Em tempos aonde a locomoção humana é mercadoria, a carona se transforma em ato político, confrontando o projeto hegemônico de individualização dos agentes sociais. Toda prática que firma sua existência na solidariedade e real fraternidade humana é um ato revolucionário, pois estes ideais são antagônicos à única ética do capitalismo: o lucro. Não falo de uma conduta samaritana ou assistencialista, mas sim de uma solidariedade sem retorno, desinteressada; um participar de um estado de coisas naturalmente, e optar por uma ação que escapa aos moldes impostos por nosso protocolo social.
Dar e aceitar carona são práticas que vão na contramão de um projeto consumista e individualizante que nos é empurrado goela abaixo para manter inalterada a situação estabelecida e sustentar com nossos braços essa escravidão que nos ronda: o rico cada vez fica mais rico, o pobre...
No entanto, por que a prática da carona não acontece com mais freqüência? E para responder essa questão em sua essência, podemos trazer a tona um embate épico e simbólico que resume grande parte das razões (senão todas) pelas quais nosso convívio em coletividade não apresenta um verdadeiro salto qualitativo: é a luta constante do amor contra o medo; sendo a primeira a força mais libertadora que há (como já cantou o grande lutador Carlos Marighella) e a segunda o vetor máximo de estagnação. O amor impulsiona; o medo coíbe. Amor é revolucionário; medo conservador. O medo é o medo da falta, da escassez, medo do medo; medo de perder o amor, e justifica atos mesquinhos, fazendo com que os indivíduos se identifiquem com o motivo dos atos e os legitimem, pois eles também sentem medo.
Ao não aceitar nem oferecer carona, o que nos move é o medo – seja de colocar em risco os bens materiais ou a própria vida, bem supremo. Na situação contrária, nos pautamos por outros valores e, a despeito de qualquer possível incerteza, optamos pela solidariedade: atualmente um ato de subversão. No entanto, além do medo puro e simples, existem outros mecanismos de coerção social especialmente fabricados para nos dirimir em nosso intento. Por exemplo o medo do ridículo ou do parecer louco, que são formas específicas de medo. E quem garante a existência e manutenção desses mecanismos é a Cultura hegemônica, capitalista e mercantil – base sólida e coração do nosso sistema. Para construir essa hegemonia é que existe a grande mídia; a Indústria Cultural que molda e cria opiniões; que fabrica o medo quando ele é necessário, espalhando pelo mundo um verdadeiro folclore da alienação, fazendo famas e sucessos programados e em consonância com o projeto de dominação atual. A vida em sociedade é baseada em convenções e, no sistema capitalista, as convenções são capitalistas. É esse o coração que devemos atacar se pretendemos transformar algo, é o trabalho de base que precisa ser feito; encampar a luta da substituição de valores básicos e referências generalizadas da humanidade que, atualmente, apontam para o consumo e a não-fraternidade. Quando a solidariedade se tornar de fato um valor básico e uma referência, outro mundo viveremos. E para operar essa substituição, urge colocar em prática e discussão, princípios e ações que nos farão chegar lá.
A Cultura que inventamos está assentada em hábitos e ritos cotidianos. Repetimos, repetimos, repetimos, repetimos, repetimos, repetimos, repetimos, repetimos, repetimos, repetimos... até que se torne “natural”. Por isso a importância de desnaturalizar o olhar e questionar principalmente aquilo que nos parece uma certeza. E sobretudo, trabalhar pela (re)invenção da Cultura e das convenções que nos inventam.
“O trabalho é permanente” e saber reeleger ritos é a demanda histórica mais importante que se apresenta àqueles que estão honestamente comprometidos com a transformação da realidade. Pelo avanço da história é que devemos compreender e superar algumas contradições que moram no âmbito de nossas escolhas cotidianas. Não há revolução sem mudanças essenciais de forma e conteúdo!
A prática da carona é uma das ações possíveis no sentido dessa transformação; não apenas torná-la um “é-vento”, mas optar por sua permanência através da repetição, exatamente como qualquer outro rito. Lembrando que ninguém quer ocupar a desconfortável posição de ser o/a primeiro/a; de dar o primeiro tiro, o primeiro passo, justamente pelo medo compreensível de tornar-se o alvo principal da potente artilharia inimiga em todas as suas formas de coerção. Mas uma vez deflagrado o movimento, opera-se a transformação. E meu medo de parecer louco ou ridículo é infinitamente menor do que minha vontade de transformação: é por isso que eu estendo meu dedo na rua, símbolo universal da carona. É por isso que ao passar de carro por um ponto, eu ofereço carona mesmo. Ria quem quer rir. Usemos os pontos de ônibus como pontos de carona!
Tornar a carona uma prática comum, pois pautada na solidariedade humana!
Pela autodeterminação de nossos ritos e hábitos!
(Re)inventar a cultura!
Djalma Nery
Movimento Transporte Justo
Levante Popular da Juventude
Rede de Educação Cidadã
São Carlos, Dezembro de 2012
“Por uma Vida sem catracas!”
Opa, não sei se você soube, houve uma manifestação que aconteceu agora dia 1 de Janeiro em São Paulo na posse do prefeito. Saiu no 'Va de Bike': http://goo.gl/ebwn3 E no Diario de S. Paulo: http://goo.gl/hZVja Eis aqui fotos da Manifestação: http://goo.gl/VUTQN - Acho que a Bicicletada deve se movimentar em eventos estratégicos assim, para chamar bem atenção, e pedir pontos concretos, como é o caso do plano de 2008 engavetado. Para saber mais sobre o plano de 2008, acesse este artigo do "Va de Bike" http://goo.gl/OCXlJ
Sergiomirandinha · São Paulo, SP 6/1/2013 11:22Para comentar é preciso estar logado no site. Faa primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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