Artista acreano ganha prêmio

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Rosiane Farias · , AC
9/3/2006 · 101 · 1
 

Primeiro lugar do Salão Hélio Melo de Artes Plásticas, com a tela Alicerces da Terra, o artista plástico acreano Ivan Campos (44) desde os oito anos pilotava entre pincéis e tintas, criando os desenhos e pinturas para os bordados da mãe, sua maior incentivadora. Ivan recebeu grande influência das histórias em quadrinhos, desenvolvendo sua arte de forma autodidata, descobrindo através de técnica própria, um estilo que ele mesmo prefere não definir, mas que para os cultores das artes plásticas, passeia entre o expressionismo muito particular, quase abstrato, realismo e surrealismo. "Uns dizem que é uma pintura espiritual, nostálgica. Prefiro não definir".

As telas, em sua maioria, mergulham nas temáticas amazônicas. Muitas delas estão nas mãos de apreciadores nos Estados Unidos, Japão, Alemanha, Itália, Argentina e Brasil. Duas de suas obras foram selecionadas para o Projetéis de Arte Contemporânea ? Rede Nacional de Artes Visuais Redemergências: uma das abordagens possíveis de um novo olhar sobre a produção artística atual, em exposição no mês de outubro de 2005, na FUNARTE (RJ). Projéteis contou com a participação de artistas de todos os estados e regiões do Brasil.

Admirador da obra de Rembrandt, nesta entrevista o artista fala de sua obra, analisa as artes plásticas no Acre e faz um carinhoso elogio a obra de Hélio Melo.

Como é para você ganhar o primeiro lugar no Salão Hélio Melo de Artes Plásticas?

Na verdade não esperava que esse meu trabalho ganhasse, pois é uma pintura fora da nossa realidade da floresta, uma pintura marinha, não contava com isso, trouxe essa tela para compor o espaço. Me sinto gratificado.

Qual o olhar que você traça sobre a tela Alicerces da Terra, vencedora do Salão? Como veio essa inspiração com o mar?

É a minha terceira pintura sobre o fundo do mar. As outras duas que fiz são telas grandes e estão em São Paulo. Essa tela me cobrava pelo azul, a maior parte das telas que expus no Salão são nessa tonalidade. Tava em casa de bobeira, e veio aquela idéia de fazer uma canoa na praia, mas achei melhor colocá-la dentro do mar. Levei uns dois meses trabalhando nela, o equilíbrio de cor, forma, profundidade.

Como chegam essas imagens para você?

Elas já estão dentro de mim. A mente humana é como um computador que arquiva dentro da gente as imagens, existe algo lá dentro que guarda toda essa parafernália. Uma vez estive no Rio e me pediram para pintar coisas do mar, já que sempre estive ligado mais à floresta. O mar ficou guardado em meu "arquivo". Não saiu como eles queriam, pois a canoa está no fundo do mar furada. (risos)

Você situaria sua obra em alguma escola?

Apenas procuro aprender a pintar. Sou uma pessoa que não sabe pintar ainda. Todo dia digo isso para mim, pois preciso me aprofundar cada vez mais, ser um cara completo. Na verdade estou engatinhando, apesar de pintar a muito tempo, vinte anos, não sei nada. Sobre a definição, não tenho idéia onde o meu trabalho se enquadra, se é realismo, surrealismo, abstrato. Deixo ao critério de quem está expectando. Uns dizem que é uma pintura espiritual, nostálgica.

Como é para você ser artista plástico?

Creio que na minha família não vai ter mais ninguém assim, porque os meus guris não querem saber de pintura. Geralmente acho que as pessoas enxergam o artista plástico apenas com um lado maldito. O pintor vive à margem da sociedade. O cantor ganha um CD de ouro, os atores as suas estatuetas, o jogador a sua chuteira de ouro e o artista plástico o que ele ganha? O pintor pinta porque é uma missão dele. O reconhecimento na maioria das vezes chega, quando ele já está de "osso branco". A obra dele fica, depois que foi para o além.

Que análise você faz das artes plásticas no Acre?

Na realidade as artes plásticas no Acre engatinham, não pelo lado do artista. Faltam espaços, galerias e produção para tornar as obras reconhecidas. Mas, vejo que novos espaços estão sendo criados, como o Porão da Tentamen, que abrigou o Salão. O próprio evento realizado pela AAPA em parceria com a FEM é positivo. Os nossos artistas estão num grau bem avançado quanto a seus trabalhos. Nossa pintura em sua maior parte não é acadêmica. Eu por exemplo, venho pintando "por cima da pedra", aprendi comigo mesmo.

É verdade que você pinta a maioria de suas telas deitado?

Sim, mas também em pé e de cócoras. Deitado é porque o material que uso, dependendo do preparo da tinta, se deixar a tela em pé ela escorre. Tenho que deixar a tela no plano.

O resultado cria várias dimensões?

Fica ao critério de quem ver. Quem sou eu para dizer que é de uma forma ou outra, porque senão vou conduzir a coisa. Mas, posso dizer que combino a cor e a forma, muitas vezes a cor esconde a forma e a forma esconde a cor. É por isso que o apreciador necessita fazer o movimento de aproximar e afastar.

Algum artista inspirou a sua obra?

Tenho grande admiração pelas pinturas de Rembrandt, para mim é o maior pintor que já existiu na face da terra. Tive poucas oportunidades de ver o trabalho dele, mas sempre procurei observar que é algo que existe porque estamos vendo, e se jamais tivesse visto não daria para imaginar que existia. Me inspiro na obra dele.

Você costuma produzir quantas obras por ano?

Na base, dependendo da dimensão, três a quatro telas. Minha pintura não é comercial. Não tenho a obrigação de trabalhar todo o dia. A minha pintura é uma coisa de vontade, se não tiver, não tenho como pintar. Não é que espere o momento, às vezes estou com vontade, mas não dá. Fica um vulcão dentro de mim. Se eu não cuidar de colocar aquilo para fora, passa.

O que você diria sobre a pintura de Hélio Melo?

Uma coisa que me instiga muito em sua obra é a pessoa do Hélio Melo. Uma pessoa bem adulta que traz à tona aquele conceito de criança em seus traços. É difícil um adulto desenhar como uma criança e vice-versa. Ele passava entre essas duas coisas, não tinha um ponto de partida. A pintura do Hélio traz uma criança iluminada, e quem via o Hélio, enxergava essa mesma criança irradiando nele. Esse lado que me instiga. Um universo muito louco, só um Hélio Melo para fazer.

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Ana Murta
 

"Essa tela me cobrava pelo azul"
"A canoa está no fundo do mar furada"
"Venho pintando por cima da pedra"
MUUito obrigada por me apresentar a esse cara!!
Fiquei absolutamente curiosa pra ver o trabalho dele.
Imagino que tenha a mesma simplicidade certeira das frases que ele profere.
Que figura bacana!

Ana Murta · Vitória, ES 8/6/2006 21:23
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