Três legÃtimos representantes da arte indÃgena de Roraima. É como se pode definir Carmézia Emiliano, uma Ãndia macuxi, nascida na maloca do Japó; Bartolomeu da Silva, nascido em Boa Vista, mas também de raÃzes macuxi, da região de Maturuca, na Raposa Serra do Sol; e Isaias Miliano, que nasceu na Maloca do Mutum, na Serra do Uiramutã, também um legÃtimo macuxi.
Através da arte - cada um a seu modo -, eles tentam manter viva sua cultura, seja através da pintura, na escultura, ou do entalhe em madeira.
Carmézia Emiliano, a primeira mulher indÃgena a trilhar pelas veredas das artes plásticas em Roraima, encontrou na pintura uma forma de expressar as cenas comuns do cotidiano da maloca onde viveu até os 28 anos.
O poeta e escritor Eliakin Rufino, que a conheceu em 1992, disse que naquela época Carmézia lhe contara que, se tivesse tinta e pincel, iria retratar os costumes do seu povo.
Aquilo foi o primeiro passo para que Carmézia soltasse sua inspiração e talento para a pintura e se transformasse na maior representante da arte naïf de Roraima.
Seus quadros também traduzem lendas, como na tela Lago Caracaranã. Segundo ela conta, "no lago existe um cavalo marinho, entre outros animais, que foram aprisionados pelos pajés, para ficarem protegidos dos caçadores e predadores da natureza".
Como bem expressou o poeta Eliakin, "ela é a primeira Ãndia a empunhar um pincel e materializar em arte a expressão cultural do povo macuxi".
Com o apoio e incentivo do marido, o palhaço Léo Malabarista, e dos amigos, Carmézia fez sua primeira exposição individual há dez anos. Denominada Lendas, costumes e histórias do povo macuxi, a exposição reunia 19 quadros enfocando temas indÃgenas.
Depois dali, não mais parou. Foram diversas exposições individuais e coletivas, tanto aqui quanto em outros estados da região Norte. Com o tempo, além das tintas tradicionais, Carmézia começou a utilizar material retirado da própria natureza, como o urucum e a resina de genipapo.
Sua obra já rompeu fronteiras e seus quadros já emolduram paredes até mesmo na Europa. O escritor Ziraldo, numa de suas vindas a Boa Vista, ficou encantado com o trabalho de Carmézia e comprou três de suas telas: A Ceia do Ãndio; Espremendo massa; e Desfiando algodão.
Carmézia continua pintando em seu ateliê montado em casa, na periferia de Boa Vista, e prepara material para uma nova exposição ainda para este semestre.
Bartô
O também macuxi Bartolomeu Silva, que adotou o codinome Bartô em suas obras, é outro que representa bem a cultura indÃgena em Roraima. Aos 10 anos, conta ele, se aventurou em suas primeiras criações artÃsticas e não mais parou.
Seus quadros, feitos sempre em óleo sobre tela, com um toque de surrealismo, retratam principalmente a fauna e a flora da região.
Seu trabalho pode ser visto inclusive em painéis de abrigos de pontos de ônibus e repartições públicas.
"Estou produzindo para fazer uma exposição no segundo semestre, que vai se chamar Vida e morte da Amazônia, com enfoque na devastação da região", adianta.
Bartô ainda divide seu tempo de artista plástico com outras atividades. "Também vou voltar a fazer teatro de fantoches e estou trabalhando na criação de um projeto de reflorestamento em áreas degradadas", afirma.
Outro sonho de Bartô, prestes a se realizar, é a criação da Associação Cultural de Artistas Plásticos IndÃgenas de Roraima. Segundo ele, toda a documentação já está pronta para levar ao Cartório, para dar inÃcio à s atividades.
"Isso vai fortalecer ainda mais nossa arte e nossos artistas. Já contatei alguns deles como a Carmézia, o Elisglésio, o Charles Gabriel, o Ze Lange, todos da etnia macuxi, o Mario Flores, que é taurepan, e o Alcindo Silva, que embora seja paraense, desenvolve sua arte por aqui", conclui.
Isaias Miliano
Completando a trÃade artÃstica, chega o taurepang Isaias Miliano, que desde cedo buscou inspiração nas belezas naturais de sua localidade e, logo aos dez anos, já conquistava prêmios escolares com sua arte.
O trabalho de Isaias é feito basicamente com material reciclado, sobretudo a madeira, que ele recolhe em serrarias, marcenarias ou mesmo na natureza.
Segundo Isaias, existe uma preocupação permanente em repassar através de seu trabalho "a necessidade de manter o equilÃbrio com o meio ambiente, através do aproveitamento dos resÃduos naturais que após uma dedicação e atenção os mesmo são transformados em arte sem depredar o ecossistema natural".
Para o artista, o grande reconhecimento pelo seu trabalho foi quando ele concorreu com grandes nomes da arte de Rondônia, onde se sagrou vencedor com a tela em que estava exposto os igarapés, buritizais e cachoeiras, o que era inédito no Estado, pois a maioria dos artistas estava com trabalhos retratando os seringais, ribeirinhos e as locomotivas principais inspirações da época.
"Participar com grandes nomes da arte rondoniense foi a consagração do meu trabalho. O mais importante foi a iniciativa inédita em expor pela primeira vez um trabalho exaltando as belezas naturais de meu Estado de Roraima", disse.
Sua exposição Grafismo e rupestre da Amazônia, composta de 15 peças que retratam as belezas naturais das serras e várias regiões de Roraima, através de pinturas, esculturas e entalhos em madeira, já percorreu todos os estados do Norte desde 2000, e ficou em exposição em Boa Vista, durante o mês de fevereiro, no Hall da Assembléia Legislativa.
"Roraima é um Estado dentro da Amazônia, que possui imensas riquezas naturais, por isso sempre procuro expressar este momento para minhas artes", conclui.
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