"A escolha das personagens que fazem parte deste trabalho foge do padrão comum de quando o assunto é História, porque o foco integral é um só: a mulher. Neste particular, a história é altamente discriminadora. Talvez alguém estranhe mais, porque tenham sido listadas aqui pessoas que normalmente são colocadas de lado quando se discorre sobre fatos ou personalidades históricas. Mas não se pode descartar que os personagens e fatos aqui citados foram, ou são, importantes para construir a História de Rondônia." Albuquerque, Lúcio – A Mulher em Rondônia (pg. 05).
Antes de começar a entrevista, um alerta: "não sou historiador, nem pretendo ser". Lúcio Albuquerque, jornalista há mais de trinta anos e escritor, é um daqueles amazonenses que preferem ir direto ao assunto. O prefácio acima deixa bem claro que em seu mais recente trabalho, o livro "A Mulher em Rondônia – de Tereza de Benguela a Coronel Angelina", Lúcio direciona seu foco para o resgate e a importância da mulher na construção daquilo que chamaram, mais tarde, de Estado de Rondônia.
Uma obra que vem dividida em três partes: a cronologia com datas, fatos e personagens da presença feminina antes da criação do Estado. Em seguida, momentos e fatos históricos da participação da mulher na construção de Rondônia, com temas envolvendo a cultura, educação e religião. O último capÃtulo, porém, ilustra mulheres que se destacaram – e ainda se destacam – ao longo de uma história que começa em 1753, com a coragem de uma negra chamada Tereza de Benguela, a rainha do quilombo do Piolho, que era situado na região de Cabixi, hoje localizado no interior do estado.
"São poucos que conhecem a existência do quilombo formado por negros evadidos das senzalas de São Paulo e Mato Grosso que eram liderados por Tereza de Benguela", disse o jornalista. Segundo ele, Tereza havia sido presa por tropas do governador do Mato Grosso, Luiz Pinto de Souza Coutinho, e, para não voltar a ser escrava, a rainha acabou cometendo suicÃdio. Quase cem anos depois, em 1850, é registrada a primeira seringalista no rio Madeira: a paraense conhecida como Dona Vitória. Naquela época, pois, a mulher no seringal era pouco valorizada e feita como mercadoria para satisfazer os desejos dos seringueiros que possuÃam saldo com o patrão. "Não se exigia qualidade, bastava que fosse mulher", explica o autor.
Mas foi em Santo Antônio – quando a área fazia parte do Mato Grosso, hoje pertencente a Porto Velho – que a mulher iniciava sua participação na cultura, em 1913, cantando num coral formado por moças e senhoras, devidamente registrado pelo jornal Extremo Norte. Para se ter uma idéia, a mulher em Rondônia teve que esperar, após ter o direito ao voto, em 1930, mais de 60 anos para ocupar um cargo parlamentar, mérito obtido pela professora Aliete Alberto Matta Morhy, eleita vereadora do municÃpio de Guajará-Mirim, em 1972. De lá pra cá, a mulher rondoniense vem conquistando ainda mais o seu espaço. Prova disso é a coronel PM Angelina Ramires, nomeada para comandar a PolÃcia Militar, em 2003.
A primeira “Rainha da Beleza†de Porto Velho, por exemplo, não foi escolhida por um júri, mas pelo voto popular através de um cupom incluso nas edições do jornal Alto Madeira, que era posto numa urna na redação do jornal, nos idos de 1918. O concurso teve a participação de oito candidatas e a vencedora foi Maria de Lourdes – conhecida como Liquinha – com 1332 votos.
A historiadora Yeda Pinheiro classifica a obra como "uma página da nossa história ainda esquecida ou ignorada, revelando a historiografia rondoniense com uma marcante presença feminina", aponta. A jornalista Ivalda Marrocos expõe que "negar a presença feminina na construção desta terra é, no mÃnimo, miopia".
Lúcio Albuquerque conta que o levantamento e a pesquisa para fazer o livro duraram mais de quinze anos. "Na verdade, eu tenho um acervo considerável sobre o inÃcio da história da mulher em Rondônia, mas foi preciso ir atrás de muita informação também", revela. Ele explica que "o que chamou mais atenção foi a história de mulheres anônimas", citando o exemplo da tacacazeira Darli de Lima, que há quase quarenta anos vende tacacá no mesmo lugar desde 1970. "São personagens que ainda estão vivendo conosco, são anônimos e mantém uma história riquÃssima", acredita.
O livro teve tiragem de 2.000 exemplares, mas será reeditado em breve. Para quem ficou interessado e quiser saber mais da história da mulher em Rondônia, a obra pode ser encontrada na livraria localizada no Aeroporto Internacional Gov. Jorge Teixeira ou ligando para editora responsável pela publicação do livro, a Primmor Forms, nos telefones (69) 3224-6756/3224-7348.
“Parece que, propositadamente, não querem admitir que elas fazem nossa história. Mulheres que nunca deixaram de lado seus deveres de companheiras, amantes, mães, educadoras – muitas vezes assumindo a famÃlia, quando perdiam seus homens pelas tocaias, malária ou quando eram abandonadasâ€, convida o autor a todos para uma reflexão sobre as mulheres de Rondônia.
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