Um mundo que continua girando a 33 e 1/3

João Xavi
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joao xavi · São João de Meriti, RJ
29/12/2011 · 27 · 0
 

Copacabana fica na Bavária. Mais exatamente em Nuremberg, cidade de 600 mil habitantes localizada na parte central do estado bávaro, região que carrega a fama de ser a mais conservadora de toda a Alemanha. Na Copa daqui não tem água de coco por três reais nem mesmo Helô Pinheiro (ops! essa é de Ipanema!). Mas tem Nara Leão, Chico Buarque, Jorge Ben e também um grande acervo do selo Elenco, um dos principais celeiros da bossa nova nos anos 1960. Maurício Villarinho, paulistano, artista plástico e ilustrador por profissão, é o empreiteiro desta viagem. “No  final dos anos 50, no Brasil, foi inacreditável a produção de discos com música de primeira qualidade: Tom Jobim, João Gilberto, todo pessoal do Samba-Jazz, o Beco das Garrafas... tinha tanta coisa maravilhosa! Não é? E Copacabana é uma homenagem a todo este pessoal que deixou um legado fabuloso para o mundo”, conta.

A Copacabana daqui não serve de cenário para o passeio matinal de velinhos, babás e crianças, tampouco, à noite, de palco para o brilho das meninas que ganham a vida nas calçadas do bairro. O público da Copacabana Records é formado por apaixonados pelo bom e velho disco de vinil. A maioria deles marmanjos, lá pela faixa dos 40, 50 anos, mas seria um erro engessar os frequentadores num estereótipo, já que a loja também recebe um fluxo de gente mais jovem, interessada em diferentes novidades e velharias que aqui são tratadas carinhosamente pela alcunha de clássicos. “Tem discos que ninguém encontra e eu vou atrás. Às vezes demora até uns três meses, mas eu encontro, e aí os caras ficam doidos”, diverte-se Maurício, que teve um “empurrãozinho” da esposa como motivação para iniciar o negócio. “Olha, de tanto disco que tinha em casa minha mulher falou para eu ir embora, ou para abrir uma loja e vender esses discos [risos].” Depois ele mesmo se apressa em explicar: “Não foi isso, não... foi a paixão pela música mesmo.”

A força do nome e a presença legitimamente brasileira à frente do negócio me faziam acreditar que a proposta principal da loja era suprir a carência de europeus e brasileiros apaixonados pelas músicas dos Brasis. De fato o acervo de música brasileira é bem grande e plural. Vai desde o primeiro álbum do Sérgio Mendes (Dance Moderno, de 1961, raridade orgulhosamente exposta na vitrine) até o clássico Punk Deixe a terra em paz, da banda paulistana Cólera (descanse em paz, Redson). A procura pelas bolachinhas made in Brazil é grande. Discos de gente como Jorge Ben, Tom Jobim e Mutantes não param na loja. É chegar, lavar (sim, os discos são devidamente lavados numa maquininha especial e saem da loja brilhando como novos!) e botar para vender. Mas mesmo com o bom fluxo de produto nacional,  fui descobrindo em meio ao nosso bate-papo que o segredo do sucesso desta Copacabana não se resume à nossa música, mas tem relação sim com um “jeitinho brasileiro”. É algo que se esconde na sutil relação que Maurício desenvolve com cada cliente.

“Este tipo de comprador  é o meu motor da loja, minha locomotiva de verdade. Eles vêm da região metropolitana aqui de Nuremberg e até de fora, são colecionadores. Mas tem também o público normal, que vem para comprar um disco de cinco, dez euros, claro. Acho que o objetivo não é dinheiro,  isso é uma coisa secundária... Para mim, o objetivo maior é a música. Então, meu, se a pessoa comprar o disco de 1€, eu já fico feliz de estar vendendo uma coisa boa, não importa quanto custa. Não faço esta distinção. É claro que o cara que gasta mil me deixa mais contente [risos]. Mas eu trato todo mundo da mesma forma”, diverte-se.

