UM CERTO GALILEU - PADRE ZEZINHO, 1975 (PAULINAS)

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PENHA DE CASTRO · São Luís, MA
20/3/2013 · 1 · 0
 

Este álbum é certamente a obra mais monumental da música cristã brasileira. Gravado em 1975 ainda nos transporta doces lembranças de infância, das noites de natal, da primeira comunhão e da igrejinha no meio da praça com megafones na torre do sino tocando em mono suas belas canções.
José Fernandes de Oliveira, o Padre Zezinho SCJ, Sacerdote e missionário Dehoniano,
sempre atuante na Pastoral de Juventude e demais pastorais da Igreja Católica,
onde é indiscutivelmente, o maior ator midiático. Cantor, escritor, compositor, além de exercer dezenas de outras atividades, sua obra é marcada pelo discurso direto coeso, espiritualmente profundo, canções em forma de sermões, sermões em forma de poesia, sinceridade e objetividade nas palavras, e melodias, que longe de serem piegas, mergulham o ouvinte numa mística experiência reflexiva. Racionalidade, espiritualidade e emoção na medida certa, sem ser apelativo, radical ou pedante.
Nos meados da década de 70, o cenário secular se tornou um desafio para a Igreja, o confronto entre as ditaduras de direita e de esquerda, as lutas libertárias, os binômios capitalismo x socialismo, materialismo x espiritualismo, o avanço das Comunidades Eclesiais de Bases e da Teologia da Libertação preocupavam os setores mais conservadores, que viam com maus olhos a participação de clérigos em setores delicados como política e luta social. O ateísmo era o inimigo a ser combatido, em um mundo sem esperanças, onde a lógica materialista era a única explicação para as distorções e contrates que permeavam a vida e a mente das pessoas.
O Padre Zezinho aparece como mediador, propõe aos jovens cristãos e os ateus um dialogo franco, revela o Cristo Histórico e convida o ouvinte a percebê-lo presente no mundo de hoje.
Na faixa título, é exatamente isso que o Padre Zezinho faz, com arranjos monumentais, com efeitos dramáticos, como se quisesse reproduzir uma experiência cinematográfica, conta a história de Jesus de Nazaré, um jovem galileu, que revelou pela humanidade um amor incondicional.
Em “Mini Sermão”, Padre Zezinho se apresenta com pregador, um profeta do povo, e faz um prefácio do próprio álbum: “Ainda hoje ao cair da tarde, sem muito alarde é favor de dizer que vou pregar o meu sermãozinho pelo caminho que percorrer...”
Em “Cantiga por Francisco” repete o artifício da primeira faixa para contar a história de Francisco de Assis, santo católico que se tornou a maior referência no que se chama “Imitar o Cristo”, um homem que com sua simplicidade, após um impactante chamado a conversão, abalou as estruturas da corrompida igreja medieval.
“O Filho pródigo” e “Cantiga por um ateu” são dirigidas aos jovens que abandonaram a fé em troca do idealismo, de ideologias e da lógica materialista: “Filosofia não me deu felicidade, explicação não explicou o que eu sentia. Eu tinha tudo ao meu redor, saúde, paz e tanto amor e mesmo assim não soube ser feliz...” e ainda, demonstrando humildade cristã: “Eu sei que da verdade eu não sou dono, eu sei que não sei tudo sobre Deus, às vezes quem duvida e faz perguntas e muito mais honesto do que eu.”
“História de Maria” é outra faixa homérica do disco, desta vez a personagem central é Maria de Nazaré, a mãe de Jesus, aqui Padre Zezinho enfatiza a importância de Maria para a História da Salvação, que começou com o seu “Sim”, sua coragem de aceitar ser a mãe daquele que seria imolado pelos pecados do mundo, e de enfrentar uma sociedade patriarcal, rígida e opressora, pondo sua própria vida em jogo para que a vontade de Deus se cumprisse.
“Utopia” é a mais bela e emotiva faixa do álbum, é uma ode a família, onde com sensibilidade Padre Zezinho nos faz lembrar da infância feliz, onde pelo véu da inocência, víamos nossos pais felizes, sem preocupação, vivendo um amor quase idealizado, transborda a sensação do aconchego do lar e de felicidade. O divorcio, que ainda se introduzia no país, era outra grande preocupação da igreja na época.
“Alô, meu Deus” também é voltada às jovens ovelhas desgarradas: “Alô, meu Deus, fazia tanto tempo que eu não mais te procurava. Alô, meu Deus, senti saudades tuas e acabei voltando aqui. Andei por mil caminhos e, como as andorinhas, eu vim fazer meu ninho e em tua casa repousar”.
“É muito jovem minha oração”, traduz a busca pelo equilíbrio do jovem cristão: “É muito jovem minha oração, talvez não tenha maturidade, mais tem a verdade do meu coração {...} Eu fiz da verdade meu porto e destino e desde menino lutei pra ser eu. Errei muitas vezes, Não posso negar, mas posso dizer tranquilo e seguro plantei meu futuro”.
Padre Zezinho fecha o álbum com “Em sintonia”, algo semelhante a um mantra, acalma o coração, prepara o espírito e convida a oração.
PAZ E BEM!

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