Entrevista com Ubiratan Castro, presidente da Fundação Cultural Palmares / Ministério da Cultura.
Ubiratan Castro é hoje um dos grandes líderes da política negra nacional. Doutor em história pela Universite de Paris IV (Paris-Sorbonne), onde estudou a política econômica na sociedade escravagista no séc. XIX, formado em história e direito, Ubiratan atualmente preside a Fundação Cultural Palmares. Um pouco antes de sua palestra na Reitoria da UFBA, durante a II Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora (II CIAD), concedeu essa entrevista ao colaborador do Overmundo Andre Stangl. Em sua palestra falou sobre a importância da construção de uma historiografia negra produzida por pesquisadores negros. Na entrevista, falou sobre o processo de organização do IIª Ciad, as expectativas africanas, as tensões internas e o silêncio da mídia do sudeste quanto ao evento. Uma verdadeira aula de história e geopolítica africana.
Overmundo – A proposta da organização da Conferência foi uma iniciativa da União Africana...
Ubiratan – do governo do Senegal e do presidente Abdoulaye Wade especialmente. Foi um pedido formal do presidente Wade e da União Africana ao presidente Lula e ao ministro Gil para que o Brasil pudesse sediar a segunda conferência, tanto que é o Ministério da Cultura quem se responsabiliza, junto com o Ministério das Relações Exteriores. É um compromisso de Estado. Não é um projeto acadêmico, é um projeto de Estado mesmo.
Ov – Como é que você avalia o encontro?
Ubiratan - Para mim está sendo um sucesso. Primeiro pela quantidade de participantes, pela mobilização do povo baiano em torno do tema. Espero que a Carta de Salvador contenha indicações muito precisas e diretrizes, princípios e recomendações não somente de uma nova qualidade de intercâmbio e de cooperação, mas acima de tudo pela definição de objetivos comuns em termos de atuação nos organismos internacionais, nos órgãos multilaterais e tudo isso centrado na noção de “Renascimento Africano”, que é a noção de um novo desenvolvimento de qualidade dos países da África e dos países que têm uma diáspora africana, uma população de origem africana. Então é um projeto de futuro, uma grande política negra – não tem o G8 dos países ricos – que a gente possa ter o nosso GT internacional, em torno das nossas solidariedades, enquanto países todos de tradição africana, no sentido de, em todos os organismos, dar suporte a projetos de desenvolvimento e de apoio, enfim, quebrar com esse cordão sanitário contra a África e contra o chamado Sul. O presidente Lula falava muito claramente isso ontem na conferência dele. Os países chamados ricos querem uma relação que seja baseada apenas na caridade, em algum tipo de migalha que seja jogada para os chamados países pobres. A gente não quer isso. A gente quer uma relação igual. Ou seja, a gente não quer esmola, a gente quer ter acesso aos mercados deles, do jeito que eles têm acesso ao nosso mercado. A gente quer compartilhar uma tecnologia de ponta e não ter uma tecnologia requentada, a sobra. Ou seja, se nós trabalharmos em blocos solidários, com projetos em comum, isso fica muito mais fácil. Então, na verdade, para os africanos, é o ideal de conseguir chegar a uma espécie de Estados Unidos da África, enfim, é muito a idéia da Comunidade Européia, chegar a instrumentos de tomada de decisão, de governo, de coordenação e de ação econômica semelhantes à Comunidade Européia, como um Parlamento.
Ov – Com a formação de um bloco africano?
Ubiratan - Com a formação mais do que um bloco. A formação realmente, no futuro, de uma nação unificada.
Ov – Sem fronteiras, com uma moeda só...
