A gente n√£o quer esmola

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andre stangl · Salvador, BA
19/7/2006 · 79 · 1
 

Entrevista com Ubiratan Castro, presidente da Fundação Cultural Palmares / Ministério da Cultura.

Ubiratan Castro √© hoje um dos grandes l√≠deres da pol√≠tica negra nacional. Doutor em hist√≥ria pela Universite de Paris IV (Paris-Sorbonne), onde estudou a pol√≠tica econ√īmica na sociedade escravagista no s√©c. XIX, formado em hist√≥ria e direito, Ubiratan atualmente preside a Funda√ß√£o Cultural Palmares. Um pouco antes de sua palestra na Reitoria da UFBA, durante a II Confer√™ncia de Intelectuais da √Āfrica e da Di√°spora (II CIAD), concedeu essa entrevista ao colaborador do Overmundo Andre Stangl. Em sua palestra falou sobre a import√Ęncia da constru√ß√£o de uma historiografia negra produzida por pesquisadores negros. Na entrevista, falou sobre o processo de organiza√ß√£o do II¬™ Ciad, as expectativas africanas, as tens√Ķes internas e o sil√™ncio da m√≠dia do sudeste quanto ao evento. Uma verdadeira aula de hist√≥ria e geopol√≠tica africana.

Overmundo ‚Äď A proposta da organiza√ß√£o da Confer√™ncia foi uma iniciativa da Uni√£o Africana...

Ubiratan ‚Äď do governo do Senegal e do presidente Abdoulaye Wade especialmente. Foi um pedido formal do presidente Wade e da Uni√£o Africana ao presidente Lula e ao ministro Gil para que o Brasil pudesse sediar a segunda confer√™ncia, tanto que √© o Minist√©rio da Cultura quem se responsabiliza, junto com o Minist√©rio das Rela√ß√Ķes Exteriores. √Č um compromisso de Estado. N√£o √© um projeto acad√™mico, √© um projeto de Estado mesmo.

Ov ‚Äď Como √© que voc√™ avalia o encontro?

Ubiratan - Para mim est√° sendo um sucesso. Primeiro pela quantidade de participantes, pela mobiliza√ß√£o do povo baiano em torno do tema. Espero que a Carta de Salvador contenha indica√ß√Ķes muito precisas e diretrizes, princ√≠pios e recomenda√ß√Ķes n√£o somente de uma nova qualidade de interc√Ęmbio e de coopera√ß√£o, mas acima de tudo pela defini√ß√£o de objetivos comuns em termos de atua√ß√£o nos organismos internacionais, nos √≥rg√£os multilaterais e tudo isso centrado na no√ß√£o de ‚ÄúRenascimento Africano‚ÄĚ, que √© a no√ß√£o de um novo desenvolvimento de qualidade dos pa√≠ses da √Āfrica e dos pa√≠ses que t√™m uma di√°spora africana, uma popula√ß√£o de origem africana. Ent√£o √© um projeto de futuro, uma grande pol√≠tica negra ‚Äď n√£o tem o G8 dos pa√≠ses ricos ‚Äď que a gente possa ter o nosso GT internacional, em torno das nossas solidariedades, enquanto pa√≠ses todos de tradi√ß√£o africana, no sentido de, em todos os organismos, dar suporte a projetos de desenvolvimento e de apoio, enfim, quebrar com esse cord√£o sanit√°rio contra a √Āfrica e contra o chamado Sul. O presidente Lula falava muito claramente isso ontem na confer√™ncia dele. Os pa√≠ses chamados ricos querem uma rela√ß√£o que seja baseada apenas na caridade, em algum tipo de migalha que seja jogada para os chamados pa√≠ses pobres. A gente n√£o quer isso. A gente quer uma rela√ß√£o igual. Ou seja, a gente n√£o quer esmola, a gente quer ter acesso aos mercados deles, do jeito que eles t√™m acesso ao nosso mercado. A gente quer compartilhar uma tecnologia de ponta e n√£o ter uma tecnologia requentada, a sobra. Ou seja, se n√≥s trabalharmos em blocos solid√°rios, com projetos em comum, isso fica muito mais f√°cil. Ent√£o, na verdade, para os africanos, √© o ideal de conseguir chegar a uma esp√©cie de Estados Unidos da √Āfrica, enfim, √© muito a id√©ia da Comunidade Europ√©ia, chegar a instrumentos de tomada de decis√£o, de governo, de coordena√ß√£o e de a√ß√£o econ√īmica semelhantes √† Comunidade Europ√©ia, como um Parlamento.

