São poucos os DJs que podem falar com tanta propriedade sobre música como o Tahira. Ao longo de sua carreira ele dedicou muito tempo para pesquisa de ritmos brasileiros, latinos, africanos e suas misturas e influências nas mais diferentes vertentes. Da MPB á House Music, passando pelo funk, soul, nu-jazz... Está tudo ali no cardápio do DJ Tahira. Nesta entrevista ele fala com o produtor Tiago Barizon sobre carreira, mercado e, claro, música.
Barizon.Net - Tahira, conta prá gente como foi que você começou sua carreira. O que foi que te direcionou para a música e mais especificamente para o trabalho como DJ?
Tahira - Desde pequeno sempre gostei de musica. Quando tinha uns 10 anos o break pegou no Brasil. Fiquei bobo de ver os bboys dançando. Aà vi o filme Beat Street (que falava um pouco da historia dos guetos de New York e a cultura hip hop. Grafite, DJ, MC e bboys). Foi fatal. Pirei. Demorou um pouco. Cinco anos mais tarde comecei a me inteirar na cultura DJ.
Barizon.Net - Qual a importância de sua temporada em Londres para sua formação profissional?
Tahira - Música, com certeza. Ver como um paÃs de primeiro mundo dá importância para a cultura. Como a população consome e respeita quem trabalha com isso. O público lá entende muito de música. Todos os estilos musicais têm seu espaço, uma noite semanal e um programa de radio. As minorias musicais são fortes e estáveis. E a maioria das pessoas é eclética. Uma noite vão ouvir dub, na outra jazz, e na outra samba. Assim vai.
Barizon.Net - Seus sets são conhecidos por serem elegantes, charmosos, sem deixar de serem empolgantes e dançantes. Quando foi que você começou a se dedicar ao Nu Jazz e fazer essa pesquisa de ritmos latinos, africanos, brasileiros...?
Tahira - Londres foi um tapa na cara... A realidade batendo na porta. Mas minha pesquisa já vem de antes. Desde 97 acompanho o cenário jazz da Europa. Nessa época o acid jazz tradicional estava em decadência, e aà começaram a aparecer as misturas do jazz com outros estilos. Isso foi o pontapé inicial para tudo que vemos de Nu-Jazz atualmente.
E nessas misturas apareceram produtores com fortes influências dos ritmos latinos, africanos e brazucas. Aà percebi que algo novo estava rolando. Foi aà que começou minha pesquisa nessas áreas. Tudo que é novo tem referência no passado. Todo estilo novo é uma mistura de outros. Para fazer música nova tem que saber de música antiga. O novo não vive sem o velho.
Barizon.Net - Quais foram suas influências?
Tahira - Putz... Muita, muita coisa diferente. Meus primeiros discos foram uma coletânea de trilhas sonoras de seriados de ficção cientifica, o álbum do Van Halen 5150 e um do Modern Jazz Quartet, For Ellington. Por aà já dá pra ver a salada que eu gostava. (risos). Quando pequeno gravava os shows do Free Jazz Festival que passava na Globo. Lá conheci Courtney Pine, Yellow Jackets, Raul Mascarenhas, Lounge Lizards, Cama de Gato, Dianne Schurr e muitos outros. Depois com o lance do Break tive contato com sons tipo Kurtis Blow, Afrika Baambataa, Ice T, Chaka Khan, e no começo nos anos 90 foi o contato com os primórdios da House. Ainda quando ela tinha forte influência da música negra. Bomb The Bass, Simon Harris, S Express, Todd Terry etc etc. Talvez essas foram as influências iniciais que me levaram ao caminho da cultura DJ.
Barizon.Net - Você já viajou por muitos paÃses mostrando seus sets ecléticos e com muita música brasileira. Músicas que muitas vezes não são populares aqui no Brasil. Como você pode medir a aceitação da música brasileira fora daqui, através de sua experiência, por exemplo, na Ucrânia e Estônia?
Tahira - O ritmo da música brasileira é muito forte. ImpossÃvel ficar parado. O mesmo com a música latina e africana. Os europeus e americanos tem muita curiosidade porque é algo exótico para eles. O engraçado é que o que é hit aqui não é lá. Com exceção de alguns artistas. Mas basicamente o ritmo dita as pistas estrangeiras. Batucada, maracatu, samba jazz, forró, instrumentais antigos e as misturas brasileiras feitas no nordeste de Afro-Funk-Brazuca são fulminantes lá fora. Aqui o chato é que tem que ficar tocando hits conhecidos para o povo cantar. Lá, como eles não sabem a lÃngua eles querem é dançar.
