CANTO GERAL- GERALDO VANDRÉ, 1968.

2
PENHA DE CASTRO · São Luís, MA
12/3/2013 · 2 · 1
 

Ouvi este vinil na casa de um colecionador há alguns anos atrás. Fiquei impressionado com a força da interpretação do Geraldo Vandré e sua poesia combativa, com versos planfetários e apaixonados pela luta libertária. CANTO GERAL é um registro, verdadeiro manifesto, do sentimento popular nos anos de chumbo da ditadura militar. Numa época em que o silêncio era a opção mais segura, que as metáforas eram a forma mais viável de expressão, o autor de “Pra não dizer que não falei das flores”, ousou gritar alto e falar diretamente sobre liberdade, luta de classes, opressão. Era o ano do AI5, os direitos fundamentais se sepultavam debaixo dos atos grotescos da repressão, falar de política, de democracia e igualdade em uma canção já era por demais ousado, quem diria, fazer um disco inteiro temático sobre isso!
O ponto de partida de Geraldo Vandré foi a obra homônima de Pablo Neruda, de 1950, no qual o poeta já se rebelava contra a opressão sofrida pelo povo Chileno e Latino americano. As sangrentas ditaduras militares patrocinadas pelas potencia norte americanas e europeias, eram a grande chaga dos povos latinos americanos, que apesar de sofrerem as penas do subdesenvolvimento ainda tinham sua liberdade e sua vida tolhidas por ditadores atrozes.
Em “Terra Plana”, primeira faixa do LP, Geraldo Vandré se apresenta em um discurso efusivo: “Me pediram pra deixar de lado toda a tristeza, pra só trazer alegrias e não falar de pobreza. E mais, prometeram que se eu cantasse feliz, agradava com certeza. Eu que não posso enganar, misturo tudo o que vivo. Canto sem competidor, partindo da natureza do lugar onde nasci. Faço versos com clareza, à rima, belo e tristeza. Não separo dor de amor. Deixo claro que a firmeza do meu canto vem da certeza que tenho, de que o poder que cresce sobre a pobreza e faz dos fracos riqueza, foi que me fez cantador. “
Em “Cantiga Brava” é o guerrilheiro que se manifesta:
“O terreiro lá de casa
Não se varre com vassoura,
Varre com ponta de sabre
E bala de metralhadora.”
A questão agrária foi outro tema tratado por Gerado Vandré, neste LP, em “O plantador”:
“Quanto mais eu ando,
Mais vejo estrada
E se eu não caminho,
Não sou é nada.
Se tenho a poeira
Como companheira,
Faço da poeira
O meu camarada.
Se tenho a poeira
Como companheira,
Faço da poeira
O meu camarada.
O dono quer ver
A terra plantada.
Diz de mim que vou
Pela grande estrada:
"Deixem-no morrer,
Não lhe dêem água,
Que ele é preguiçoso
E não planta nada."
Eu que plantei tudo
E não tenho nada,
Ouço tudo e calo,
Na caminhada.
Deixem que ele diga,
Que eu sou preguiçoso,
Mas não planto em tempo
Que é de queimada.”
E assim, desfilam versos carregados de rancor contra os opressores, como “Eu já fui até soldado, hoje muito mais amado sou chofer de caminhão”, que culminam na “Volta do cipó de arueira no lombo de quem mandou dá”, até o encontro do amor romântico, uma verdadeira heresia para o marxistas mais ferrenhos, em “Guerrilheira” e “Companheira”, e ainda, o choro solitário do cantador que se opõe ao romantismo vulgar que já permeava os “sertanejos” da época: “Quem disse que foi viola, quem disse que foi amar, viola, só me consola e o amor não faz chorar... “
Canto Geral, do Geraldo Vandré, canções que vão além disso.

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Abílio Neto
 

Bravíssima!

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 18/11/2014 22:20
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