Curupira Rock Club - Entrevista com o Edson

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Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC
3/11/2006 · 105 · 0
 

Dia 08 (09 e 10) de dezembro de 2000, o Curupira Rock Club, depois de oito temporadas de atividades botando fogo na cena independente brasileira, fazia um evento para se despedir, dava adeus e fechava as portas. No entanto, para a alegria geral da nação, o adeus, que parecia ser definitivo, não durou muito tempo (não passou de um tchau) e menos de dois anos depois as portas do Curupira voltaram a se abrir. É claro que o retorno se deu por vários fatores, em especial, pela chiadeira geral, uma espécie de apelo das bandas, do público que freqüentava o endereço, ou ainda, por que não, uma simples retomada de uma idéia que, mesmo diante de algumas precariedades, sempre funcionou muito bem.

Pelo palco do bar passaram muitas bandas de meros desconhecidos em outros cantos do país, mas conhecidos na região, e outras reconhecidas no cenário independente brasileiro - Wander Wildner, Garotos Podres, Júpiter Maçã, Autoramas, Cachorro Grande, Ratos de Porão, Relespública, Walverdes –, sem contar as bandas “gringas”. Mas independente da importância de quem passou pelo local, o bar sobreviveu pela vontade das pessoas (seriam muitos nomes para citar, vou deixar que o Edson – Curupira Rock Club, ex-Abrigo Nuclear, ex- The Power Of de Bira, zineiro... faça isso na entrevista) que sempre acreditaram em ter um espaço para botar em prática o bom e velho rock and roll.

Vários outros endereços surgiram no estado (O extinto Underground – Bar do Frank – em Florianópolis, que funcionou de 1999 até 2002, é um outro nome a ser lembrado com carinho), mas nenhum deles conseguiu superar os desgastes de trabalhar (e se manter vivo) com a noite. O que nos permite dizer, sem nenhum exagero, que o Curupira foi, no estado de Santa Catarina, o endereço da cena musical independente da década de 90 (e continua sendo até hoje). Muitas bandas se formaram a partir deste, muitas bandas gravaram suas primeiras demos no próprio bar nos dias em que o mesmo não abria para shows, muitas outras iniciativas foram influenciadas pela idéia simples e eficiente do Curupira.

Então tá, vou deixar de ladainha furada e vou passar a bola para quem conferiu de perto toda essa confusão, para que este possa nos apresentar uma (pequena e rica) contribuição sobre algumas lendas do Curupira Rock Club. Para quem não conhece o Curupira, nunca ouviu falar, vai ter a oportunidade de conhecê-lo (um pouco que seja) através desta entrevista (feita pela internet) recheada de histórias contadas por um dos personagens que fez e faz parte deste local (hoje é responsável pelo site - http://www.curupirarockclub.com/). Nela tu vais ficar sabendo sobre como tudo começou, sobre o cachorro quente, sobre o Bananeira, sobre algumas bandas que por ali passaram... mas em especial, observar que, por mais interessante que tenha sido todo esse período, nada de nostalgia, afinal de contas, o boteco continua sendo o palco mais badalado da cena independente do estado: Faaaaaaaaaaaaaala Edson.


1. Fala um pouco sobre o bar, como começou, quem eram as pessoas envolvidas e, em especial, sobre a tua participação?

-O Ivair (o dono) já tinha um bar em Guaramirim chamado “Weekend Club”. Chegou a fazer alguns shows, mas não rolou. A cidade não estava preparada para uma proposta de se fazer música alternativa em uma cidade de 10 mil habitantes. Como a família dele tinha uma grande quantidade de terra na cidade, eles resolveram montar uma estrutura no seu terreno, que a princípio serviria para fazer bailes sertanejos (na época parecia ser a melhor forma de recuperar o dinheiro investido no novo local). Também não deu certo! Nos bailes nunca davam ninguém... A amizade do Ivair com algumas personalidades rockeiras da região como o Padilha da banda Seres Vivos (hoje The Seres) e Tito (fanzine Distorção Alternativa e banda Kontra Ordem) levou a viabilizar um evento no clube com uma proposta diferente. Trazer banda e público de outras cidades. A minha história com o Curupira surgiu nesse primeiro evento, já que eu era muito amigo do Tito e ainda não conhecia o Ivair. Fiquei encarregado de contactar bandas de Joinville e divulgar esse primeiro show por lá. Nesse primeiro show, realizado em 09/05/1992, tocaram as bandas Camisa-de-Força, Leis e Ordens e Hephrem (Joinville) e Kontra Ordem, Seres Vivos e A Radical Band (Jaraguá do Sul). Nós éramos tão inexperientes que nem chegamos a organizar excursão; viemos todos com ônibus de linha e depois do show dormimos na rodoviária de Guaramirim.

