A Graça da dona Maria

Bruno Maia
Dona Maria da Graça me presenteia com seu autógrafo
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Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ
11/9/2006 · 102 · 1
 

Que figura é a dona Maria da Graça. Portuguesa, da Ilha da Madeira, ela é sogra do Adriano. O Adriano era um português que eu estava entrevistando “cá” na Alemanha para um documentário sobre imigrantes. Quando a câmera ligou, focando o Adriano, a dona Maria da Graça puxou a cadeira e sentou do lado dele. Ficou em quadro o tempo todo. Ela não é imigrante, é só turista mesmo.

No fim da entrevista, a dona Maria da Graça começa a dar – ainda mais – o ar de sua, desculpe o trocadilho, graça. Ela homenageia a própria terra cantando “Madeiraaaaa, madeiraaaaa...” ao ritmo de “Sorte grande”, o sucessão da Ivete Sangalo que ficou mais conhecido pelo refrão “poeiraaaa, poeiraaaa”.Balança os bracinhos e tudo.

- Eu gosto de novela brasileira.

Com essa declaração, é lógico, a conversa não podia parar. Dona Maria da Graça disse que gosta de todas. Agora ela está acompanhando “Bicho do Mato”. “’É da Record”, diz ela. Quando perguntei se ela gostava mais das novelas da Globo ou da Record, a resposta trazia a sinceridade no olhar. “Todas”. A preferida ainda é Escrava Isaura, mas a versão antiga. “Essa nova da Record, eu não gostei não. Eu gosto da Lucélia Santos, ela é espetacular... Agora ela está fazendo outra novela”, me informa a simpática senhora. A filha de Dona Maria explica que as novelas portuguesas também fazem sucesso, mas que, especialmente na Ilha da Madeira, a atenção é mais voltada para o outro lado do Atlântico: “No continente, as portuguesas são mais famosas. Mas na Madeira, são as brasileiras. Mas eu não sei por que é assim.” Tentando apontar uma resposta para o sucesso das novelas, Dona Maria da Graça diz que “vocês (brasileiros) são muito românticos. Muito religiosos.”

A paixão de dona Maria da Graça pela televisão brasileira não pára aí: “Faustão, Caldeirão do Huck, Márcio Garcia... Márcio Garcia é espetacular, o programa dele é muito bom. O Amir é viado.” A afirmação se refere a um dos integrantes do programa de Márcio Garcia. Ao contrário do que possa parecer, a afirmação de Dona Maria não vem carregada de preconceito e, sim, de uma boa gargalhada de quem adora o “Amir”. Tanto ela quanto seu genro, Adriano, não têm duvidas em afirmar que a Rede Record tem mais força do que a Globo hoje, em Portugal. “Os programas da Record te prendem. Você é obrigado a ver, não consegue parar. O programa do Márcio Garcia é maravilhoso. Tem a Eliana também que agora veio à Alemanha fazer matérias na Copa...” - testemunha Adriano.

Não demora e Dona Maria toma a frente das atenções de novo. Seja com um sorriso, seja com comentário.

- E música brasileira, a senhora gosta? - pergunto.
- Todas.

E lá vem enumeração: “Lucas e Mateus, Leandro e Leonardo, Ivete Sangalo... Tem mais música brasileira do que portuguesa lá. A Ivete esteve na Madeira para fazer um show. Eu vi pela televisão”. Apesar de não conhecer Tom Jobim, a admiração por esta arte brasileira é grande, em especial pela música sertaneja.

Dona Maria da Graça diz ter família no Brasil: “Não sei bem aonde, mas sei que tenho”. Tem vontade de conhecer o Rio de Janeiro, mas não sabe dizer exatamente o porquê. Mas emenda na canção: “O Rio de Janeiro continua lindoooo”, balançando os bracinhos. E dá-lhe dedinho pra cima! E dá-lhe sorriso no rosto! Digo a ela que tenho antepassados portugueses, mas que não sei bem a origem pois meu bisavô foi para o Brasil há muito tempo. “O Brasil é a terra dos esquecidos. Muitos portugueses foram embora para lá, não voltaram e não deram mais notícias”, diz ela. De fato, ela tem razão. Há toda uma história de migração de portugueses para o Brasil perdida por falta de registros civis.

Dona Maria é encantadora. Diz que sou muito bonito e que sua neta está apaixonada por mim. A coitada da menina, que nada tinha a ver com a história, morre de vergonha. Eu também. Dona Maria, ao final, pede meu autógrafo: “Quero mostrar o autógrafo do jornalista brasileiro que eu conheci para o pessoal da Madeira”. Não adianta explicar que não sou famoso e que um autógrafo meu não tem valor nenhum. Ainda assim, ela quer. Aceito, contanto que ela me dê o autógrafo dela também. Ela sorri. Trocamos gentilezas. “Quando vais à Madeira?”, pergunta-me seriamente. “Vou te dar meu apontamento para que me visites”. Digo a ela que irei, com todo o prazer e que vou guardar o autógrafo dela com muito carinho. “Vais guardar aonde? No lixo?”, e ri.

Claro que não, Dona Maria. Claro que não.

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Ana Cullen
 

Que delícia de texto! Esse mundo é muito louco mesmo né? Como diz uma amiga minha: não canso de me encantar com as pessoas! Pelo jeito você também não...
Só uma dica meio besta: põe uma exclamação no fim da primeira frase...
:o)

Ana Cullen · Brasília, DF 8/9/2006 17:07
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