Ov ‚Äď Com a forma√ß√£o de um bloco africano?

Ubiratan - Com a formação mais do que um bloco. A formação realmente, no futuro, de uma nação unificada.

Ov ‚Äď Sem fronteiras, com uma moeda s√≥...

Ubiratan - √Č como eles dizem, que a fronteira seja uma fronteira administrativa, seja uma divisa administrativa, e n√£o uma fronteira que separe na√ß√Ķes, que haja pol√≠ticas comuns, porque a reprodu√ß√£o ap√≥s a coloniza√ß√£o de estados p√≥s-coloniais com a mesma territorialidade das √°reas coloniais, criou e manteve pa√≠ses invi√°veis economicamente. Voc√™ veja, tem a√≠ o Senegal, encravado no Senegal tem a G√Ęmbia, Guin√© Bissau, Guin√© Conakry. Tudo isso j√° foi a grande Seneg√Ęmbia, o grande imp√©rio peul, o grande imp√©rio fulani, com a coordena√ß√£o de recursos, com complementaridades internas. Enfim, quando os franceses, os ingleses, os portugueses picotaram esse grande territ√≥rio da antiga Seneg√Ęmbia, criando pa√≠ses como a G√Ęmbia, que √© apenas um enclave, um porto ingl√™s no meio da col√īnia francesa para atrapalhar os franceses, no rio Senegal. Quer dizer, quando voc√™ cria um estado como a Guin√© Bissau, hoje a Guin√© √© um estado invi√°vel. Eu estive l√° duas vezes, √© um estado que est√° se debatendo em guerra civil. Na verdade o que est√° em jogo √© uma grande Guin√©, uma grande Seneg√Ęmbia. Senegal, G√Ęmbia, Guin√©s. O que foi outrora, antes da coloniza√ß√£o, um grande imp√©rio, ou uma grande √°rea, assim como outras √°reas. Isso √© um desafio africano, de buscar novas complementaridades, uma nova composi√ß√£o. Agora eles precisam, e n√≥s tamb√©m, ter alian√ßas privilegiadas, ter projetos em comum, compartilhamento de tecnologia, que eles tanto precisam, e que n√£o seja s√≥ tecnologia militar. At√© hoje o que se compartilhou, por exemplo com Angola, foi a tecnologia militar brasileira, que foi muito mais eficaz que uma tecnologia militar sovi√©tica.

Ov ‚Äď Cuba tamb√©m?

Ubiratan ‚Äď Cuba entrou com os combatentes, com os primos, mas toda a tecnologia era russa.

Ov ‚Äď A gente v√™ no governo Lula essa coaliz√£o do terceiro mundo, uma press√£o no sentido de flexibilizar um pouco mais esse protecionismo do primeiro mundo. Quer dizer, entra a√≠ isso tamb√©m, junto com a Am√©rica Latina e os pa√≠ses asi√°ticos?

Ubiratan ‚Äď Claro. Porque que n√≥s temos que ser sempre exportadores de produtos brutos e n√£o produtos com valor agregado, com tecnologia incorporada? Enfim, esse √© o esfor√ßo do Brasil que j√° √© um pa√≠s que j√° consegue disputar em alguns espa√ßos, mas n√£o consegue em outros. Mas para os africanos isso √© pior. Eles foram inteiramente privados de uma ind√ļstria competitiva. E outra coisa, uma tecnologia que seja adaptada. Por exemplo, eu acompanhei muitas miss√Ķes do ministro Amorim, do ministro Gil, do presidente Lula, e um dos itens mais procurados pelos pa√≠ses africanos √© a Embrapa, ou seja, o que o Brasil tem de ponta, que √© uma tecnologia agr√≠cola de ponta, no sentido da pesquisa cient√≠fica produtiva adaptada aos tr√≥picos, que √© uma tecnologia de agricultura tropical brasileira. Ent√£o eles est√£o a fim disso, para qu√™?

