As festas na UFSC e os efeitos da fratura social

¿vomitorama? em inusitada apresentação no CA de Letras
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juniores rodriguez · Florianópolis, SC
4/6/2006 · 50 · 0
 

As festas na Universidade Federal de Santa Catarina sempre foram um atrativo para a comunidade estudantil e também para a "comunidade" das adjacências. Creio que o fator que melhor contribui para o sucesso dessas festas é o tamanho do campus, que, estando entre os poucos do país com essa característica, agrega a maioria dos cursos. A distância entre o Centro Tecnológico e as áreas de Humanas (claro, se medirmos em metros) é mínima, coisa de poucos minutos.

Nos bons tempos, das boas festas, que (para mim) se resumem aos anos de 2001/2002, às sextas, e às vezes, aos sábados, pipocavam festas nos diversos cursos da UFSC. Não raro, peregrinávamos entre as festas. Tinha festa na Saúde, na Filosofia, na Arquitetura, no Sócio-econômico e no Básico (um dos primeiros prédios da universidade onde, "antigamente", todos cursavam um curso básico antes de se aprofundarem em determinada área). E o mais legal é que todas as festas tinham banda tocando. Foi um período feliz para as efêmeras "bandas universitárias". Comprovando vocação que ia além dessa fronteira, foi possível, nessas festas, ver a ascensão da Pipodélica e a consolidação d'Os Ambervisions, bandas que, com a Repolho, melhor representam Santa Catarina no cenário nacional.

Muitas coisas mudaram de 2001 pra cá e a UFSC passou por um período de estagnação, no que dizia respeito a festas. Entretanto a coisa parece estar em processo de modificação. Desde meados de 2005 elas vêm voltando, de forma tímida, se centralizando em Centros Acadêmicos ou as reuniões da Rádio de Tróia, mas demonstrando, até, um novo fôlego para o já tuberculoso movimento estudantil. Se se fala de estagnação, uma parcela disso pode ser creditada à administração da universidade. A partir do ano de 2003, se tornou muito complicado realizar uma festa dentro da universidade. A burocracia vai longe: autorização do centro, autorização da reitoria, autorização dos bombeiros etc. Sem falar, principalmente, na má vontade mesmo com que se encara tais propostas em cada uma dessas instâncias. Mas, se houve, nesse período, restrições a festas, feitas inclusive por motivos políticos, a justificativa sempre girou em torno da segurança ameaçada dos participantes de tais eventos. E segurança, entenda-se aqui, como sendo ameaçada pelos "malacos" da Serrinha.

Continua não sendo fácil, em termos de burocracia, promover uma festa dentro da universidade e também, agora com mais vulto, o problema dos arrastões voltou à tona. Seja como for, as notícias desses acontecimentos permanecem, na medida do possível, abafadas, assim como tantos relatos de assaltos e estupros não confirmados. A segurança, em última instância, cuida do patrimônio. Quanto ao patrimônio humano, existem outras maneiras de se operar. Polícia no campus já é normal. Entretanto, essa não é a questão central. O que vemos na UFSC, atualmente, tem origem numa complexa série de eventos e estratégias. Sem ter para onde se expandir fisicamente a universidade cresce para cima e põe prédio em cima de qualquer árvore menos precavida. O seu entorno não é diferente, a especulação imobiliária na região da UFSC, como em toda a ilha, é enorme e insana. A cada ano, aumenta o número de prédios nessa região, direcionados, sobretudo, para os estudantes e a população dos morros é "empurrada" mais pra cima. Esse empurrão afasta cada vez mais a universidade da comunidade local (mas pode ser também o estopim de uma crise que sabemos nacional). Outro fator que colabora nessa "política de higiene" tem a ver com a administração municipal. Florianópolis foi, e é, vendida país afora como cidade-paraíso. Entretanto, se era possível fazer um paraíso, pouco se fez além de propaganda e do favorecimento de construtoras, o que resultou numa elevada taxa de povoamento, que não pára de aumentar de forma desordenada. Diferentemente do que planejavam a prefeita e o prefeito, o fluxo migratório atrai não só investidores, mas também trabalhadores em busca de melhores condições de vida, que acabam não encontrando nada e são “absorvidos†pelo continente, indo parar em Palhoça ou em outras cidades da “grande Florianópolisâ€, distantes daquilo que haviam sonhado. E o que encontramos no paraíso? Uma miniatura, ou melhor, uma maquete de grande centro com cabeça de província. Em função disso, a população começa a ver os limites entre "morro†e “asfalto", cada vez mais estreitos (o que é engraçado em Floripa porque em função do maciço que ocupa sua porção central, vemos muitos "casões" nos morros).

E o que fazer nessa hora? Chamar a polícia para que seja possível realizar uma festa? Contratar seguranças particulares? Exigir da administração universitária uma solução (o que significaria chamar a polícia ou acabar com as festas de vez)? Ou, como comunidade acadêmica (e, no caso da UFSC, como grande contingente de "estrangeiros"), procurar atuar de maneira positiva em relação a essas comunidades seja através da (verdadeira) extensão universitária, com projetos que contribuam para situações específicas, como o saneamento básico e instalações elétricas, ou projetos educacionais e de apoio à formação escolar, que contribuam para a elevação da estima e capacidade crítica dessas comunidades? Outro ponto fundamental é a participação na política municipal, transferir o título para a cidade pode ser o primeiro passo nesse sentido. Mesmo porque alguns problemas são, também, fruto de uma postura que se assume em relação à cidade, sendo a mais comum uma postura vampiresca, que trata a cidade como algo descartável: "depois de formado eu vou embora mesmo..."

Seja como for, o vulcão está prestes a entrar em erupção. Resta saber quem ficará para sorver o magma e respirar a fuligem.

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