Trinca Filmes, sem tempo para tempo ruim

Foto: Cássia Moura
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Natacha Maranhão · Teresina, PI
8/3/2006 · 111 · 1
 

É difícil conseguir sentar para conversar com o cineasta piauiense Douglas Machado. Simplesmente porque o homem não pára. E quando pára e senta, é na frente do computador para trabalhar mais. Ele pensa, cria e produz de forma continuada, incansável. Mal termina de realizar um projeto, por mais difícil que tenha sido, e já tem outro engatilhado e ainda uma nova idéia na cabeça.

E assim o cinema piauiense vai andando. Ainda devagar, mas tem andado; e qualquer pessoa que fale sobre isso, para ser justa, tem que citar o trabalho do Douglas, que tem servido de inspiração para mais gente encarar o lado de trás das câmeras com paixão, com seriedade e com entusiasmo.

Nos últimos meses, ele e a equipe da Trinca Filmes têm passado muito tempo na estrada, viajando pelo interior do Piauí colhendo imagens e histórias para transformar em filmes. O tema são as festas do sertão. Não só aquelas conhecidas, como as grandes festas juninas ou os grandes eventos do bumba-meu-boi. O dia de reisado também é dia de festa, que exige produção antecipada e muita dedicação de quem participa e de quem organiza. O dia de "incelência" - incelências são orações rezadas normalmente por mulheres para proteger a alma do morto durante a passagem daqui para o outro mundo - também é considerado um evento, como o dia "do Divino". Douglas revela a nova idéia. "Estamos realizando uma nova série com o Instituto Dom Barreto. Chama-se "Hoje é dia...". O primeiro filme é sobre a festa de reisado, o segundo, já em fase de pré-produção, é sobre os cânticos de incelência. Esperamos fazer sobre outras festas brasileiras e tradições da nossa cultura, por isso pensamos neste título, já que por aqui sempre se diz "hoje é dia de boi", "hoje é dia de Divino", "hoje é dia de reisado" ".

Além deste projeto, a parceria com o IDB tem outros frutos. A série sobre grandes escritores brasileiros vivos já está no terceiro documentário. O quarto e o quinto já fervilham nas cabeças pensantes da Trinca. Coincidentemente, os três primeiros autores documentados são nordestinos: o primeiro foi o piauiense H. Dobal (H. Dobal - Um homem particular), em seguida foi a vez de Ariano Suassuna (O sertãomundo de Ariano Suassuna) e agora foi finalizado o documentário sobre o pernambucano Marcos Vilaça (Vilaça).

Douglas Machado diz que a escolha destes nomes não teve como critério o fato de os três serem nordestinos. "Definimos os autores a partir de um olhar contemporâneo sobre este país-continente, a idéia é buscar os representantes "não-oficiais" da literatura brasileira. A literatura é uma proposta de vida no meu trabalho. Para esta série de documentários nós nem estipulamos uma quantidade, porque a idéia é continuar fazendo enquanto nós e o IDB estivermos ativos".

O próximo a ser documentado é o gaúcho Luiz Antônio de Assis Brasil, autor de A margem imóvel do rio e Perversas famílias. "Encontro nele uma literatura de valor inestimável", diz o cineasta. O quinto escritor escolhido é o piauiense Alberto da Costa e Silva, poeta e africanista.

Apesar de já ter sido exibido no último mês de novembro na 51ª Feira do Livro de Porto Alegre e em dezembro na Oficina da Palavra em Teresina, o lançamento oficial do documentário Vilaça ainda não aconteceu. Está agendado para o próximo mês de abril na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro; depois o filme viaja por todo o país. "Quero exibi-lo novamente em Teresina, quero aproximar esse trabalho do público."

Os filmes de Douglas Machado estão disponíveis em algumas locadoras de Teresina, como a Televídeo, a Posto 6, a Galeria e a Anfitrio. Segundo ele, não há estatísticas sobre as locações, mas os filmes são continuamente alugados.

A Trinca Filmes existe há cerca de oito anos. Além de Douglas, a empresa conta com as produtoras Cássia Moura e Gardênia Cury. Ele conta que a idéia de abrir a empresa surgiu com a vontade de produzir filmes profissionalmente. "Não conseguiríamos entrar no mercado brasileiro como pessoa física".

A equipe procura subjugar com trabalho as dificuldades de fazer cinema no Piauí, que são muitas. "Eu procuro não pensar nas dificuldades por estar morando em Teresina porque trabalho aqui com a mesma postura ética e devoção que tive em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Recife, em Estocolmo, Madrid ou San Salvador. Aqui estamos geograficamente distantes e ainda carregamos a logomarca da região mais pobre do Brasil. Por isso mesmo é que eu sempre digo que nós piauienses temos que ter um cuidado, uma responsabilidade maior no nosso trabalho porque sabemos que pode haver uma leitura equivocada do nosso Estado e do Nordeste", comenta, acrescentando que acredita que quem produz cultura deve ter consciência e esmero para poder ter boas respostas, primeiro da própria aldeia, depois do mundo.

"Dificuldades existem em todos os cantos do mundo, tenho um amigo que diz que 'o problema do sertão não é a escassez de água e sim a fartura de sol sem proveito'. Acho isso muito bonito e costumo usar essa reflexão como paralelo em várias situações, inclusive nessa de dificuldades".

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Monix
 

'o problema do sertão não é a escassez de água e sim a fartura de sol sem proveito': que lindo isso! adorei. bjs

Monix · Rio de Janeiro, RJ 4/5/2006 14:03
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