Ov ‚Äď Aumentar o desenvolvimento.

Ubiratan- O desenvolvimento, aumentar a produtividade, combater a fome. Ent√£o isso √© mais importante do que qualquer doa√ß√£o, do que qualquer esmola. Como o Cameroun (Camar√Ķes), ta√≠ o embaixador, o Brasil compartilhou com eles uma f√°brica de rem√©dios. T√° l√° instalando uma f√°brica de rem√©dios, para ser usada pelo estado Cameron√™s, para produzir gen√©rico, rem√©dio barato.

Ov ‚Äď Sem patente?

Ubiratan ‚Äď Sem patente.

Ov ‚Äď Inclus√£o digital tamb√©m?

Ubiratan ‚Äď Sim, Inclus√£o digital, enfim, essas s√£o as formas de coopera√ß√£o.

Ov- A gente sente um pouco de car√™ncia de um interc√Ęmbio cultural maior: m√ļsicas, filmes, livros.

Ubiratan ‚Äď √Č, mas tudo isso depende da gente construir uma rede de interc√Ęmbio, mas no meio dessa rede tem uma quest√£o que foi colocada muito claramente ontem pelo presidente, que em todas as reuni√Ķes, em todas as miss√Ķes se coloca: transporte a√©reo. Hoje, para voc√™ mandar algu√©m para Angola, voc√™ s√≥ tem um v√īo da Taag, que √© Rio-Luanda. Hoje para voc√™ mandar uma pessoa para qualquer pa√≠s da √Āfrica, ou voc√™ vai para Joanesburgo via S√£o Paulo, e de l√° sobe, ou voc√™ vai para Lisboa, Paris e desce.

Ov- Na cobertura das viagens do presidente Lula √† √Āfrica, na Folha de S√£o Paulo sempre vinha um aviso dizendo que estava indo com a comitiva do presidente porque n√£o tinha outros v√īos. Que situa√ß√£o...

Ubiratan- As primeiras linhas estão sendo abertas, abriu a primeira linha que é Fortaleza-Praia, no Cabo Verde. São 3h30 de travessia.

Ov ‚Äď Tamb√©m podia ter uma parceria com o setor de turismo, n√©?

Ubiratan- Mas ainda √© um v√īo por semana, ent√£o esse v√īo √© che√≠ssimo. E voc√™ tem que ir para Sal fazer conex√£o para o Senegal, para Dakar, √© a maior complica√ß√£o. Eu fiquei l√° uma vez 5h no aeroporto esperando conex√£o. Ent√£o a proposta do presidente Lula e do presidente do Senegal √© uma linha direta Dakar-Recife, s√£o 3h30 de viagem. Porque em Dakar voc√™ pode fazer conex√£o para a Europa, fica muito mais barato. Esses pontos ainda s√£o a perman√™ncia de uma interven√ß√£o inglesa, europ√©ia, que for√ßou a triangula√ß√£o. Que para combater o tr√°fico de escravos, cortou as rela√ß√Ķes diretas entre Brasil e √Āfrica e obrigou que toda rela√ß√£o com a √Āfrica passasse pela Europa. Ainda hoje existe uma grande resist√™ncia das empresas francesas e inglesas em abrir qualquer espa√ßo de linha direta porque assim mant√©m a triangula√ß√£o, que coloca a Europa como intermedi√°ria entre as Am√©ricas e a √Āfrica.

Ov ‚Äď Como voc√™ interpreta o desinteresse da grande m√≠dia do sudeste quanto √† II¬™ Ciad?

Ubiratan- √Č realmente o bloqueio e o sil√™ncio da imprensa brasileira em tudo o que diz respeito ao negro. No ano passado se fez o Congresso Nacional de Promo√ß√£o de Igualdade Racial, 3 mil delegados, em Bras√≠lia, o centro do poder. N√£o saiu uma s√≥ not√≠cia no jornal. O que saiu foi uma not√≠cia que teve briga entre ciganos e briga entre palestinos e judeus l√° dentro, uma coisa incidental, de uma express√£o m√≠nima, e em torno disso houve um bochicho e tal, mas sobre a quest√£o de negro mesmo h√° um bloqueio sistem√°tico.

