Bidu Cordeiro é dessas personalidades que não estão nas capas dos jornais, nas revistas de celebridades, nem nos cartazes. Mas é figura fundamental, empunhando um trombone, para uma série de programas da noite de cariocas e brasileiros. É o tÃpico cara de cena, fundamental na construção, quase ali em primeiro plano, do som que embala os sucessos de um trio chamado Paralamas. Assim como o grande responsável pelo naipe de metais da divertida e posuda (no melhor sentido da palavra) Orquestra Imperial. E um lutador pelo reggae vivo, longe das raÃzes que enjaulam em ioiôs-iaiás um dos ritmos mais ricos, combativos e urbanos da periferia mundial. O exérciro dele? Reggae B. Foi assim com a Rio Salsa, há um tempo.
E tudo começou em bailes de carnaval no interior fluminense. De lá, para a Orquestra Sinfônica Brasileira. Rerrê. É sério, o cara brinca, se diverte, tem as dancinhas engraçadas dele no palco, mas respeita demais isso que se chama viver de música. Foi o que ele mostrou a mim e ao amigo Bruno Maia, em conversa concedida ao nosso bravo sobremusica, onde dá para achar a versão completa do papo.
Podemos gravar? Você ia começar a contar a sua história... Minha história é assim, eu comecei meus estudos com 13 anos, nasci em Rio Bonito, estado do Rio. Comecei a estudar música com o meu pai, trombonista. Toca o mesmo instrumento. Lá pro segundo ano de estudo ele me trouxe pro Conservatório de música, aqui na Graça Aranha [rua do Centro do Rio, perto da Cinelândia], quando eu estudei com um grande professor: Prof. Oscar da Silveira Brum. Estudei com ele quatro anos e aà ele me levou pra fazer prova pra OSB, Orquestra Sinfônica Brasileira. É um cara renomado. Fiz concurso numa época que tinha uma porrada de gente. Tinha nego de fora, americano, de outros estados... Aà eu fui aprovado na condição de estagiário, contrataram dois americanos e me aprovaram, eu e o Marco Antônio [Favera], que inclusive tá até hoje lá como primeiro trombonista da OSB. A gente na condição de estagiário, que teria que fazer prova de seis em seis meses até ser profissional. Eu me lembro que fiquei um ano e meio, quase dois anos, e fui logo contratado, e fiquei lá.
E isso foi quando? Isso em 86, eu fui contratado em 86. Aà fiquei lá até 97. Eu lembro que começamos a montar uma banda de salsa aqui no Rio que era Rio Salsa, com uma galera, e foi uma das primeiras coisas populares que eu comecei a fazer, [até então] eu tocava só Sinfônica. O popular, eu não tinha aquela confiança em mim mesmo. Só que aà eu comecei a ver que o nÃvel das orquestras... elas começaram a cair: os grandes músicos, não-sei-que, o interesse na cultura. Eu falei: pô, tenho que partir pra um outro lado. Até que rolou a parada do convite dos Paralamas, foi muito engraçado.
E foi quando o convite? Foi em maio de 97. Foi uma gravação de uma banda chamada Los Djangos. Ou Jammil e Uma Noites, uma coisa assim, ou Jammil ou Los Djangos. Foram as duas bandas que eu gravei. E o Monteiro [Júnior, saxofonista], que era o cara dos Paralamas, ele que era o cara que arregimentava pra gravação. Aà me indicaram, a gente se conheceu, gravou lá os arranjos dele...
Isso era a turnê do Nove Luas? A primeira turnê foi Londrina, Maringá, Ponta Grossa e, por ali, uma última cidade que eu não me lembro. Foram quatro shows. Daà eu fiquei tirando, o Monteiro me deu uma fita de show ao vivo, eu acho que tirei mais ou menos a voz do trombone, não deu pra tirar tudo. Tirei o básico ali, fiquei por um perÃodo de três meses, e depois... de lá pra cá...
Mas e Paralamas, você ouvia? Rarrá, eu lembro que quando me fizeram essa pergunta, eu até falei: volê, volê [cantando ‘Cinema Mudo’]. Rarrarrá. Eu conhecia os hits, ‘Uma Brasileira’, ‘Alagados’, o que todo mundo conhece do Paralamas. Agora, a obra, eu fui conhecer depois.
O Paralamas é uma banda que sempre teve muita audácia, foi a primeira banda a botar samba no pop rock, a primeira a ter levada de samba no meio. E acredito que não vai demorar em vir um disco de roquenrou. Vão lançar um disco de reggae, que é outra coisa que eles sabe fazer muito bem. Tem o Bi... O Bi, João Barone, o Fera [João Fera, tecladista da banda], o Herbert, eu... sabe? Eles são muito abertos, eles são muito bacanas mesmo.
Eu queria falar do Reggae B. O Reggae B foi assim...
