Bonde domesticado?

Mariana Juliano Pereira (divulgação)
Bonde do Rolê
1
Roberto Maxwell · Japão , WW
28/10/2007 · 94 · 0
 

Principal banda independente do Brasil é grande demais para o formato CD

Para quem acompanha o Bonde do Rolê desde seu surgimento na internet, o CD Bonde do Rolê With Lasers chega velho e um pouco desgastado. Não que a mistura de funk carioca, rock e não-sei-mais-o-quê do trio curitibano tenha perdido seu impacto. Porém, a produção “profissional” e o atraso no lançamento parecem ter enquadrado a irreverência de uma das mais interessantes coisas que aconteceu no pop brasileiro desde o surgimento do manguebeat.

O Bonde... surgiu em 2005 e rapidamente se tornou um dos maiores hits do então recém-nascido MySpace. A banda chegou com uma proposta que mixava o rock com a batida do funk do Rio de Janeiro e umas pitadas de música brega. Os neofunkeiros não precisaram ir muito longe para beber numa boa fonte. Pouco tempo antes, o instigante artista gaúcho Edu K (DeFalla) lançou sua primeira fusão entre o funk carioca e o rock que ficou registrada no álbum Frenetiko.

Na verdade, o Bonde do Rolê está na ponta do iceberg que levou o funk das periferias até as boates freqüentadas pelos queridinhos da classe média, numa reprodução do que aconteceu nos anos 70 com o chamado Movimento Black Rio. No entanto, desta vez os moleques da zona sul carioca (e de outras “quebradas”) se juntaram à rapaziada da periferia carioca para produzir juntos, o que pode ser visto em trabalhos como os do coletivo Apavoramento Sound System, criador do quadrinho inspirado numa música do Bonde Neurose, o Break do Cavera — que pode ser baixado no site deles — e de outras obras que promovem o diálogo entre o funk carioca e outras influências eletrônicas.

Bonde do Rolê With Lasers é, na verdade, uma inútil tentativa de registrar em disco o imenso repertório de colagens pop que o grupo construiu quando ainda era uma experiência na internet. Em entrevista durante a passagem do grupo pelo Japão, Pedro D’Eyrot destacou a inviabilidade financeira do uso comercial samples de outros artistas. E essa é a primeira perda do registro em CD: o Alice In Chains que pululou ali e o Luiz Caldas que surpreendeu aqui foram silenciados. É o business sufocando a cultura, um preço alto que o tal direito autoral — leia-se $$$ — cobra a quem se atreve a fazer mash-ups, remixes, citações e tudo o mais que englobe obras do alheio. (Aliás, vale ressaltar que não sou contra remunerar os autores com parte justa dos lucros obtidos pelo uso de suas obras. Porém, inviabilizar a utilização através de cobranças antecipadas absurdas é contraproducente com a própria cultura.) Vídeos ousados como o da música Tieta o qual mesclava imagens de Betty Faria em sua melhor fase no cinema nacional com uma tosca animação de Joana Fomm caracterizada como a Perpétua da novela global também foram banidos. Vide o bobinho Solta O Frango, onde eles soam alienígenas num ambiente completamente externo a seu habitat. Aliás, mesmo seu sucessor Office Boy, abusa da computação gráfica, mas não atinge o cerne da proposta do Bonde. Neste sentido, a cantora e artista gráfica M.I.A. vai mais longe com seu Boyz. Nesse sentido, o Bonde prova realmente a que veio no palco, onde estão lá a irreverência, as colagens e os samples que foram impedidos de entrar no álbum.

Isso tudo não quer dizer que Bonde do Rolê With Lasers é dispensável. As faixas Caminhão de Gás e James Bonde valem o álbum. No entanto, ao invés de vir com a alegria da finalmente-estréia em CD, Bonde do Rolê With Lasers chega com a tristeza de se ver que mais uma vez o negócio sufocou a arte.

Publicada originalmente em Alternativa.

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