Ov ‚Äď Seria desinforma√ß√£o tamb√©m?

Ubiratan ‚Äď N√£o √©, √© um bloqueio sistem√°tico, n√£o falar no assunto. Essa √© uma estrat√©gia do racismo no Brasil que √© antiga, a estrat√©gia da invisibilidade, √© o sil√™ncio. A gente n√£o fala mal, mas tamb√©m n√£o fala bem, a gente n√£o fala nada. S√≥ fala quando √© uma pol√™mica para sentar o pau, o caso das cotas. A√≠ voc√™ d√° a visibilidade da resson√Ęncia a grupos que n√£o t√™m express√£o. Um exemplo, hoje ela n√£o veio aqui, com medo de ser vaiada.

Ov- Lilian?

Ubiratan- A Lilian Schwartz. Podia ter vindo, eu queria estar debatendo com ela.

Ov ‚Äď Houve um coment√°rio de corredores que, por exemplo, Paul Gilroy tinha sido pensado como convidado, mas houve uma rea√ß√£o ao convite. O que voc√™ diz?

Ubiratan- Reação Africana. Bom, porque eles estão propondo uma conferência para reforçar idéias pan-africanistas, então há também teóricos que são contra.

Ov- Mas n√£o estariam abertos nem ao di√°logo?

Ubiratan- A gente chegou até a convidar, mas eles consideraram que iria destoar, polemizar. Aí é o poder de estado, são 53 estados africanos que dizem: não quero conversar com Appiah, não quero conversar com Paul Gilroy, a história deles não me interessa.

Ov ‚Äď Tem uma lista negra?

Ubiratan ‚Äď √Č, uma lista negra ou, enfim...

Ov- O Brasil pode ajudar nesse diálogo, não é?

Ubiratan ‚Äď Pode, a gente est√° ajudando, a gente est√° abrindo esse debate. Agora √© um debate que tem que estar pautado por algumas diretrizes. Por exemplo, se o tema √© o pan-africanismo, a uni√£o, a busca de conex√Ķes, √© evidente que Appiah est√° fora do ninho, porque ele √© o nacionalismo Gan√™s, ele √© contra, ele diz que esse neg√≥cio de negritude √© tudo inven√ß√£o da di√°spora, que eles, os africanos, n√£o precisam disso, que eles t√™m identidades nacionais, √©tnicas, espec√≠ficas e que tudo isso √© frescura. Voc√™ leu ‚ÄúNa casa de meu pai‚ÄĚ?

Ov ‚Äď N√£o.

Ubiratan ‚Äď Aquilo tudo revela uma posi√ß√£o, nem todos os africanos est√£o aqui. Enfim, a id√©ia dessa colabora√ß√£o n√£o √© generalizada. √Č uma id√©ia que est√° na Uni√£o Africana, √© a id√©ia do Projeto Nepad (Nova Parceria para o Desenvolvimento da √Āfrica). Por exemplo, esse projeto pan-africano, eu estive 15 dias atr√°s em Angola, e do ponto de vista do governo angolano, eles est√£o cagando e andando pra isso. Eles acham que √© uma interven√ß√£o estranha, porque Angola tem dinheiro agora, t√° rica, tem petr√≥leo, tem diamante e no que eles est√£o jogando duro agora √© na reconstru√ß√£o de Angola. Uma vis√£o extremamente nacionalista. H√° um nacionalismo africano forte, √© claro, que emergiu de v√°rios pa√≠ses. Ent√£o, as coisas n√£o s√£o un√Ęnimes, nem l√° nem aqui.

Ov- Como é que fica a continuidade desse trabalho, se Lula não for reeleito?

Ubiratan- Olha, isso quem pode dizer s√£o os orix√°s e eu n√£o sei fazer jogo do If√°. (risos)

(Leia também o texto sobre a IIª Ciad)

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tiza
 

Parabens , gostei muito da materia. Quero ser comunicada sobre as proximas. Abraços Santuza - B.Hte-MG

tiza · Belo Horizonte, MG 23/7/2006 20:22
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