Carona e política: uma vocação

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Djalma Nery · São Carlos, SP
26/12/2012 · 5 · 1
 

Em tempos aonde a locomoção humana é mercadoria, a carona se transforma em ato político, confrontando o projeto hegemônico de individualização dos agentes sociais. Toda prática que firma sua existência na solidariedade e real fraternidade humana é um ato revolucionário, pois estes ideais são antagônicos à única ética do capitalismo: o lucro. Não falo de uma conduta samaritana ou assistencialista, mas sim de uma solidariedade sem retorno, desinteressada; um participar de um estado de coisas naturalmente, e optar por uma ação que escapa aos moldes impostos por nosso protocolo social.
Dar e aceitar carona são práticas que vão na contramão de um projeto consumista e individualizante que nos é empurrado goela abaixo para manter inalterada a situação estabelecida e sustentar com nossos braços essa escravidão que nos ronda: o rico cada vez fica mais rico, o pobre...
No entanto, por que a prática da carona não acontece com mais freqüência? E para responder essa questão em sua essência, podemos trazer a tona um embate épico e simbólico que resume grande parte das razões (senão todas) pelas quais nosso convívio em coletividade não apresenta um verdadeiro salto qualitativo: é a luta constante do amor contra o medo; sendo a primeira a força mais libertadora que há (como já cantou o grande lutador Carlos Marighella) e a segunda o vetor máximo de estagnação. O amor impulsiona; o medo coíbe. Amor é revolucionário; medo conservador. O medo é o medo da falta, da escassez, medo do medo; medo de perder o amor, e justifica atos mesquinhos, fazendo com que os indivíduos se identifiquem com o motivo dos atos e os legitimem, pois eles também sentem medo.
Ao não aceitar nem oferecer carona, o que nos move é o medo – seja de colocar em risco os bens materiais ou a própria vida, bem supremo. Na situação contrária, nos pautamos por outros valores e, a despeito de qualquer possível incerteza, optamos pela solidariedade: atualmente um ato de subversão. No entanto, além do medo puro e simples, existem outros mecanismos de coerção social especialmente fabricados para nos dirimir em nosso intento. Por exemplo o medo do ridículo ou do parecer louco, que são formas específicas de medo. E quem garante a existência e manutenção desses mecanismos é a Cultura hegemônica, capitalista e mercantil – base sólida e coração do nosso sistema. Para construir essa hegemonia é que existe a grande mídia; a Indústria Cultural que molda e cria opiniões; que fabrica o medo quando ele é necessário, espalhando pelo mundo um verdadeiro folclore da alienação, fazendo famas e sucessos programados e em consonância com o projeto de dominação atual. A vida em sociedade é baseada em convenções e, no sistema capitalista, as convenções são capitalistas. É esse o coração que devemos atacar se pretendemos transformar algo, é o trabalho de base que precisa ser feito; encampar a luta da substituição de valores básicos e referências generalizadas da humanidade que, atualmente, apontam para o consumo e a não-fraternidade. Quando a solidariedade se tornar de fato um valor básico e uma referência, outro mundo viveremos. E para operar essa substituição, urge colocar em prática e discussão, princípios e ações que nos farão chegar lá.
A Cultura que inventamos está assentada em hábitos e ritos cotidianos. Repetimos, repetimos, repetimos, repetimos, repetimos, repetimos, repetimos, repetimos, repetimos, repetimos... até que se torne “natural”. Por isso a importância de desnaturalizar o olhar e questionar principalmente aquilo que nos parece uma certeza. E sobretudo, trabalhar pela (re)invenção da Cultura e das convenções que nos inventam.
“O trabalho é permanente” e saber reeleger ritos é a demanda histórica mais importante que se apresenta àqueles que estão honestamente comprometidos com a transformação da realidade. Pelo avanço da história é que devemos compreender e superar algumas contradições que moram no âmbito de nossas escolhas cotidianas. Não há revolução sem mudanças essenciais de forma e conteúdo!
A prática da carona é uma das ações possíveis no sentido dessa transformação; não apenas torná-la um “é-vento”, mas optar por sua permanência através da repetição, exatamente como qualquer outro rito. Lembrando que ninguém quer ocupar a desconfortável posição de ser o/a primeiro/a; de dar o primeiro tiro, o primeiro passo, justamente pelo medo compreensível de tornar-se o alvo principal da potente artilharia inimiga em todas as suas formas de coerção. Mas uma vez deflagrado o movimento, opera-se a transformação. E meu medo de parecer louco ou ridículo é infinitamente menor do que minha vontade de transformação: é por isso que eu estendo meu dedo na rua, símbolo universal da carona. É por isso que ao passar de carro por um ponto, eu ofereço carona mesmo. Ria quem quer rir. Usemos os pontos de ônibus como pontos de carona!

Tornar a carona uma prática comum, pois pautada na solidariedade humana!
Pela autodeterminação de nossos ritos e hábitos!
(Re)inventar a cultura!


Djalma Nery
Movimento Transporte Justo
Levante Popular da Juventude
Rede de Educação Cidadã

São Carlos, Dezembro de 2012
“Por uma Vida sem catracas!”

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Sergiomirandinha
 

Opa, não sei se você soube, houve uma manifestação que aconteceu agora dia 1 de Janeiro em São Paulo na posse do prefeito. Saiu no 'Va de Bike': http://goo.gl/ebwn3 E no Diario de S. Paulo: http://goo.gl/hZVja Eis aqui fotos da Manifestação: http://goo.gl/VUTQN - Acho que a Bicicletada deve se movimentar em eventos estratégicos assim, para chamar bem atenção, e pedir pontos concretos, como é o caso do plano de 2008 engavetado. Para saber mais sobre o plano de 2008, acesse este artigo do "Va de Bike" http://goo.gl/OCXlJ

Sergiomirandinha · São Paulo, SP 6/1/2013 11:22
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