Pode soar cafona, mas Maurício não comercializa discos. Ele é na verdade um “vendedor de sonhos”. Seu negócio não é simplesmente revender música brasileira, ou qualquer outro tipo de gênero, subdivisão ou especialidade. Este paulista bom de papo atua como um garimpeiro de raridades, que são, para seus compradores, verdadeiros fetiches, objetos de desejos. Existem discos que são como lendas, procurados anos a fio por colecionadores apaixonados e que foram pouquíssimas vezes de fato vistos e tidos em mãos. São justamente estes os discos que lotam a lista de encomendas a serem resolvidas pelo faro e a boa rede de contatos de que Maurício dispõe. Corresponder aos desejos de seus clientes e ainda oferecer as pérolas sonoras por um preço bacana são a estratégia central, a alma de um negócio movido a Soul Music. Disco não se vende como pedra (nem mesmo como as preciosas) e, apesar de existirem cotações estabelecidas em catálogos rigorosos e um mercado global altamente especializado em vinis raros, Maurício procura sempre repassar seus achados a preços justos. “Eu consigo achar os discos relativamente mais baratos do que a moçada costuma cobrar por aí. Tem gente que mete a mão mesmo! Mas por que vou repassar supercaro para os caras que vêm sempre aqui na loja? Eu ganho o meu, eles ficam felizes e voltam sempre. É assim que funciona.”

Para saciar o desejo de seus compradores, Maurício precisa enfrentar uma rotina de trabalho bem intensa. O “caçador de bolachas” chega a viajar regularmente de duas a três vezes por mês na busca pelas raridades que movimentam a loja. “Para mim, juntou as duas coisas que eu mais gosto na vida: música e viajar. É maravilhoso, né? É sempre interessante. Fica sempre assim uma expectativa: o que eu vou encontrar? Em toda caixa que eu mexo, em todo porão que eu vou ver disco, ou em feira de rua, é sempre interessante. Pô, o que eu vou achar, meu? Às vezes aparecem coisas fabulosas... às vezes não acho nada! [risos]”.

Os destinos mais frequentes são Estocolmo, Amsterdã, Rio de Janeiro e São Paulo. Cidades onde, em porões úmidos e empoeirados, a mágica da descoberta acontece. Depois de alguns dias dedicados à busca e isolado do mundo real, Maurício sempre retorna à loja carregado de pérolas sonoras e sofrendo com a alergia a poeira, ironia do destino para quem escolheu viver próximo a uma quantidade tão grande de LPs e compactos. “Comprei nesta última viagem cerca de 500 discos. Trouxe 120 comigo na mala e o resto eu mandei pelo correio, por expedição. Cheguei de viagem ontem, e olha quantos dos 120 ainda estão aqui (restavam mais ou menos uns 30 discos). Os caras sabem que eu chego de viagem e já vêm atacando. Às vezes não dá tempo nem de botar na estante. Eles já saem levando tudo”, conta Maurício em meio a gargalhadas.

Em um ambiente como este é impossível não se lembrar de clássicas referências cinematográficas como Alta fidelidade e Durval Discos. O segundo, com toda sua dose de psicodelia e um clima forte de anos 60 e 70, parece ter mesmo muito a ver com Maurício. Um cara que de fato não parou no tempo, mas que também não se deixa iludir por todos os milagres do mundo moderno, Maurício valoriza muito o contato presencial e estabelece a rotina da loja como um verdadeiro ritual de troca com os clientes. Esta é uma das razões pela qual a Copacabana Records ainda não lançou seus tentáculos no mundo da WWW. Para Maurício, a graça nesta brincadeira de procurar e revender discos é o bate-papo com outros aficionados pelos vinis. É um processo que acontece de forma natural e muitos dos clientes que nestes quase três anos frequentam a loja semanalmente, ou mesmo várias vezes na semana, criaram vínculos de amizade com Maurício e entre si.

A loja virou um ponto de encontro e a boa prova disso é a visão desta Copacabana num dia de sábado, cena que lembra de longe a agitação do bairro carioca. Lotada de gente instigada com o que vê e ouve, numa troca de energias e informações que gera um burburinho quase tão melódico como os discos que lá são vendidos. E Maurício, um típico boa-praça, atua como regente nessa sinfonia de viciados pelo “barulhinho bom” do mais-vivo-do-que-nunca disco de vinil.

*Essa matéria foi editada e faz parte da edição nº 4 da Revista Overmundo.

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