Afilhados do santo

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Itevaldo Júnior · , MA
9/3/2006 · 89 · 1
 

Nas letras, na música, nas artes plásticas ou na imortalidade da Academia, um nome muito singular da cena maranhense passeia e repousa tranqüilamente, o José de Ribamar. Muitos deles estão reconhecidamente entre os melhores dos seus ofícios.

Na terra de São José de Ribamar, são muitos os "afilhados" do Santo, alguns ilustres e outros nem tanto. As promessas ao santo padroeiro do Maranhão estão entre os principais motivos de batizar o filho com tal nome. Entre os Josés de Ribamar, cruzamos com um Gullar, um Sarney, Baleiro, Godão, Papete, entre outros.

Na literatura buscamos um prosador, José Sarney, e um poeta, Ferreira Gullar. O primeiro, autor de o Norte das Ãguas, o outro do Poema Sujo. O prosador nasceu José de Ribamar na cidade de Pinheiro, enquanto o poeta batizou-se Ribamar, em São Luís. O prosador é devoto do santo, o poeta é ateu.

"Meus pais me puseram esse nome porque meu nascimento coincidiu com a festa do santo. Foi uma coincidência. Não tenho nenhuma relação com esse nome. Não me vejo como Ribamar", afirma José Ribamar Ferreira, o Gullar. "Nunca dei muita importância para isso não. Mas é curioso porque meus pais não eram religiosos. Não iam a missa, festas religiosas, procissões. Acredito que só no Maranhão tenha uma cidadezinha, uma igrejinha, com o nome desse santo." O autor de Um pouco acima do chão, que tinha na infância o apelido de Periquito, e seus dois grandes amigos eram Esmagado e Espírito da Garagem da Bosta, parece muito pouco à vontade com o nome José de Ribamar.

Ribinha - O moleque nascido no lugarejo chamado Boa Hora, no município de Bacabal, e que ganhou o mundo tocando percussão, adoraria que seu nome artístico fosse Ribinha. "Quando criança o apelido que mais gostava era Ribinha", revela Papete.

O nome de José de Ribamar foi dado ao cantor e percussionista pela sua avó, Bárbara. "Imagino que tenha sido pela devoção que batizou o filho Ribamar. A minha família ia muito às festas de santo, Santo Antônio, São Benedito. Sou muito religioso", revela Papete.

Para Papete, o nome Ribamar é um valor sublime, puro, além de referência cultural. "Ribamar é uma referência muito forte da cultura popular. Tem havido uma perda muito forte no Maranhão", comenta.

No Rio e em São Paulo, Papete conta que ainda é chamado de Ribamar por muita gente. "Ribamar me identifica como maranhense, não tenho vergonha disso. Quando faço shows sempre conto a historinha do meu nome. Ribamar é nome muito cultural. Não gosto de Papete, acho chinfrim, não representa o que eu acredito ser a minha brasilidade", afirma.

Promessas - Duas outras personalidades culturais do Maranhão tornaram-se Josés de Ribamar por promessas das mães. Dona Socorro pediu ao santo para ter um bom parto, e teve. Graça concedida, o nome do filho seria José de Ribamar Coelho Santos. Mais tarde, o menino seria somente Zeca. E depois, o cantor Zeca Baleiro.

O caso de Dona Leonora é semelhante. Fez um pedido a São José de Ribamar, e foi atendida. O filho então seria José de Ribamar França Pereira, mais tarde apenas Zé, depois Zé Pereira.

Tanto o filho de Dona Leonora quanto o de Dona Socorro encontrariam na música o reconhecimento dos Josés de Ribamar. O Ribamar de Leonora, depois de crescer nas ruas da Madre Deus, saiu em busca da estrela bailarina e criou a Companhia Barrica Teatro de Rua, com seu Boizinho Barrica e Bicho Terra.
Já o filho de dona Socorro, saiu em busca do ator inglês Stephen Fry, e acabou por fazer muitas emboladas no meio-campo da música brasileira.

"Quando eu nasci a minha mãe tinha uma idade avançada", brinca o cantor. Socorro Santos, mãe de Zeca, tinha apenas 36 anos, quando o filho caçula nasceu. "Fiz uma promessa para São José para que eu tivesse um parto normal", conta. Baleiro foi chamado de José de Ribamar apenas na época de escola. "Ninguém na família chama ele de Ribamar, chamam de Zeca, Zequinha, desde criança", afirma Dona Socorro.

No caso de Zé Pereira, o apelido de infância foi incorporado e o moleque do bairro da Madre Deus tornou-se Zé Pereira Godão ou somente Godão. E o Ribamar para onde foi? "O Ribamar tem uma relação muito forte com a família. Quando me chamam de Ribamar isso leva à minha família, aos íntimos da casa", conta Godão.

Zé Pereira separou-se cedo do José de Ribamar. "Quando criança colocavam um monte de apelidos, e nenhum deles tinha referência ao Ribamar. Na escola já me chamavam de França, de Pereira, que é o sobrenome do meu pai", lembra.

Depois que enveredou no cenário artístico ficou o Zé Pereira Godão. "Ribamar ficou pro santo, pra família. Só quem me chama de Ribamar é minha mãe e minhas irmãs, a minha esposa não chama, o meu filho me chama de Zé", diz.

"O nome Ribamar tem uma ligação muito particular com a cidade. E olha que a cidade cultuava um preconceito com o nome, todo Ribamar tinha um apelido", explica Zé Pereira Godão. Com ou sem preconceitos a verdade é que o Maranhão está cheio de "afilhados" do Santo.

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José Neres
 

Grande Itevaldo, gostei do texto. Parabéns. Coloquei alguns meus também. Quando tiver um tempinho, dá uma olhada...

José Neres · São Luís, MA 4/10/2007 21:37
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