Antes do Reggae B, só pra gente chegar lá: a sua relação com reggae vem de quando? A primeira banda de reggae em que eu participei foi o Mindingos, de Niterói. Era uma banda que tinha o Zeca Mindingo, eu, o Tricky, Bocato, que é um trombonista de São Paulo, foi trombonista de todo mundo, era uma galera. Então... Ah, o Dado, um grande compositor de reggae de Niterói, um amigão da gente, Cidão, passou uma galera ali de Niterói... Eu morei em São Gonçalo muitos anos, e a gente montou essa banda. E começou a tocar, fizemos vários shows em Niterói.
AÃ, eu lembro que eu fiquei doente. E tive que sair, daà entrou o Paulo William. (E isso foi quando?) Acho que foi em 90. 90 ou 92. E minha primeira experiência de reggae foi com essa banda.
E o Reggae B, foi o Bi que me chamou. Era um projeto de abrir o the Wailers, e tal, montaram uma banda com duas baterias, não-sei-que, não-sei-que-lá, e eu não tava nessa. AÃ, depois resolveram: vamos montar um esquema já que a banda tá parada, aà me chamaram. E eu fui.
Então, foi porque o Paralamas tava parado, né? É, o Herbert, tal...
Mas qual era a idéia do Reggae B? O Reggae B não acabou, a gente deu uma parada por quê? Era todo mundo fazendo outras coisas, necessidade de trabalho. Era um negócio que dava um prazer danado de tocar, mas recurso financeiro não tinha. E isso, desculpa dizer, conta ponto, né? Tenho que sustentar meu filho, minha mulher... Bicho, tem que manter a onda aÃ, e conta ponto. Mas a gente tá com a idéia de voltar, recebemos aà uns convites para fazer show, e agora terminando o dvd dos Paralamas, com certeza, a gente tá perturbando o Bi, aÃ, e vai ter. O Reggae B foi uma banda em que todo mundo tocou. Até o Herbert, a primeira aparição dele na volta, foi no Reggae B. É foda... Teve um dia que foi Lulu Santos, todo mundo, Arnaldo [Antunes]... A idéia era fazer um reggae “Bâ€, só, lado b. Não esse reggae “A†que a gente vê por aÃ.
Mas era uma onda de curtição mesmo?... Não, não. Cara, eu não tava ali curtindo, não. Rarrarrarrarrá. Eu levo tudo a sério, mesmo, fiquei até puto porque parou, tal. Mas foi melhor parar do que acabar, porque tinha o Black [Alien, vocalista] querendo gravar o disco, todo mundo querendo fazer as coisas, mas a gente vai voltar...
É, mas justamente, surgiu de uma história da necessidade de tocar em um perÃodo de Paralamas parado. É... de tocar, de precisar tocar, cara. E na época pagava... eu tava separado, rolava uma merrequinha que segurava o quarto em que eu morava, a gente precisa viver. Eu pagava 300 reais em aluguel, e pelo menos isso dava. Rerrerrê. Salvava legal.
O Reggae B foi uma maneira, também, de te apresentar pra galera... É, foi importante porque muita gente tocou com a gente. Todo mundo. Conheci a galera toda por causa do Reggae B. Arnaldo Antunes, Titãs, Gabriel O Pensador, Toni Garrido.
DaÃ, passa-se essa fase e tem a volta do Herbert e do Paralamas, como foi? Muito bacana. Não teve dificuldade nenhuma, o Herbert é um cara iluminado, sabe? Foi muito emocionante aquele Fantástico com a abertura ali. Eu lembro que o Zé [Fortes, empresário] chamou a gente: olha, a gente vai voltar, pode continuar, pode voltar, mas pode não dar certo, vamos fazer um show dentro da EMI. A EMI, ali em Botafogo. AÃ, a gente fez o show da EMI pra famÃlia, foi o Marlon, a galera foi toda assistir, os amigos do Bi, a galera mais próxima. Rolaram uns dois ensaios ali e depois meio aberto e divulgado. Mas a volta mesmo do Herbert foi no Reggae B, a gente emocionado ali, todo mundo chorando. A gente tocando ali, ele vai aparecer, ele apareceu e ele tocou. Foi foda a gente ver o cara ali de novo tocando. Eu lembro que a galera, pô, eu nem toquei. Rerrê. Emocionado pra caralho. Daà a banda voltou a ensaiar. Fizemos o Fantástico, e depois o show lá na terra do Herbert [ParaÃba]. E o Herbert tá melhorando a cada dia. A parte musical nunca afetou. O cara tá voltando, o cara tá ali.
Você falou sobre as orquestras de baile, que eram seu sonho... Vou fazer uma pergunta meio... (babaca), se você tivesse que tocar um tipo de coisa para tocar, para levar tua vida, você gostaria de tocar o quê? Tocaria reggae... reggae... Reggae e salsa! Ah, bicho... eu gosto de reggae. Gosto de Black Uhuru, lado b mesmo. Não pra falar de Bob Marley, mas as bandas que a gente vê em Barra do Sana aÃ, desculpa eu malhar, fazem a gente ficar com raiva até de Bob Marley. Fica aquela guitarra quén-quén... Mas tem várias bandas boas.