2. De que forma o Curupira ajudou a impulsionar a cena da região e, conseqüentemente, do estado também??


-Ajudou principalmente a unir as pequenas cenas alternativas que já aconteciam isoladamente em cidades como Joinville, Blumenau, Jaraguá do Sul, Florianópolis, etc. Hoje parece até patético, mas há 14 anos, simplesmente não existia nenhum clube de rock em SC. Shows normalmente aconteciam em locais alugados (tipo sociedades de Tiro, etc) ou festivais ao ar livre. Foi muito legal quebrar uma barreira que sempre existia e ficar sabendo o que as pessoas de outras cidades estavam produzindo. Sempre explico para os mais novos que atualmente, com a Internet, muitas dessas barreiras não existem mais, só que na época basicamente todo material alternativo brasileiro era distribuído por carta, correio mesmo, e esses shows viraram uma nova forma de mostrar a produção independente de SC. Conheci pessoas nessa época que até hoje tenho grande amizade.

3. Quais as bandas que se formaram na região que o Curupira, de alguma forma, influenciou??


- Influenciou todos que estavam no underground aqui da região! The Power Of The Bira, Bodegueros, Alpha Asian Malaria, Flesh Grinder, Enzime, Gods Of Joy, Fly-X, Os Legais, Die Heissen Kartoffel, etc, etc, etc. Foi algo incrível! O povo ia assistir aos shows, via que ninguém tocava bosta nenhuma e pensava: “Eu também posso fazer uma banda assim!”. E faziam mesmo...

4. É possível contabilizar (aproximadamente) quantos eventos foram realizados no Curupira??? Todos eles têm registro (cartaz, fotos, matérias em jornal...)??

- Entre shows, festivais e festas foram realizados 170 eventos em 14 anos. Isso dá uma média de mais de um show por mês. Teve anos que foram mais produtivos e outros menos. Desses eventos, quase todos (98%) tem algum material no site, seja cartaz, seja foto, jornal ou vídeo.

5. O local era um ponto de encontro entre as cidades da região (Jaraguá do Sul, Joinville, São Bento do Sul, Blumenau... Outras que mereçam, serem citadas??) como isso se dava, como as pessoas se correspondiam, como era a locomoção dessas pessoas até o interior de Guaramirim (e o retorno)??

-Veja pela seguinte ótica: estamos todos na merda, queremos ver bandas ao vivo e não temos nenhum lugar pra ir. Essa era a situação na época em várias cidades da região. Quando apareceu o Curupira foi como um presente que caiu do céu. Além das cidades citadas, veio muita gente de Floripa, Camboriú, Itajaí, Timbó, Gaspar, Indaial, Mafra, sem contar o próprio povo de Guaramirim que passou a ir ao local de curioso (pra ver o que tinha naquele lugar que atraia tanta gente estranha?) e acabou gostando. Quanto à locomoção, funcionava da seguinte maneira: quem tocava, normalmente trazia os amigos junto. Muitos desses amigos também tinham banda e já aproveitavam que estavam lá e acabavam pedindo pra tocar também em outra ocasião. Funcionava como bola de neve, quanto mais shows tinham, mais pessoas nós conhecíamos e apareciam bandas dos locais mais remotos possíveis. Ainda sobre transporte, tem casos que pessoas vieram de Joinville e Blumenau de bicicleta pra não perder um show. São cerca de 40km aproximadamente. Isso que é amor pelo rock!!

6. E as demo-tapes, os fanzines (do tempo do xerox), a Abrigo Nuclear (loja de discos em Jaraguá do Sul), fala um pouco a respeito?

-Não sinto saudades desse tempo. Acredito que ficar remoendo o passado é negar que podemos ter um futuro melhor. O que são as demo-tapes senão os CD-demos de hoje. O que são os fanzines senão os blogs, fotologs, sites, comunidades da Internet, etc. Mudam as mídias, as ferramentas, etc, mas a vontade de se produzir cultura alternativa é a mesma. Sempre existirão os excluídos (tipo nós!) e para eles só resta a criatividade. Quando surgiram os PC’s no Brasil, muita gente que fazia fanzine viu aquilo com repúdio, porque já era possível editá-los de forma digital e aposentar a tesoura, a cola, etc. Em relação a estética da arte eu acho legal manter ainda esse tipo de trabalho, mas como meio de informação é mais complicado. Tem grandes chances de você lançar algo ultrapassado. A mídia eletrônica está alcançando velocidades impressionantes de propagação. É complicado lançar algo que já não esteja rodando na Internet...
Bem, já sobre a Abrigo Nuclear, o que tenho pra falar é que, enquanto durou foi muito bom. Acho que até hoje sinto saudade das amizades que fiz. Foi a experiência mais gratificante de se ter uma loja. Daí surgiu o CD pirata, o mp3 e nossas vendas diminuindo mês a mês... não deu pra segurar a barra. Duramos seis anos... acho que foi um bom tempo para uma cidade como Jaraguá do Sul.

