um ser especial na sociedade. O ator é um trabalhador, que tem que ganhar dinheiro com o trabalhoâ€. Numa visão bem ligada a do cenário urbano caótico e violento do Rio, Georgiana completa: “Nós somos não só guerreiros, como guerrilheiros quando fazemos arte numa cidade como esta. Fazemos parte de um movimento de ocupação de território, que tem uma idéia própria de modelo de gestão culturalâ€.

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Não coube na matéria, mas segue o link onde o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, comenta a liberação da verba.

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