A bicicleta do músico

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Pedro Santos · Estônia , WW
18/10/2011 · 5 · 1
 

Por um momento, enquanto Antonio Werk toca um saxofone fabricado em 1930, seus olhos parecem se perder em um lugar do tempo chamado passado. Mas quando acaba de tocar, Antonio faz questão de afastar a ideia da música como meditação. “Eu sou muito consciente quando toco, percebo o que está à minha volta ou se tenho que abaixar o volume para não incomodar. Eu fico ligado.”

O gaúcho Antonio Geraldo Wernek tem 53 anos, foi músico da Banda Sinfônica de São Paulo, onde tocou de 1989 a 2001 como saxofonista e clarinetista. Depois veio para Florianópolis, chegou a se apresentar na Orquestra Sinfônica de Santa Catarina e abriu uma micro-empresa em Florianópolis, que administra com a esposa, Miriam. “Minha rotina de trabalho é: eu vou lá, faço o que tenho que fazer e volto. E depois eu cozinho”, conta em tom de brincadeira.

Hoje ele não trabalha mais como músico. “Se alguém quiser vir aqui em casa e ensaiar eu topo. Podemos tocar, montar tudo aqui na sala e fazer um show”, diz depois de trazer para a sala três maletas envelhecidas. “Mas toco só de vez em quando.”

Ao abrir as maletas, os olhos de Antonio parecem brilhar quando ele revela as peças de um saxofone e um clarinete. Ele não esconde certa nostalgia pelo passado musical, mas sabe que viver de música atualmente é praticamente um sacrifício. Ele cita os baixos cachês, grande parte gasto no transporte dos músicos e dos equipamentos. “E tem também o aluno a quem você dá aula que vira seu amigo e logo vai se esquecendo de pagar as aulas.”

Um dia a música ocupou a vida de Antonio bem mais do que agora. Ele estudou em Porto Alegre, foi morar em São Paulo e depois se matriculou na faculdade de música em Ouro Preto, Minas Gerais, antes de voltar para São Paulo. Teve aulas com o músico instrumentista Paulo Moura, tocou com artistas como Beth Carvalho e Zeca Pagodinho e em centenas de concertos com a Banda Sinfônica.

Conheceu a vida na estrada, nos palcos e nos copos. “No começo era uma dose de uísque todos os dias. Depois eu derrubava uma garrafa inteira em cinco dias. Percebi que tinha que parar”, conta. E parou. Largou a bebida de vez quando decidiu comprar uma bicicleta elétrica e fazer uma aposta, sem volta, em mais qualidade de vida.

A bonitinha
A bicicleta elétrica de Antonio parece uma moto pequena com pedais. Foi a alternativa que ele encontrou para driblar a necessidade de dirigir.

“Pelo menos agora não vou ter mais que me divorciar de minha mulher”, conta. “Porque eu ficava estressado quando dirigia e ela brigava comigo.”
Todos os dias, de casa ao trabalho, Antonio anda cerca de 10 quilômetros de bicicleta todos os dias, a maior parte do trajeto sobre ciclovias. “Já perdi três quilos desde quando comecei há um mês”, faz questão de frisar.

Dia desses, quando estava andando pelo bairro onde mora, um trio de crianças na rua apontou para o veículo gritando: “Olha lá, que bonitinha!”. O apelido pegou e a família de Antonio batizou oficialmente a bicicleta, que agora se chama “Bonitinha”.

“A bicicleta chama a atenção aonde vai, principalmente das crianças. Naquele dia, elas apontavam e gritavam para mim. Parecia que estava passando o Paul McCartney pela rua”, diz Antonio, uma vez mais fazendo referência ao universo musical.

(texto originalmente publicado em www.ndonline.com.br)

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Sergiomirandinha
 

Opa, não sei se você soube, houve uma manifestação que aconteceu agora dia 1 de Janeiro em São Paulo na posse do prefeito. Saiu no 'Va de Bike': http://goo.gl/ebwn3 E no Diario de S. Paulo: http://goo.gl/hZVja Eis aqui fotos da Manifestação: http://goo.gl/VUTQN - Acho que a Bicicletada deve se movimentar em eventos estratégicos assim, para chamar bem atenção, e pedir pontos concretos, como é o caso do plano de 2008 engavetado. Para saber mais sobre o plano de 2008, acesse este artigo do "Va de Bike" http://goo.gl/OCXlJ .

Sergiomirandinha · São Paulo, SP 6/1/2013 11:34
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