De Che a V: Um Novo Herói, Para Uma Nova Geração

Google Imagens/Edição por Estético e Estático
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Estético e Estático · Salvador, BA
27/2/2012 · 0 · 0
 

Uma vez pensei que se eu pudesse encontrar com Fidel Castro, faria apenas uma única pergunta: Caro Comandante, o que o senhor acha do rosto do seu amigo Che, um dos maiores idealistas do socialismo mundial, ser hoje também, um dos produtos mais vendidos no planeta?

Não faço a menor ideia do que ele responderia...

Mas se eu fosse ele, replicaria: Tudo faz parte de uma conspiração capitalista para menosprezar a imagem do socialismo - e talvez não estivesse tão longe da verdade. A questão é: quem hoje em dia consegue dissociar o rosto do guerrilheiro argentino/cubano de um bóton? Ou uma camisa, ou pingente, ou tatuagem?

E mais perguntas...
Quem promoveu Che Guevara à produto, foram apenas os capitalistas? E quem consome todos esses souvenires? Também unicamente os capitalistas?

Para uma nova geração chegando ao mercado, população de mesada economicamente ativa e ávidos consumidores de novidades, todas essas perguntas não fazem muito sentido. Assim, como também não faz sentido um "Che idealista", anticapitalista, afinal, desde que eles se lembrem, sempre puderam comprá-lo para usar ou vestir, como seu Nike.

Não por acaso, tenho visto ultimamente a imagem de um outro personagem substituir gradativamente a de Guevara nas passeatas, shows e manifestações públicas de caráter político, me refiro a "V", personagem de uma série de romances gráficos (HQs) do famoso autor britânico Alan Moore.

V (e apenas V) é um herói, ou anti-herói, de posturas anarquistas que propõe uma teatral e inventiva revolução num mundo parecido com o que temos hoje. Como todo herói requer uma identidade falsa, V utiliza uma máscara de Guy Fawkes, ativista inglês que de fato existiu, participante da Conspiração da Pólvora, e que num desses lances de destino, tem seu sobrenome fonetica e visualmente similar à palavra inglesa Folks, que quer dizer Pessoas. Nada poderia ser mais providencialmente semiótico na criação de o novo ídolo das massas.

Um dos postulados teóricos de V, é a destruição do velhos ícones e símbolos. Para ele, estes ícones emanam poder, poder este, conferido simbolicamente pela sociedade, e que quando destruídos, não só perdem seu poder, como também deixam de simbolicamente oprimir o povo, que pode então se encorajar a insurreição.

No mundo de V, e existência de Che se torna difícil, não pela opressão da figura do guerrilheiro, mas pela pressão de uma verdade socialista que não tem encontrado escora, âncora, êxito ou repercussão no mundo contemporâneo, de uma decadente utopia cubana que não vingou, assomando-se a isso, à irrefutável contradição de ter um herói socialista como produto do capitalismo. Por quê então, não destruir mesmo os velhos ícones?

V não tem as contradições ou dicotomias de ideais econômicos academicistas, pois já nasce auto-assumido produto da indústria pop, dos quadrinhos para o cinema, como um dos filmes mais grandiloquentes dos últimos anos, e portanto, mais palatável ao gosto dos jovens da atualidade, mas não somente por isso, o discurso também é mais direto: devolva o poder ao povo, e deixe que o povo decida o que fazer, sem intermediários e sem instituições - sintomaticamente, é esta a tônica dos discursos dos movimentos de Ocupação e/ou Desocupação que tem se espalhado pelo mundo.

Há contudo uma semelhança na estratégia e na personalidade de ambos os personagens, Che e V, para eles o sacrifício de algumas vidas (e da própria viva) para atingir um bem maior, é um razoável custo benefício. Mas de que outra forma poderia se comportar um herói neste início de século que assume um um perfil intensidade trágica?

Uma outro ponto passível de observação é que os jovens contemporâneos, não vêem a menor graça numa estética de poder em que um único partido totalitarista, que se diz ungido pelo povo trabalhador, proíba esse mesmo povo de usar sua liberdade das mais variadas formas, como na China Socialista.

E é assim que vemos um produto do capitalismo cinematográfico hollywoodiano liderando as massas para a revolução da retomada de poder, num mundo onde as lideranças políticas são ineptas, com uma imagem associadas ao passado e ao "velho", e com ações sem graça e sem beleza. É neste contexto que V se coloca como alternativa criativa de ícone político da juventude.

E afinal, vale lembrar que mesmo a arte mais revolucionária já foi financiada pela elite, não é Picasso? O que posso dizer disso? Mais século XXI, conflituosa e deliciosamente impossível.


Por: Augusto Flávio Roque

Com reverberações em: www.salvadorpraja.com.br

e:http://esteticoeestatico.blogspot.com/

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