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Divulgação - Direitos reservados (imagem do game)
Master Chief posa de mau: Halo 3 em português é boa pedida pra quem joga aqui
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Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ
8/11/2007 · 156 · 2
 

- Cara, eu tenho que matar o dragão. Que que eu faço?

- Usa o mago e dá a magia de gelo.

- E como eu seleciono a magia?

- Olha o menu. Seleciona a terceira palavra da coluna do meio. Aperta o botão. Depois seleciona a segunda palavra da quarta coluna, indo de baixo pra cima. Viu? Funcionou. Agora, pra matar o outro inimigo precisa da magia de trovão, e eu não lembro onde ela está.

O diálogo acima foi presenciado em uma locadora de games que oferece consoles conectados à TV para jogar na hora – coisa típica de se ver por aí. Tratava-se de um RPG para Playstation 2 que tinha um agravante para os garotos que aparentavam 12 anos de idade: estava totalmente em japonês. Selecionar itens e golpes nos menus era quase um jogo de adivinhação e memorização – além de ser um desafio extra que não estava na concepção original do game. Tudo bem, jogos em inglês são infinitamente mais fáceis de serem compreendidos por nós, mas a questão do idioma não deixa de ser uma barreira. E não é nenhum equívoco supor que, se fossem lançados por aqui mais games falados (ou legendados) em português, o potencial de pessoas seduzidas por uma jogatina teria um incremento. Aí é que entra a boa constatação: se a indústria nacional de games anda corroída pela pirataria e impostos mastodônticos, um esboço de reação é notar que não se via um panorama tão instigante para a tradução e localização de games no Brasil há pelo menos uns dez anos. E que parece caminhar por uma trilha híbrida pouco usual. Misto de esforços da indústria oficial (como Microsoft e Eletronic Arts) embolados às traduções feitas por fãs apaixonados – que seguem uma estrutura colaborativa organizadíssima -, os caminhos usados, longe de serem inimigos, acabam se complementando para a criação de um acervo de jogos que falam nossa língua.

Sem prolongar com a lenga-lenga-já-sabida de que, nos EUA, a indústria de entretenimento eletrônico movimenta há anos mais grana que Hollywood (só para destacar a importância dos jogos na cultura contemporânea), percebe-se que no Brasil games ainda encarnam o patinho feio. Se livros e filmes gringos sempre passam pelo pente fino das traduções/dublagens/legendagens para atingir o maior público possível, por aqui, quando o assunto é videogame, a coisa trava. Ou travava. O último console lançado no Brasil que apresentava regularmente alguns games traduzidos em português foi o Mega Drive, um videogame de 1988. Lançamentos esporádicos ocorreram após o finado console, mas apenas com o X-box 360, da Microsoft, voltamos a ter uma perspectiva de games localizados em nosso idioma fora do universo PC. Até o momento a estréia foi promisora: além de games para computador que já foram localizados pela empresa – como a série Age of Empires - Viva Piñata e o recém lançado Halo 3, ambos do X-box, chegaram ao país próximos do lançamento gringo. Vieram até dublados.

- Temos experiências muito boas com jogos localizados em gêneros muito diferentes. Viva Piñata faz sucesso com adultos e crianças e apresenta personagens e vozes muito carismáticas. Já Halo 3 nos mostrou que a localização com dublagem também teve grande impacto em um jogo de ação épico – conta Guilherme Camargo, gerente de marketing de Xbox 360 da Microsoft Brasil, por e-mail.

Já que Camargo usou o termo localização, vale aproveitar o gancho para explicar a ligeira diferença entre tradução e localização de games. A localização é adaptar de forma geral um game para determinado idioma/cultura. Inclui desde caixas e manuais até, nos casos completos, falas dentro do jogo – e a tradução está dentro deste balaio. E não é só traduzir ao pé da letra não, tem que ter manha e saber o que se passa por aqui – pra não soar artificial. Um exemplo raro e duradouro é a série de futebol Fifa, que chega em português aos PCs por aqui há nove anos seguidos, trazida pela produtora e distribuidora Eletronic Arts.

- O primeiro foi o FIFA 99, com narração de Milton Leite [atualmente no canal Sportv], comentários de Orlando Vigiane e participação de Antonio Moreno. Há também outros produtos que o Brasil localiza, como a série Harry Potter, The Sims (toda família) e SimCity – explica por e-mail Ivan Kako, gerente de produtos da Eletronic Arts Brasil, que também revela táticas da versão brasileira de Fifa. - No Brasil não usamos uma tradução do texto original que é redigido no Canadá. Temos total liberdade de reescrevê-lo, adaptando-o à linguagem do futebol no Brasil. Também damos total liberdade ao locutor e comentarista para adicionar seu próprio estilo, colocando bordões e palavras características durante a gravação.

Bacana, mas dá trabalho. Ivan não comenta cifras, mas colocar cada edição de Fifa em português demanda tempo e gente. O trabalho é feito por uma empresa terceirizada, a Quoted, leva de seis a oito meses e abarca 15 profissionais. E qual critério para escolher quem está na locução e comentarios? Vários.

- Temos aqui muitos locutores e comentaristas incríveis e que poderiam trabalhar no FIFA. A escolha se dá por uma junção de fatores, entre eles indicação dos profissionais envolvidos, o profissional não ter impedimentos contratuais dos veículos para os quais prestam serviço, disponibilidade de tempo, sugestões da comunidade FIFA, enfim... uma grande soma de variantes nos orientam nessa escolha – justifica Kako.