Ubiratan - É como eles dizem, que a fronteira seja uma fronteira administrativa, seja uma divisa administrativa, e não uma fronteira que separe nações, que haja políticas comuns, porque a reprodução após a colonização de estados pós-coloniais com a mesma territorialidade das áreas coloniais, criou e manteve países inviáveis economicamente. Você veja, tem aí o Senegal, encravado no Senegal tem a Gâmbia, Guiné Bissau, Guiné Conakry. Tudo isso já foi a grande Senegâmbia, o grande império peul, o grande império fulani, com a coordenação de recursos, com complementaridades internas. Enfim, quando os franceses, os ingleses, os portugueses picotaram esse grande território da antiga Senegâmbia, criando países como a Gâmbia, que é apenas um enclave, um porto inglês no meio da colônia francesa para atrapalhar os franceses, no rio Senegal. Quer dizer, quando você cria um estado como a Guiné Bissau, hoje a Guiné é um estado inviável. Eu estive lá duas vezes, é um estado que está se debatendo em guerra civil. Na verdade o que está em jogo é uma grande Guiné, uma grande Senegâmbia. Senegal, Gâmbia, Guinés. O que foi outrora, antes da colonização, um grande império, ou uma grande área, assim como outras áreas. Isso é um desafio africano, de buscar novas complementaridades, uma nova composição. Agora eles precisam, e nós também, ter alianças privilegiadas, ter projetos em comum, compartilhamento de tecnologia, que eles tanto precisam, e que não seja só tecnologia militar. Até hoje o que se compartilhou, por exemplo com Angola, foi a tecnologia militar brasileira, que foi muito mais eficaz que uma tecnologia militar soviética.
Ov – Cuba também?
Ubiratan – Cuba entrou com os combatentes, com os primos, mas toda a tecnologia era russa.
Ov – A gente vê no governo Lula essa coalizão do terceiro mundo, uma pressão no sentido de flexibilizar um pouco mais esse protecionismo do primeiro mundo. Quer dizer, entra aí isso também, junto com a América Latina e os países asiáticos?
Ubiratan – Claro. Porque que nós temos que ser sempre exportadores de produtos brutos e não produtos com valor agregado, com tecnologia incorporada? Enfim, esse é o esforço do Brasil que já é um país que já consegue disputar em alguns espaços, mas não consegue em outros. Mas para os africanos isso é pior. Eles foram inteiramente privados de uma indústria competitiva. E outra coisa, uma tecnologia que seja adaptada. Por exemplo, eu acompanhei muitas missões do ministro Amorim, do ministro Gil, do presidente Lula, e um dos itens mais procurados pelos países africanos é a Embrapa, ou seja, o que o Brasil tem de ponta, que é uma tecnologia agrícola de ponta, no sentido da pesquisa científica produtiva adaptada aos trópicos, que é uma tecnologia de agricultura tropical brasileira. Então eles estão a fim disso, para quê?
Ov – Aumentar o desenvolvimento.
Ubiratan- O desenvolvimento, aumentar a produtividade, combater a fome. Então isso é mais importante do que qualquer doação, do que qualquer esmola. Como o Cameroun (Camarões), taí o embaixador, o Brasil compartilhou com eles uma fábrica de remédios. Tá lá instalando uma fábrica de remédios, para ser usada pelo estado Cameronês, para produzir genérico, remédio barato.
Ov – Sem patente?
Ubiratan – Sem patente.
Ov – Inclusão digital também?
Ubiratan – Sim, Inclusão digital, enfim, essas são as formas de cooperação.
Ov- A gente sente um pouco de carência de um intercâmbio cultural maior: músicas, filmes, livros.
Ubiratan – É, mas tudo isso depende da gente construir uma rede de intercâmbio, mas no meio dessa rede tem uma questão que foi colocada muito claramente ontem pelo presidente, que em todas as reuniões, em todas as missões se coloca: transporte aéreo. Hoje, para você mandar alguém para Angola, você só tem um vôo da Taag, que é Rio-Luanda. Hoje para você mandar uma pessoa para qualquer país da África, ou você vai para Joanesburgo via São Paulo, e de lá sobe, ou você vai para Lisboa, Paris e desce.
Ov- Na cobertura das viagens do presidente Lula à África, na Folha de São Paulo sempre vinha um aviso dizendo que estava indo com a comitiva do presidente porque não tinha outros vôos. Que situação...
Ubiratan- As primeiras linhas estão sendo abertas, abriu a primeira linha que é Fortaleza-Praia, no Cabo Verde. São 3h30 de travessia.
Ov – Também podia ter uma parceria com o setor de turismo, né?
Ubiratan- Mas ainda é um vôo por semana, então esse vôo é cheíssimo. E você tem que ir para Sal fazer conexão para o Senegal, para Dakar, é a maior complicação. Eu fiquei lá uma vez 5h no aeroporto esperando conexão. Então a proposta do presidente Lula e do presidente do Senegal é uma linha direta Dakar-Recife, são 3h30 de viagem. Porque em Dakar você pode fazer conexão para a Europa, fica muito mais barato. Esses pontos ainda são a permanência de uma intervenção inglesa, européia, que forçou a triangulação. Que para combater o tráfico de escravos, cortou as relações diretas entre Brasil e África e obrigou que toda relação com a África passasse pela Europa. Ainda hoje existe uma grande resistência das empresas francesas e inglesas em abrir qualquer espaço de linha direta porque assim mantém a triangulação, que coloca a Europa como intermediária entre as Américas e a África.
