Estação Mangueira, agora na Ipiranga com São João

Divulgação
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Jones Rossi · São Paulo, SP
29/6/2006 · 129 · 0
 

Aos 94 anos (92 declarados), José Clementino Bispo dos Santos, o Jamelão, continua ativo como sempre esteve na Estação Primeira de Mangueira. A prova inconteste pode ser tirada às quartas-feiras, no Bar Brahma, no centro de São Paulo. Desde novembro do ano passado, o maior intérprete do carnaval carioca vem se apresentando toda semana com lotação máxima.

Na platéia, bambas do samba como Luiz Ayrão e Leci Brandão se comportam como tietes adolescentes perto do grande mestre. "Impressionante, aos 94 anos ainda cantando. Nem Frank Sinatra conseguiu isto", empolgava-se Ayrão, sentado na primeira cadeira em frente ao palco para não perder nada. Leci Brandão, mais atrás, também se derretia em elogios. "Nos Estados Unidos, Jamelão seria milionário."

A reverência ao mestre, como todos o chamam à medida que ele caminha por entre as mesas em direção ao palco, é compartilhada pelo público. Todos silenciam quando ele finalmente se acomoda no banquinho. De terno marrom, blusa preta de gola alta para proteger do frio da noite paulistana, bengala de madeira em punho, chapéu e sapatos que testemunharam boa parte de sua septuagenária carreira, Jamelão começa a conversar com a platéia. "Deixa eu pensar bem no que eu vou falar, porque quem fala demais às vezes queima a língua", vaticinava, enquanto fazia gestos com as mãos, sempre amarradas por elásticos comuns, desses de escritório, por razões não reveladas. "O elástico é coisa dele. Não pode colocar o motivo na reportagem", avisava a assessora Beth Dutra.

Enquanto isto, o velho intérprete começa a improvisar um discurso sobre sua idade. "Sou um coroa que ainda não recebeu ordens de subir." Já se preparava para prosseguir quando viu Luiz Ayrão em pé, tentando tirar uma foto com seu celular. "Quer tirar fotografia, tira. Pensam que sou grande coisa, mas não sou. Olha aí... Luiz Ayrão... virou fotógrafo!", disse, quase sorrindo, contrariando a fama de mal-humorado. E começou o show cantando Boa Noite, uma música de sua autoria (Boa noite/ Você por aqui é novidade/ Louvado seja Deus nosso senhor/Quem lhe trouxe aqui foi a saudade/Da recordação do nosso amor).

Na segunda canção, esquece a letra. Mas segue improvisando versos feitos na hora e é aplaudidíssimo. Termina a música, olha para a platéia em busca de alguém até que encontra. É o doutor Fábio Rossi, cardiologista do Hospital Dante Pazanezzi, que foi acompanhar a apresentação do paciente. "Estou sob as ordens do doutor Fábio. Vou tomar só uma, só uma...", justificou-se, misturando um pouco de água tônica ao copo de uísque equilibrado perto do microfone. A reportagem se espanta e pergunta ao doutor Fábio: "Ele está tomando uísque?" "Está." "E pode?" Ao que o médico responde apenas com uma careta de: "E quem sou eu para proibir?"

Talvez para não preocupar o médico e a platéia, Jamelão conta a história do compositor Lúcio Cardim, que foi seu amigo. "Aqui em São Paulo havia um dos maiores letristas que já conheci, mas não era muito boêmio. Bebia café, água mineral, outras perfumarias. De não beber, morreu de cirrose. Este é o meu catecismo: quem bebe morre, quem não bebe morre também. Por isso de vez em quando dou um tapa no beiço." Em homenagem ao parceiro de música, canta Matriz e Filial, composição de Cardim. Sem parar, preenche o Bar Brahma com sua voz. "Olha aquela menina novinha ali cantando", interrompia Ayrão, apontando para uma jovem que sabia todas as músicas de cor. Perto dali, na mesa ao lado, Marta Mendonça, mulher de Altemar Dutra e assídua freqüentadora, assistia a tudo emocionada, de lenço na mão.

Cheio de energia, pede para todo mundo cantar os primeiros versos do samba-enredo da Mangueira de 1986, aquele do "xinxim e acarajé/ tamborim e samba no pé." Mas Jamelão não se poupa. A cada hora chegam cada vez mais pedidos de músicas, sempre escritos em guardanapos. Ele pega um por um, ajeita os óculos para ler e diz se pode ou não atender o pedido. Quando pode, puxa uma pasta velha ao seu lado, e tira de lá papéis envelhecidos, com as bordas gastas, com as letras. Depois de 17 músicas, o copo de uísque ao seu lado já está vazio. Jamelão se prepara para encerrar o show. Só por galhofa, cantarola: "O papai já vai embora." A platéia devolve um sonoro "Nãooo."

Então é a vez de cantar o hino da Mangueira. O cenário é uma beleza. Jamelão parece que ainda está no começo de sua apresentação. Quando termina, solta um lacônico "acabou. É só". Se retira aplaudido de pé. Agradece a todos. Vai devagarinho, se apoiando na bengala, para o tranqüilo bar que fica na parte de trás do Brahma. A reportagem vai junto, advertida de que Chico Pinheiro, apresentador do SPTV, foi xingado pelo cantor dias atrás ("mas acabaram virando amigos", ressalva Álvaro Aoas, proprietário do Bar Brahma). Pergunta se pensa em se aposentar. "Você já viu alguém se aposentar da música? Enquanto alguém quiser me ouvir, vou cantar."

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