Reggae é um som urbano, de cidade, né?, não é música de cachoeira... E o reggae é muito novo, cara. Bob Marley abriu a porta, mas tem muita coisa ainda... Quer ver um ritmo que não entra muito bem no Brasil? É a salsa. Salsa é foda! O Santana foi malandro, misturou com o pop, mas no Brasil pro cara enfiar uma parada... eles tocam umazinha ou outra, a gente não vê nada. Em São Paulo ainda tinha.
Pô, então: Orquestra Imperial. Outro ambiente também que eu adoro. (você tinha falado de uma ligação com o carnaval...) Eu fui músico por causa do carnaval, meu pai montava um bloco lá em Saquarema, e o Ruivo [Rodrigo Amarante, Orquestra Imperial e Los Hermanos] também freqüentava lá. Ele tinha um bloco lá, o Grilo, no Saquarema de Bandas. E a gente tocava em bloco, tirava os sambas, tocava num clube. Eu só queria tocar carnaval. Fiquei dois anos, só tocando. ( E o Ruivo...) O Ruivo tocava também, era do Saquarema de Bandas, uma galera lá do pai dele. E eu tocava no Iate, que era o clube bem freqüentado, que na época tinha grandes bailes. Meu pai montava uma orquestra legal, minha mãe cantava, era a famÃlia. Todo mundo... E eu, o primeiro instrumento, eu toquei surdo. 12 anos de idade, e eu apanhava um surdão. Pá. Aà com 13 já estudei trombone, foi o primeiro carnaval.
E aÃ, essa onda da Orquestra [Imperial] era o mesmo tipo de música lá atrás de Saquarema. Ããnn... É, no baile de carnaval, sim. Mas hoje em dia, a coisa mudou. Antigamente o salão cantava, o baile não tinha nem cantor, era um baile tocado pelos metais, sambinha... O povo cantava. Depois, inventaram o cantor no baile de carnaval, até que foi acabando. E agora tá voltando. Devagar, tá voltando. Eu acho até que o Rio de Janeiro deveria voltar mesmo, porque... A Bahia ganhou lá o espaço com um carnaval... que é muito bom... Mas o Rio tinha essa tradição de tocar marcha, marcha-rancho, frevo em reveillon e baile de carnaval, os clubes tinham... Hoje em dia, não tem mais.
Mas a Orquestra Imperial não é um baile de carnaval, é um baile. Lógico, tem um marketing, é uma festa. Eu adoro aquela galera também, fico à vontade.
Mas como é que rolou a primeira vez? O Berna [Ceppas, produtor e programador de efeitos da OI] me ligou. O Berna e o Kassin, inventores da Orquestra, me ligaram: pô, Bidu, queria chamar o naipe dos Paralamas pra fazer lá e tal. Aà na época a galera não podia, o Monteiro e o Demétrio. AÃ, eu falei: cara, eu posso, to a fim, interessado. Mas aà a galera tava querendo uma grana, não-sei-que, eu falei: Berna, melhor levar uma garotada que tá começando e nego investe ali. Que era o [flautista Felipe Pinaud], o Max [Sette, trompete]... Rarrá: o Mauro [Zacharias, trombone], o cara tava sem trabalho, o Mauro do Los Hermanos. Eu falei: Mauro, vai pro Rio...
Bom que você falou nisso, em renovação, a gente tava no caminho conversando, sobre uma impressão que de um tempo pra cá os naipes de metais, principalmente na música pop, estão mudando um pouco. De naipes percussivos para algo mais melódico... (interrompendo) É lógico. Até porque antigamente nego era muito influenciado pelo funk, né? Era aquela coisa bem picada Pá! Pan! Pen! Perenren. Neguinho copiava americano, era muito americano. E a coisa hoje em dia... sei lá.
Até nos Paralamas, nesse último disco, a faixa 'Soledad Cidadão', que você faz os vocais no show, ela já traz um naipe menos percussivo, mais melódico... É, eu acho também. E eu acho que o disco em que o naipe ficou legal foi o acústico. Ali a gente tava num pique... E o show também tava bom.
Mas voltando à Orquestra Imperial. Houve uma primeira fase, em que o Seu Jorge comandava... (interrompendo) mas isso foi só no inÃcio...
Pois é, mas depois começou a ir pro Canecão e fazer os bailes de marchinha e hoje está numa terceira fase com os bailes de carnaval no Circo Voador... (interrompendo) Foi descobrindo um caminho... Fica na Orquestra quem quer estar. A Orquestra nunca contratou ninguém, fica nela quem quer. Por exemplo, o [Wilson] Das Neves hoje em dia é um membro da Orquestra e a gente vai gravar agora, depois do Carnaval, material próprio. Tem várias composições ali, material do Rubinho [Jacobina, teclados], da galera ali... Vem projeto bom da Imperial aÃ!
Cara, por mim acho que acabou. É, aà já tem material, né? Gravou tudo aÃ... Agora vamos tomar uma cerveja ali, né não?
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