Ov – Como você interpreta o desinteresse da grande mídia do sudeste quanto à IIª Ciad?
Ubiratan- É realmente o bloqueio e o silêncio da imprensa brasileira em tudo o que diz respeito ao negro. No ano passado se fez o Congresso Nacional de Promoção de Igualdade Racial, 3 mil delegados, em Brasília, o centro do poder. Não saiu uma só notícia no jornal. O que saiu foi uma notícia que teve briga entre ciganos e briga entre palestinos e judeus lá dentro, uma coisa incidental, de uma expressão mínima, e em torno disso houve um bochicho e tal, mas sobre a questão de negro mesmo há um bloqueio sistemático.
Ov – Seria desinformação também?
Ubiratan – Não é, é um bloqueio sistemático, não falar no assunto. Essa é uma estratégia do racismo no Brasil que é antiga, a estratégia da invisibilidade, é o silêncio. A gente não fala mal, mas também não fala bem, a gente não fala nada. Só fala quando é uma polêmica para sentar o pau, o caso das cotas. Aí você dá a visibilidade da ressonância a grupos que não têm expressão. Um exemplo, hoje ela não veio aqui, com medo de ser vaiada.
Ov- Lilian?
Ubiratan- A Lilian Schwartz. Podia ter vindo, eu queria estar debatendo com ela.
Ov – Houve um comentário de corredores que, por exemplo, Paul Gilroy tinha sido pensado como convidado, mas houve uma reação ao convite. O que você diz?
Ubiratan- Reação Africana. Bom, porque eles estão propondo uma conferência para reforçar idéias pan-africanistas, então há também teóricos que são contra.
Ov- Mas não estariam abertos nem ao diálogo?
Ubiratan- A gente chegou até a convidar, mas eles consideraram que iria destoar, polemizar. Aí é o poder de estado, são 53 estados africanos que dizem: não quero conversar com Appiah, não quero conversar com Paul Gilroy, a história deles não me interessa.
Ov – Tem uma lista negra?
Ubiratan – É, uma lista negra ou, enfim...
Ov- O Brasil pode ajudar nesse diálogo, não é?
Ubiratan – Pode, a gente está ajudando, a gente está abrindo esse debate. Agora é um debate que tem que estar pautado por algumas diretrizes. Por exemplo, se o tema é o pan-africanismo, a união, a busca de conexões, é evidente que Appiah está fora do ninho, porque ele é o nacionalismo Ganês, ele é contra, ele diz que esse negócio de negritude é tudo invenção da diáspora, que eles, os africanos, não precisam disso, que eles têm identidades nacionais, étnicas, específicas e que tudo isso é frescura. Você leu “Na casa de meu pai”?
Ov – Não.
Ubiratan – Aquilo tudo revela uma posição, nem todos os africanos estão aqui. Enfim, a idéia dessa colaboração não é generalizada. É uma idéia que está na União Africana, é a idéia do Projeto Nepad (Nova Parceria para o Desenvolvimento da África). Por exemplo, esse projeto pan-africano, eu estive 15 dias atrás em Angola, e do ponto de vista do governo angolano, eles estão cagando e andando pra isso. Eles acham que é uma intervenção estranha, porque Angola tem dinheiro agora, tá rica, tem petróleo, tem diamante e no que eles estão jogando duro agora é na reconstrução de Angola. Uma visão extremamente nacionalista. Há um nacionalismo africano forte, é claro, que emergiu de vários países. Então, as coisas não são unânimes, nem lá nem aqui.
Ov- Como é que fica a continuidade desse trabalho, se Lula não for reeleito?
Ubiratan- Olha, isso quem pode dizer são os orixás e eu não sei fazer jogo do Ifá. (risos)
(Leia também o texto sobre a IIª Ciad)
Parabens , gostei muito da materia. Quero ser comunicada sobre as proximas. Abraços Santuza - B.Hte-MG
tiza · Belo Horizonte, MG 23/7/2006 20:22Para comentar é preciso estar logado no site. Faa primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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