Construindo uma nova cena

Flávio Cansanção. Foto de Divulgação. Todos os direitos reservados Maceio
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Tati Magalhães · Maceió, AL
26/4/2006 · 96 · 1
 

10 anos de Substation: na noite de Natal, a festa que ajudou a desfazer preconceitos e construir a cena eletrônica em Maceió

Há pouco mais de dois anos, falar de música eletrônica em Maceió era se referir a possibilidades, na visão mais otimista. Apesar do pioneirismo de alguns - que o diga o grupo Pragatecno, hoje espalhado pelo Nordeste - a capital alagoana parecia ainda fechada a toda e qualquer novidade que não fosse o hit novo das rádios (preferencialmente axé e forró eletrônico). Ainda assim, iniciativas isoladas buscavam construir um outro cenário – e conquistar um novo público – para o gênero, indo além dos modismos instantâneos que surgem e se alternam a cada nova estação. Não foi um caminho fácil, que o digam os que apostaram nessa cultura quando ela já estava se consolidando em outros lugares do Brasil (e já estavam consolidadas no planeta).

Mas hoje, a batida da música eletrônica começa a ecoar em toda Maceió, e as festas de e-music já fazem parte do calendário da cidade, mesmo que poucas tenham dia certo para acontecer. E o crescimento da cena parece ganhar ares de "estilo de vida" com o aumento no número de fãs (principalmente adolescentes), e DJs envolvidos com essas produções. E, além deles, diversos outros profissionais vêm fazendo das raves na capital alagoana um novo espaço de expressão cultural na era cibernética.

Os desbravadores

Um exemplo desse fenômeno é a Substation, a maior festa de música eletrônica de Maceió. A rave, que é realizada no prédio histórico (e em funcionamento) da Estação Central de Trens de Maceió, neste Natal comemorou 10 anos em pleno vapor. Foi uma década de construção de uma cultura eletrônica numa cidade com pouca receptividade para inovações. Mas, mesmo para se firmar, não foi apostando unicamente no ramo que eles garantiram o espaço: o palco do rock estava sempre lá, convidando os adeptos do gênero a entrar na festa, com bandas de renome no Estado e até fora dele, como Wado e Xique Baratinho. Ano passado, a Living in the Shit, que fechou as portas por um tempo, retornou para animar o palco que, segundo os organizadores da festa, não deve se repetir no próximo gingobell.

Atualmente, a festa conta com um público cativo de aproximadamente três mil pessoas, que se reúne a cada badalada de um novo natal. Depois da meia-noite, do amigo secreto e da ceia, fica difícil não correr para lá. O grande mérito da Substation, além de fortalecer a cena eletrônica em Maceió, é o reconhecimento nacional e internacional. O que nos primórdios começou a partir de um gueto, hoje é o espaço de confraternização da galera que curte a música eletrônica como um estilo de vida e mesmo daqueles instigados por deixar a noite, realmente, feliz.

Para o DJ Bacana, um dos produtores da Substation, a festa rave natalina é tida como referência ao se falar da cena eletrônica alagoana. Além desta festa, Bacana participou direta e indiretamente de outros projetos, e atesta o crescimento da cultura eletrônica na capital alagoana. “Agora posso dizer que de fato está crescendo e acho isso muito bom. Mas ainda tem muita coisa a ser absorvida, principalmente quanto à culturaâ€, ressalta.

Mas é impossível apontar alguns desbravadores sem falar do grupo de música eletrônica Pragatecno. Criado em janeiro de 1998 em Alagoas, funciona hoje como um núcleo de e-music no norte-nordeste. Entre suas proposta está a de dar visibilidade às novidades da cultura experimental e não-comercial da música eletrônica e cibercultura. Para isso, o Pragatecno promove a troca de informação entre os DJs e produtores nas regiões. O grupo é formado por DJs das cidades de Belém do Pará, Fortaleza, João Pessoa, Maceió, Aracaju e Salvador, além da cidade do Rio de Janeiro.

Em Maceió, as produções do Pragatecno remontam aos primórdios da cena eletrônica local. As festas atraiam ravers iniciantes e veteranos, e foram responsáveis pela formação de DJs reconhecidos na cena local e nacional, a exemplo do próprio Bacana. Quem conhece a origem dos beats de Maceió certamente já foi ou ouviu falar das festas no Beco da Garça, na praia da Garça Torta, litoral norte da capital alagoana.

