SOB A LUZ DO NEON

2
Thiago Toscani · Florianópolis, SC
17/7/2014 · 2 · 0
 

O azul da velha cortina que cobria parte da janela misturava-se à visão embaçada, fazendo com que a explosão de cores do neon que piscava na rua e invadia o local parecesse ainda maior. Tentou mover-se. Percebeu uma garrafa de vodka que, ao lado de seu pé esquerdo, equilibrava-se entre copos, cinzeiros e um aparelho de som. "Merda.....", disse, ao perceber a cabeça pesando três toneladas. Queria levantar-se, mas preferiu elevar sua mente a qualquer estado que o fizesse recordar o que exatamente fazia ali. Deitado em uma cama estranha, percebeu a ausência quase completa de roupas. Estava só de cueca. E terrivelmente embriagado. "Maravilha", dizia. “Maravilha...”. Com a velocidade de uma lesma, virou-se. “Merda de bebida....porra....”. Na nova posição que assumira na cama pôde observar o ambiente com mais calma. Suas roupas jogadas no chão. Tentou visualizar o volume da carteira com documentos e grana no bolso traseiro da velha calça jeans que usara na noite anterior. A visão distorcida pelo alto teor alcoólico no sangue não deixou. Mesmo assim, esforçou-se para chegar mais perto. A carteira estava lá. O dinheiro também. E foi ali, com o braço esticado rente ao chão que percebeu o vapor saindo por debaixo da porta. “Tem alguém tomando banho ali”, disse para si mesmo. Olhou mais uma vez ao redor e percebeu que estava em um quarto. Poderia ser um quarto de motel. Ou de hotel. “Dos mais decadentes”, constatou. Ou poderia ser o apartamento de alguém. “Mas quem?”, perguntava-se. Da noite passada lembrava-se apenas de sair para comemorar a “contenção de despesas” da empresa onde trabalhava há mais de cinco anos. E a despesa era ele. Jogado na sarjeta, sem emprego e com a rescisão de trabalho toda na carteira, saiu para beber. Só não imaginava que o fundo do copo não fosse o limite. Ali, de cueca, sem saber onde estava e com o barulho do chuveiro ao lado sendo desligado, ele percebeu: “estou no fundo do poço”. Quando a porta definitivamente se abriu, uma figura loira adentrou o quarto enrolada em uma toalha verde-limão desbotada. Do banheiro até o play do aparelho de som foram só alguns passos.

I couldn't resist him
His eyes were like yours
His hair was exactly the shade of brown
He's just not as tall, but I couldn't tell
It was dark and I was lying down
You are everything, he means nothing to me


A figura de cabelos dourados parecia ignorar a presença de um homem só de cueca na sua (?) cama. Foi então que, completamente desajeitado e sem enxergar direito, ele disse: “Isso aí é Amy Winehouse?”. “É. Gosta?”, disse a loira, despindo-se calmamente da toalha. Foi desse momento em diante que ele desejou não ter perguntado. Ou melhor. Não ter nascido. Ou ainda: ter morrido. De boca aberta, observava a cena mais dantesca vivida por ele até então: a moça em questão era um...travesti. um travesti que secava os cabelos loiros com a toalha verde-limão desbotada, fazendo passinhos conforme a música e entoando um inglês embromation. Pior que isso, era a pergunta que ele fazia a si próprio: "O que é que eu estou fazendo aqui????"

What do you expect?
You left me here alone
I drank so much and needed to touch
Don't overreact, I pretended he was you
You wouldn't want me to be lonely


Àquela altura do campeonato, embriagado pela bebida ou pelo puro absurdo da situação, questionava-se sobre o que teria acontecido, sobre até onde chegara na noite anterior, sobre como fugir dali e fazer com que ela (ou ele) se esquecesse de tudo (ou seria nada?) que tivesse acontecido (ou não) entre os dois. Moveu o rosto para o lado oposto, em direção ao neon que, incansavelmente, derramava suas cores sob o chão do quarto. Lembrou-se da vodka ao lado do pé esquerdo. Não pensou duas vezes: agarrou-a e, num momento intensamente dramático, virou um gole desesperado. Outro gole. Mais um. E de novo. Em um nano segundo adormeceu novamente sob a luz do neon, de cueca. Antes de sair, a loira sentou ao seu lado e, sorrindo, cantarolou o último refrão de Amy Winehouse:

Yes he looked like you
But I heard love is blind


Sim, ela era fiel ao seu amor.
E ele poderia dormir descansado.

Sobre a obra

Apenas um conto.

compartilhe



informações

Autoria
Thiago Toscani
Ficha técnica
Thiago Toscani
Downloads
143 downloads

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
pdf, 5 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter