SOU O QUE LEIO
Leio com grande prazer os livros do Enrique Vila-Matas. Livros que falam de livros e de sua leitura, não-leitura e sÃndromes. Muitas sÃndromes e mortes. Uma literatura do não. Muitas citações de autores consagrados e outros inventados. Claro é – que, para leitores mais exigentes, os livros ficam na superfÃcie. As tardes planas nas ramblas de Barcelona, de que fala o escritor, são como as nossas vidas sem sal e novidades. A leitura é ontológica. Nós somos o que lemos e a vida imita a arte. Esquecer também faz parte desse jogo de tempo-será. Para o autor, o essencial da realidade se encontra nos livros. Somos o que lemos. A vida sai dos livros e - por isso mesmo, é necessário ler os grandes autores e correr das toupeiras que abundam o cimo do monte. Os maus livros entorpecem o intelecto por sua vez destrói o espÃrito, citando Schopenhauer. Às vezes tenho impressão de que surjo do que escrevi (in Viagem Vertical).
Em o “Mal de Montano†(todos os livros que leio do Vila são da editora CosacNaify ) o escritor escreve um belo diário com os grandes personagens Rosa, Rosário Girondo ( uma espécie de alter-ego) e o feio Tongoy (numa alusão injusta ao grande Sancho Pança). O autor viaja por feiras de livros e festivais literários para saber de suas nulidades quando têm a pretensão de formar novos leitores. Vários escritores são referenciados e fazemos uma bela viagem pelos Açores, Lisboa, Barcelona, Budapeste, etc. Muitas citações dos diários de Gide, Walser, Musil, Kafka, F. Pessoa, Montaigne, etc. “ Desejo ser a memória da literaturaâ€. Sofremos – também sofro- do mal da Montano. Do Mal que nos refugia na literatura. Ela, a literatura, nos oferece uma fuga da tirania da polÃtica, do trabalho e da famÃlia. E eu acrescento: das mulheres. O amor é uma ilusão. Depois das bodas de ouro de casamento, o protagonista de “A viagem Verticalâ€, é posto para fora de casa pela mulher e seu mundo desmorona. Os filhos não socorrem. Os amigos também não.
Por outro lado, o grande escritor portoriquenho e ganhador do premio Nobel Juan Ramon Jimenez, perde o prazer de viver depois que sua esposa Zenóbia falece. “Minha melhor obra é o arrependimento da minha obraâ€. Nos livros existem muitas interseções e repetições, por vezes cansativas. São muitos escritores que entram no labirinto do não (Bartleby e companhia). Alguns escritores escrevem só um livro e deixam de escrever. A sÃndrome de Bartleby acometeu Rimbaud, Salinger e muitos outros grandes escritores. Outros não escreveram nada, esses são os mais felizes. Na oficina OuLiPo participam Perec, Queneau, Calvino, etc. Para eles a literatura em si não afirma nada. Quem a procura, procura aquilo que lhe escapa. O grande escritor russo Tolstoi via a literatura como uma maldição no final de sua vida. Para o comedor de ópio Thomas de Quincey, era esse elemento a sua sÃndrome de Bartleby. Para Lobo Antunes, escrever é como se drogar, começa-se por puro prazer, e acaba-se organizando a vida como os drogados.
Marcel Maniere escreveu o “Inferno Perfumadoâ€, considerado o “Quixote da literatura do nãoâ€. E você caro leitor, de que sofre:. Da sÃndrome de Bartleby ou de O Mal de Montano?
Também tem o paranóico que acha que todas as suas idéias são roubadas pelo Saramago. Musil de “ O Homem sem qualidade†oferece um consolo para todos nós, homens “pordiosero†(mendigos). A mais profunda associação do homem com seu semelhante é a dissociação.
Só o sofrimento nos singulariza. “Enquanto se tem um sofrimento, tem-se uma opinião própria (Lichtenberg). Meu sofrimento ninguém ver, sou diplomado na escola de sofrer, diz a letra de um grande samba.
O Monsieur Teste do Paul Valéry é um dos livros mais citados pelo Villa-Matas. Para Valéry, a inteligência completa, equilibrada, fecunda sempre foi um caso insólito. . Na metafÃsica de SavÃnio, o homem divide seu afeto entre a inteligência (a amante, a grande desejada) e a estupidez ( a esposa, melhor, a consorte). Quem sou eu para discordar. Fui. Ou melhor, li. E você caro leitor, prefere viver ou a literatura?
João da Mata Costa – UFRN
Natal- RN, no mês de Sant´ana
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