7. Foram gravadas algumas demo-tapes no Curupira, tu tens idéia de quantos registros foram feitos??


-Acredito que foram cerca de 15 demos. Pode ser mais ou menos que isso. Fizemos lá bandas como Os Legais, Fly-X, Sufoco, Bodegueros, Schnaps, A-77, Folha de Palmito, Accubitorium, The Book Keepers, Die Heissen Kartoffeln, Bloody Mary, Suferi e mais algumas que não lembro agora.

8. O Cachorro quente do Curupira era famoso, fale a respeito?


-Ele ainda é famoso. Acho que sua melhor fase foi quando ele era feito pela Rose (irmã do Ivair). Até hoje não sei se ele é realmente bom ou se é a ‘larica” de final de show que faz parecer isso. Vou ficar com a primeira... Espero que vocês que estão lendo possam prová-lo e me dizer.

9. Personagens famosos do Curupira (o Bananeira é um deles?). Quem foram às pessoas que contribuíram para o Curupira se tornar uma espécie de lenda?

-Até mais famoso que o próprio dono, o Bananeira é o nosso anfitrião “mor” do Curupira. Uma pessoa realmente simpática e acolhedora que tem essa mania estranha de plantar bananeira nos shows que ele gosta. É um termômetro para o público. Se o show tá bom e ele aprova, com certeza sua performance estará presente. Sua comunidade de admiradores no Orkut tem mais de 500 pessoas. Claro que muitas outras pessoas contribuíram nessa história, entre elas: Tito, Padilha, Luizinho, Marcos Maia, Zé, Digão, Lima, Kaly, Mancha, Heriberto, Charles K., China, etc...


10. Shows memoráveis, cite alguns em que a galera deixou o local pedindo bis?

-Foram muitos! Eis alguns: Repolho, Concreteness, Wry (sempre que eles tocam é legal), Loop-B, Olho Seco, Replicantes e Wander Wildner, Cólera, Garotos Podres, Autoramas, Os Legais (sempre é legal), Dead Fish, Ratos de Porão, Walverdes, Fun People, Júpiter Maçã, Relespública, e muitos outros.

11. Hoje tu és responsável pelo site?? O que o site tem para oferecer para as pessoas que o acessam? Quais são os projetos futuros para o site?


-Minha história com o site é curiosa. A cerca de um ano eu comprei um scanner usado pra digitalizar várias fotos em papel que eu tenho em casa. Muitas dessas fotos são de shows no Curupira. Quando terminei o trabalho eu fiquei me perguntando qual seria a maneira mais fácil de compartilhar esse trabalho e o site caiu como uma luva. Levei cerca de seis meses juntando material (cartazes, fotos, datas, etc) muitas pessoas vem colaborando para deixá-lo cada vez mais completo.
Atualmente quem visitá-lo no endereço (www.curupirarockclub.com ) vai encontrar cerca de 2000 fotos, alguns arquivos de vídeo, um histórico com cerca de 95% de todas as datas realizadas no Clube, além de espaço para comentários, curiosidades, mp3 de bandas da região, links e por aí. O site tem muito conteúdo e é um livro de história do rock alternativo de SC.
A curto prazo quero achar uma maneira de digitalizar e colocar no site umas 200 fitas VHS de shows que temos do clube, mas que por falta de espaço só foi possível colocar menos de 1% do que temos. Atualmente é o meu sonho...

12. O Curupira hoje, passados quatorze anos??


-Estamos sobrevivendo aos trancos e barrancos, mas conseguimos boas coisas. Bons shows em uma região que tinha tudo pra dar errado. Se fechasse hoje acho que teríamos a sensação de dever cumprido. Não podemos pedir mais nada dele... só tenho a agradecer... e a ajudar sempre!

13. Alguma coisa que tu achas interessante estar falando que eu não tenha perguntado?? Sinta-se à vontade??


-Gostaria de deixar claro que não sou o administrador atual. Fui até 2002 junto com o Ivair. Atualmente quem está administrando é o Kelson (kelson@curupirarockclub.com) junto com o Pierre (pierre@curupirarockclub.com). Contato para shows é com eles. Eu (edson@curupirarockclub.com) atualmente mantenho o site e faço os registros fotográficos dos shows.
Gostaria de fazer um convite a todos os internautas a nos visitarem (pessoalmente e no site) e conhecer um pouco da nossa improvável história que se mantém desde 1992. Um grande abraço a todos (especialmente ao Demétrio pela entrevista) e até mais!

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