A força colaborativa dos fãs


Existem iniciativas super-simpáticas (e bem sucedidas) da indústria oficial na tradução de games. Só que ela não dá conta de tudo. É aí que entram as comunidades de fãs que traduzem os textos de outros games de sucesso para nossa língua. Uma das maiores referências nacionais é o site GameVicio. Criado em 2003 por Marcos Said – hoje diretor geral do portal –, o endereço abriga notícias e informações sobre o universo gamer, mas o carro-chefe são mesmo as traduções disponíveis para download – até o final do ano o site deve atingir a marca de três milhões de traduções baixadas para diversos games. Todas feitas de forma colaborativa pelos membros da comunidade.

As traduções para PC são arquivos de texto que devem ser substituídos pelos usuários no game em inglês - mas o site da GameVicio, por exemplo, possui um instalador que facilita a tarefa até para leigos que não manjam nada de computador. Vale ressaltar que os arquivos disponíveis no GameVicio são só para colocar na língua pátria os jogos favoritos, não dá para baixar game nenhum de lá.

- As traduções podem ser usadas em games originais, não é pirataria – ressalta Marcos, explicando que nem sempre é possível fazer as traduções. – Um exemplo foi numa das edições do jogo Tomb Raider; algumas empresas fecham o produto para ninguém traduzir. Tem outras que liberam mods, e, em cima dos mods, fazemos as traduções. Tem traduções que não são textos, são imagens, então demora mais ainda pois precisa mexer no Photoshop... - enumera Marcos.

Os trabalhos de tradução são organizados por um gerenciador de tarefas, uma ferramenta que o portal oferece para projetos de traduções que muitas vezes começam numa conversa em fóruns do site. Há moderadores e coordenadores que delegam tarefas para usuários de confiança – toda essa hierarquia acaba sendo resultado da convivência no portal. Aí, de forma resumida, o funcionamento é o seguinte: o texto em inglês de todo game é picado em vários pedacinhos, e estes pedaços são oferecidos na página de tradução do jogo escolhido. Com o trabalho diluído, usuários se oferecem para traduzir estas partes, e enviam o material de volta para aprovação e compilação dos coordenadores. Quando todas estas partes estão traduzidas e revisadas pelos coordenadores, a tradução está terminada.

Para garantir a qualidade, medidas foram tomadas, como o organizador da tradução ter o direito escolher se um usuário pode ou não participar de determinado projeto.

- Tinha gente que pegava o texto, jogava no tradutor (internet) e jogava de volta. Ficava horrivel. Por isso criamos mecanismos pra evitar tais problemas – reclama Marcos.

A inspiração para montar um gerenciador de projetos e viabilizar as traduções veio de fora.

- Estava acompanhando na internet grupos de Portugal, Hungria e Rússia, que também são marginalizados no mercado de jogos. Esse pesssoal pegava versões inglesas ou espanholas e tentava traduzir.

Por falar na nossa ex-Metrópole, Marcos conta um caso que revela certa implicância nas traduções. Vinda dos dois lados.

- Eles (portugueses) não gostam do texto daqui e nem a gente gosta do português deles. Então temos um português na equipe para participar das traduções também - conta, democrático.

Se as traduções oficiais seguem cronogramas rígidos, não dá para cobrar o mesmo de pessoas que oferecem parte do tempo livre em um trabalho voluntário – existem projetos que levaram até dois anos para ficarem prontos. Mas há casos de rapidez para deixar os tradutores de livros do Harry Potter morrendo de inveja.

- No jogo Medal of Honor: Airbone nós descobrimos que a versão de demonstração em inglês tinha os textos do game inteiro. Trabalhamos neles e a tradução do game saiu de forma simultânea ao lançamento no país – conta um orgulhoso Marcos.

Provavelmente a indústria oficial não daria conta – por restrições provocadas pela pirataria ou de orçamento – de traduzir tantos games quanto os que encontramos em comunidades como a da GameVicio. E provavelmente as comunidades de fãs não teriam grana nem a aparelhagem necessária para traduções que envolvam dublagens, narrações e gravações em estúdio – tal como vemos em alguns games que já chegam de fábrica falando português. Parece que é sugando o que há de melhor em cada um desses universos que o jogador brasileiro pode se sentir cada vez mais em casa com um teclado ou um joystick na mão. Com um jogo que fala sua língua.

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Fernando Mafra
 

Adorei. Pessoalmente pouco sofro com games em inglês, mas quando aparece algo em japonês é um deus nos acuda.
O trabalho do gamevicio é semelhante ao dos antigos fansubbers de animes; grupos de pessoas dedicadas a trazer, traduzir e distribuir animes entre os fãs - era sim um tipo de pirataria, mas eles atendiam uma demanda ignorada. Que atualmente evoluiu para os funsubbers de internet, que disponibilizam os arquivos de legenda de inúmeras séries, não só animes.

É uma dedicação louvável.

Fernando Mafra · São Paulo, SP 9/11/2007 10:34
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FILIPE MAMEDE
 

Grande Saulo, não sou muito de jogos virtuais, mas gosto de dar uns tirinhos lá Counter Strike, principalmente agora com o Tropa de Elite, na "fase" do Rio, ando me sentindo o próprio Capitão Nascimento (pede pra sair ZERO MEIA!) enfim...mas realmente se os fossem traduzidos, a procura poderia ser maior, não há dúvidas.
Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 9/11/2007 12:15
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