Renan Calheiros, que foi ministro do Governo FHC e sempre foi amigo de Collor desde o tempo que Collor dizia que Sarney era o pior presidente da história deste país, discutiu verbalmente com seu companheiro Tasso Jereissati. Os jornais falaram em baixaria:
– Abaixe esse dedo sujo – disse um.
– Sujo é o de Vossa Excelência – respondeu outro.
Achei uma viadagem. Chama o cara de sujo pra depois chamar de excelência. Tinha de ser:
– Sujo é o dedo da puta que te pariu, seu viado.
Mas é tudo na base da vaselina. Tudo rabo preso. É preciso decifrar a filosofia dos discursos dos políticos:
“Olhe Senador você me respeite” significa “se ligue, seu filha da puta que se você falar alguma coisa eu digo tudo sobre as usinas lá de Alagoas”.
“Vossa excelência não tem moral nenhuma” quer dizer “vai se fuder, seu merda, sei tudo sobre seus canais de televisão lá no Ceará”.
“Eu não tenho nada a ver com isso” é exatamente “se os brasileiros estão sendo assaltados e assassinados nos engarrafamentos, que se danem, eu tenho meu jatinho e ele é meu, só meu”.
E são deles também o poder de decidir os planos de educação, de segurança, de aceleração do crescimento, quanto vão ganhar, quem vão contratar, se vai ser a empresa do cunhado, o namorado da neta ou a filha do ex presidente.
Renan Calheiros era do bem no Governo FHC e no Governo Lula ele é do mal ou ele sempre foi um brasileiro deplorável?
Um outro de Brasília foi mais poético ao dizer que tudo aquilo contra o que sempre lutam é exatamente tudo aquilo que eles são².
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Duas semanas depois do casamento, enfim, iríamos para a lua-de-mel. O vôo Salvador-Frankfurt pela empresa alemã Condor estava lotado. Cris loira e eu tostado pelo calor infernal do verão de Salvador éramos o inverso no saguão do aeroporto, onde loiros alemães e mulatas brasileiras dominavam a fila. O vôo sairia às 18h. Fiquei vendo o avião da Condor no pátio e achei ele meio antigo, meio anos 80. Asa reta, sem aquela viradinha na ponta. Às 17h 50, ainda estávamos no saguão. Vôo atrasado. A mãe de Cris ligou pra ela.
– O que foi que ela queria? – perguntei.
– Nada demais, besteira… – respondeu, sem querer me dar atenção.
– O que foi que ela queria? Eu ouvi você consolando ela, dizendo “ô, mãe, fique assim, não...” – insisti.
– É que ela tava chorando…
– Chorando?!
– Foi, mas calma, não é nada demais...
– Nada demais?! Eu que não entro nesse avião...
– Ai, meu Deus... Ela estava chorando porque já estava com saudade, porque vou passar vinte dias fora, porque não vamos nos ver no natal…
– Não entro nesse avião nem a pau...
A mãe de Cris é do ramo da física quântica, da astrologia, do espiritismo... Não entraria naquele avião nem com a porra.
A caixa de som do saguão nos interrompeu. A língua era a alemã:
– Kxjghtientein harkstridvertz ratztrosten…
Todos ficaram em silêncio. O cara continuou:
– Khsenns wiltzman stockhakstratz...
E todos os loiros comemoraram:
– Yeaaaaaahkstreintz.
Eu e Cris ficamos esperando a tradução, mas o cara só falou em alemão. Me aproximei e entre as dezenas de pessoas que buscavam informações em torno dele, falei, um tanto irritado:
– E em português, amigão?
Ele fez uma cara de “ops, me esqueci” e antes de ele falar, uma passageira brasileira que falava alemão se antecipou e me disse que por causa de um defeito na aeronave, o vôo havia só sairia no dia seguinte.
– Os alemães são super-rigorosos nessas coisas – completou a brasileira.
– Fique tranqüilo. Vamos colocar vocês em um hotel muito bom – disse o comissário.
– PUTAQUEPARIU – disse Cris, depois de me ouvir dar a notícia.
– Fiquem tranqüilos, vocês vão ficar num hotel muito bom – repetiu o comissário pra ela.
Porra de hotel muito bom. Eu queria tá no frio gostoso. Inclusive decidimos pelo tíquete do táxi e ir dormir em casa mesmo.
– Rapaz, o hotel é um cinco estrelas novinho em folha, de frente pra praia de Stella Mares...
Porra de praia de Stella Mares. Eu queria a neve de Munique.
Com a razão voltando, pensamos na logística e nos rendemos ao hotel.
Tínhamos calças, luvas, casacos, ceroulas, gorros e meias na mala e o nosso primeiro dia de lua-de-mel foi em Itapuã, no sol que arde até a alma, no hotel cinco estrelas disponibilizado pela companhia aérea. Ás oito horas da manhã, fomos acordados por uma equipe de professores de dança nos convocando para uma aula de swing baiano que já iria começar na piscina.
De tarde, no aeroporto, apesar da mesma aparência anos 80, me garantiram que o avião era outro. Inclusive, que o motivo das 24 horas de espera foi justamente porque tiveram de mandar outro avião de lá. A mãe de Cris ligou momentos antes, mas foi apenas para desejar boa viagem.
Apesar de gostar da língua alemã, assim que chegamos em Munique tomamos um susto. De noite, andando pelas calçadas, arrastando nossas malas, tentando encontrar o endereço do nosso hotel, atravessamos uma rua e fomos surpreendidos por uma voz onipresente:
– Blitzrieg bop…
Paramos no meio da rua, olhamos pra trás e vimos dois policiais dentro de uma viatura, olhando pra gente.
– É com a gente – disse Cris.
– Hein?
– Kxjghtientein harkstridvertz… – repetiu a voz, ainda com mais ênfase.
Além de ser nossa primeira vez em solo alemão, eram também as primeiras horas e ter um fardado falando alemão de forma um tanto ameaçadora, naquele cenário, fez passar várias cenas de filmes da Segunda Guerra pela minha cabeça.
Gaguejei, mas consegui perguntar se falavam inglês. O do volante nos olhou de cima a baixo e respondeu, educadamente, que ali era proibido atravessar, que deveríamos ter mais cuidado e procurado uma faixa de pedestres, mas que poderíamos seguir.
Entramos em um ônibus. Cris foi na frente, passando pela catraca e avisando ao cobrador-motorista que eu estava com os bilhetes. Entreguei os bilhetes, ele leu, devolveu e de muito mau humor falou alguma coisa que deve ter sido “porra, caralho, tá atrasando meu serviço, esse bilhete é pra outro ônibus, caceta... que merda...”.
A língua francesa quando falada de forma suave soa ainda mais confortável do que já é; a língua alemã quando falada de forma mais áspera soa ainda mais assustadora do que já é. Enquanto Cris descia assustada do ônibus, respirei fundo, olhei pro motorista e resolvi usar o poder da língua portuguesa, acreditando que quando ela é falada de forma natural, ela soa ainda mais poderosa do que já é:
– Vá tomar no meio do seu cu, seu alemão viadinho – disse eu.
O poder disso é imenso.
– Ktstrats grtszvotrzein kzgasjkzrin – respondeu ele.
– Vai se fuder, seu otário...
– Hrtztotzen gestaptzo hkmntzsghzy...
– Vá...
Uma baixaria da porra.
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(1) Língua, de Caetano Veloso.
(2) Marcianos invadem a terra, de Renato Russo.
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