Para Levi-Strauss, talvez o último sábio da estirpe dos antigos a nos deixar, essa bela versão da borralheira/cinderela dos seus queridos Algonquin. Que sua memória não nos falte!
Borralheira/Cinderela
(Versão dos Índios Algonquins)
Havia uma vez uma grande aldeia de índios MicMac, dos algonquins do leste, que ficava bem na beira de um lago. Na extremidade mais longínqua do acampamento havia uma cabana na qual vivia um ser que era sempre invisível. Ele tinha uma irmã que cuidava dele e todos sabiam que qualquer moça que pudesse vê-lo se casaria com ele. Por esta razão pouquíssimas eram as jovens que não o tentavam, mas passaria muito tempo antes que alguma conseguisse.
Esta é a maneira através da qual a prova da visão era realizada: ao cair da tarde, quando o Invisível costumava voltar para casa, a irmã dele acompanhava as moças que aparecessem na beira do lago. É claro que ela podia ver o irmão, pois ele era sempre visível para ela. Assim que o via chegando, perguntava às moças:
“Vocês conseguem ver meu irmão?”
“Sim!”, era o que elas normalmente respondiam, embora houvesse algumas que dissessem: “Não.”
Para aquelas que diziam que podiam vê-lo, a irmã costumava perguntar:
“De que é feita a sua alça de ombro?” Certas garotas diziam que ela podia perguntar também:
“Qual é o seu troféu da corrida de alces?” ou “Com que ele puxa o seu trenó?”
E as jovens responderiam:
“Uma tira de couro” ou “um galho verde flexível” ou algo desse tipo.
Sabendo que elas não tinham falado a verdade, a irmã diria então:
“Muito bem, vamos para o wigwam! ”.
Depois de terem entrado, a irmã as avisava para não se sentarem em certo lugar, porque pertencia ao Invisível. Então, depois de ajudarem a cozinhar o jantar, as moças esperariam com grande curiosidade o momento de vê-lo comer. Elas podiam ter certeza de que ele era uma pessoa real porque no momento que tirava os mocassins, eles se tornavam visíveis e a irmã os pendurava. Mas não viam nada além disso, mesmo as que passavam a noite toda no local, o que muitas costumavam fazer.
Bem, naquela aldeia morava um velho homem viúvo com suas três filhas. A mais jovem era muito pequena, fraca, às vezes doente: e ainda assim as suas irmãs, especialmente a mais velha, a tratavam cruelmente. A segunda filha era mais gentil e às vezes se colocava a seu lado: mas a irmã malvada queimava-lhe as mãos e os pés com cinzas ardentes; por causa deste tratamento o corpo da menina era coberto de cicatrizes. Ela era tão marcada que as pessoas a chamavam de Oochigeaskw, “a garota da cara áspera”.
Quando seu pai voltava para casa e perguntava porque a moça tinha essas queimaduras, a irmã malvada dizia logo que era por culpa dela, que tinha desobedecido ordens, ido para perto do fogo e caído nele.
Essas duas irmãs mais velhas decidiram um dia testar as suas sortes, indo ver o Invisível. Vestiram suas roupas mais lindas, tentando parecer o mais graciosas que podiam... Encontraram a irmã do Invisível e fizeram o passeio usual à beira d’água.
Quando ele chegou e a irmã lhes perguntou se eram capazes de vê-lo, elas responderam: “Claro que sim!”
E quando perguntadas acerca do suspensório ou da corda do trenó, elas responderam: “Uma peça de couro cru.”
Mas claro que estavam mentindo, como as outras, e não conseguiram nenhum alívio para suas dores.
Na tarde seguinte, quando o pai regressou para o lar, trouxe consigo muitas das pequenas e bonitas conchas com as quais é feito o wampum e as moças se prepararam para o trabalho de encordoá-las.
Naquele dia a pobre pequena Oochigeaskw, que sempre andara de pés descalços, pegou um par de mocassins do seu pai, muito, muito velhos e os colocou na água para amolecê-los, de forma a poder usá-los. Depois pediu às suas irmãs algumas conchas de wampum. A maior a chamou de “pestinha”, mas a mais nova lhe deu algumas. E então, sem nenhuma roupa além dos seus trapos usuais, a pobre garota foi à floresta e pegou ela mesma algumas folhas de bétula e fez uma roupa, que decorou com os sinais, como faziam os antigos. Fez uma anágua, uma túnica bem solta, um chapéu, perneiras e um lenço. Colocou os velhos mocassins de seu pai, que eram grandes demais para ela, e foi testar a sua sorte. Tentaria descobrir se poderia ver o Invisível, ela pensava.
Ela não começou muito bem. Assim que a viram colocando em prática seu intento, suas irmãs passaram a gritar, enxotar, vaiar e berrar, tentando impedi-la. E os vagabundos que ficavam em torno da aldeia, vendo a estranha pequena criatura, gritaram: “Vergonha!”
A pobre garota com suas roupas estranhas e a cara cheia de cicatrizes era uma horrível aparição, mas foi gentilmente recebida pela irmã do Invisível. E isto evidentemente acontecia porque a compreensão da nobre mulher ia muito além da simples aparência que o resto do mundo conhecia. Quando o céu dourado da tarde se enegreceu, a mulher levou-a até o lago.
“Você pode vê-lo?” perguntou a irmã do Invisível.
“Eu o vejo sim; e ele é maravilhoso!”, respondeu Oochigeaskw. A irmã perguntou:
“Como é a corda do seu trenó?”
A garota respondeu: “É o arco íris!”
“E o que é, minha irmã, a corda do seu arco?”
“É o Caminho dos Espíritos - a Via Láctea.”
“Sim, você o vê...” disse a irmã.
Ela levou a garota para casa e lhe deu um banho. Durante o banho, todas as cicatrizes foram desaparecendo de seu corpo. Seus cabelos cresceram novamente, longos e brilhantes como a asa de um melro. Seus olhos eram como estrelas: em todo o mundo não havia uma beleza parecida. Então, de entre os seus tesouros, a dama tirou os ornamentos de casamento e os colocou na moça.
Depois falou para Oochigeaskw se sentar no lugar da esposa dentro do wigwam: aquele ao lado de onde o Invisível se sentava, junto à entrada. E quando ele chegou, terrível e maravilhoso, sorriu e falou:
“Então nós fomos descobertos!”
“Sim!”, disse a irmã. E assim Oochigeaskw se tornou sua esposa.
Word Tales. Compilação de Idries Shah
Octagon Press – London, 1991.
Tradução: Mônica C. Lepri – Niterói, 1996
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