Novos atores

O desbravamento promovido pela rave natalina e pelos visionários e-music abriu caminhos para ampliar os palcos para a cena eletrônica local. Outras iniciativas foram surgindo e Maceió conta atualmente com diversos produtores: empreendedores culturais, patrocinadores e público são os novos atores dessa história, que já está mudando a face da vida cultural no Estado.

O caso da relações públicas Aline Baralho é emblemático. Ela trabalha com a produção de eventos culturais há pelo menos três anos. Somente em 2005, passou a investir na realização de festas da cultura eletrônica. Juntamente com seu companheiro, o músico e guitarrista da banda Xique Baratinho, Aldo (Jones) Gonzaga, executam o projeto Energy. Esta empreitada pretende ser um referencial na realização de festas eletrônicas na capital alagoana, introduzindo o projeto na movimento de música eletrônica nacional.

O projeto já teve duas edições, ambas consideradas um sucesso pelos promoters. A primeira, o Energy Light Circus, realizada em 13 de agosto de 2005, proporcionou dez horas de festa com DJs de Maceió, Recife e Salvador. Contabilizou a participação de 800 pagantes. Já na segunda edição, a Energy Private Trance Beach, ocorrida em 15 de setembro do ano passado, na praia de Garça Torta, contou com 400 pagantes. Além dos alagoanos, a festa teve também a presença dos adeptos de Pernambuco, que vieram conferir as festas por essas áreas.

Outros eventos como o Skol Beats, o Projeto Atehumazora e o Vagalume Records Party, trazem a percepção da amplitude que a cultura eletrônica começa a ocupar em Maceió. Novos DJs aparecem para revitalizar a cena, especialmente de Trance e Psytrance, como os Txu, Valgreen e Fê, Ganham os maceioenses, que têm disponível mais uma opção de diversão e cultura; e também outros atores envolvidos, como os patrocinadores – principalmente cervejarias e grifes de roupas e acessórios – que conseguem aliar seus produtos ao crescente público da e-music.

Romper barreiras para a cultura eletrônica de Maceió

No entanto, produtores de festas eletrônicas em Alagoas são unânimes em afirmar que uma das principais dificuldades para a execução dos projetos é a reunião de patrocinadores. A mentalidade dos agentes financiadores ainda está começando a mudar quanto ao retorno que pode ser conseguido. Somente aqueles empresários com público diretamente ligado à cultura eletrônica possuem verbas direcionadas a essas estratégias de marketing.

Apesar da fidelização do publico alcançada em 2005, há muito por se fazer consolidar a e-music em Maceió. Na opinião da promoter do Projeto Energy, a principal barreira a ser superada é com certeza o apoio financeiro, que até inviabiliza a realização de festas com intervalos menores. “O custo para realização de uma rave é muito alto. Como a maioria dos produtores está começando agora e com recurso próprios, fica difícil produzir as festas num período mais curto entre uma e outraâ€, confessa Aline Baracho.

Outras barreiras a serem derrubadas são os mitos que existem em torno da cultura eletrônica. Alguns são bem retrógrados – mas ainda embrenhados nas mentes alagoanas mais atrasadas – como os que afirmam que as raves são festas exclusivamente gays. Há ainda a informação corrente de que as festas de e-music são locais de consumo livres de drogas. Esses mitos atrapalham a seriedade com que produtores, DJs e demais profissionais trabalham e terminam por afastar aqueles que têm interesse em pulsar ao som das batidas eletrônicas.

Para esses que temem participar da cena eletrônica maceioense, o DJ Bacana dá um recado. “Eu acho que desde que o mundo é mundo as pessoas bebem e se divertem da maneira que gostam e querer isso de fato é problema de cada um. Quanto de fato as pessoas souberem respeitar o limite de cada um, teremos uma menor hipocrisia. MUSIC IS THE ANSWERâ€, finaliza o DJ.

* Com a colaboração de Bruno Silva

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claudiomanoel
 

Olá, Tati e Bruno. Muito bacana o artigo de vcs. e obrigado pela citação do Pragatecno.
abs
claudio manoel

claudiomanoel · São Félix, BA 26/6/2006 12:46
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