Barizon.Net - Já faz algum tempo que o acesso à música e às ferramentas de produção foi facilitado, principalmente com a internet. Um aspecto positivo foi a abertura de um novo mercado e uma nova forma de distribuição para artistas emergentes. Como você sentiu isso? Tem coisas boas surgindo na cena?
Tahira - A melhor coisa que aconteceu para a música foi isso. Democratização. Antigamente tÃnhamos que ficar a mercê de uns manés só porque eles tinham mais grana e poderiam ter acesso a esse tipo de informação. Agora é tudo igual. Quem é bom se destaca. E aquele rico que tinha exclusividade de acesso à informação tem que mostrar seu valor. Caso contrário, tá fora.
Tem bastante coisa por aÃ. Acho que ainda estamos na fase de transição. Digo que existe um delay com a Europa de uns 4 anos. Demorou, mas o preconceito por parte de músicos está acabando. E os produtores (os DJs ainda não) estão ficando ecléticos e perceberam que para fazer musica é preciso um pouco de background em outros estilos. O povo tá sacando... Daqui a dois anos o negócio vai ficar bom. Pode ter certeza. O Brasil vai ser uma fonte de música muito rica de novo.
O mais legal na parte dos músicos é que a molecada que toca instrumentos hoje é fã de St. Germain, Aqua Bassino, A Tribe Called Quest, Jazanova. A molecada já entende a linguagem. Não é como os músicos antigos que são fãs de Led Zeppelin (nada contra os fãs de Robert Plant, pelo amor de Deus!! Eu também gosto.) querendo fazer som de DJ para ganhar dinheiro. Só vai sair b**** mesmo.
Barizon.Net - Como toda revolução, aspectos negativos puderam ser percebidos também. A banalização do acesso é um deles. Qualquer um pode juntar em pouco tempo um vasto repertório e tocar na noite. Todo mundo quer ser DJ. Isso atrapalha aqueles DJs que fazem um trabalho sério de pesquisa ou o próprio meio acaba separando os bons dos maus profissionais?
Tahira - O problema do Brasil é cultura. O povo daqui não tem. Então não sabe peneirar o que escuta. Fica a mercê das modas de verão. Ouvem até enjoar, aà quando aparece outra joga fora o que ouviu (fala que é uma m****) e vai pra outra... Os DJs são a mesma coisa. Mas a própria história mostra isso. Na noite esses DJs não tem durabilidade. DJ sem personalidade é trocado por outro igual. Eles vivem de influência e não de competência. Independente de moda, os bons ficam. É lógico que esses DJs temporários atrapalham um pouco, mas nada demais.
Barizon.Net - Em sua opinião, o que falta no cenário musical brasileiro? Quais os entraves para os artistas e músicos que querem conquistar com um trabalho que tenha qualidade?
Tahira - O povo adora copiar. É incrÃvel. Ninguém quer inventar nada. Um exemplo básico: toco no Sarajevo. Um lugar que sempre tem bandas tocando, todo dia. Cara, não aguento mais ouvir bandas tocando música brasileira e o baterista cair no drum’n’bass. Cara não se liga. Isso já se esgotou. Já vai fazer uns oito anos que isso foi criado. Cheeeeeeega!!
De preferência crie, se for copiar copia logo, mas não depois de 5 anos, né?
Barizon.Net - O que o Alexandre Tahira ouve quando está em casa e quer descansar um pouco, sem pensar com sua mente musical?
Tahira - Cara, gosto de um pouco de tudo. Tava ouvindo um “The Best of†do Henri Mancini. Muito bom. Escuto a Antena Um bastante, a programação mudou um pouco, tá bem melhor que antes. Ah! O álbum da Leslie Feist novo é bem gostoso de ouvir. E nesse exato momento tô ouvindo o álbum do Toco, um artista brasileiro que está sendo lançado pela Schema (selo italiano). Muito bom, samba tradicional. Mas sem cair nos standards. Por enquanto é o melhor artista que ouvi de música brasileira fazendo som tradicional.
Barizon.Net - Se não fosse pela música, o que você faria profissionalmente que o deixasse igualmente satisfeito?
Tahira - Cara, sou fotógrafo também. Fiz uma exposição pela Caixa Cultural há uns 3 anos. Adoraria me dedicar a trampos autorais nessa área.
Barizon.Net - O que podemos esperar do DJ Tahira? Quais os projetos, quais os planos?
Tahira - Outra tour em 2007. Começar a fazer música. E me envolver mais no quesito de descobrir novos talentos na música. Por enquanto é isso. Fora as cartas na manga que nunca podemos revelar! heheheheheehe...
Links: http://www.barizon.net/content/view/229/5/
http://www.myspace.com/djtahira
http://www.drumbass.com.br/ebs/
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