Fernanda Guimarães lança seu 1º CD, VERBO LIVRE

Flávia Correia
Show do CD Verbo Livre em Maceió: 04 de março, 20h - Teatro Gustavo Leite
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Márcia Shoo. · Rio de Janeiro, RJ
2/3/2010 · 2 · 1
 

Uma coisa brotada, e essa coisa é Verbo Livre, o primeiro disco de Fernanda Guimarães. Cultivado com o calor dos 10 anos de carreira da intérprete e compositora alagoana nasce um fruto maduro, suculento e delicado de seu encontro maior com o prazer, a intimidade e a dedicação integral à música.

Tem 28 anos e há dois mora no Rio de Janeiro. Saiu de Maceió, capital alagoana, para gravar seu CD após um convite recebido pela Saladesom Records – selo do músico e produtor André Agra, pernambucano radicado no Rio, considerado uma das grandes revelações da atual colheita fonográfica independente, indicado pelo Prêmio Rival de Melhor Produtor. É o próprio quem assina a direção musical, produção, arranjos e mixagem de Verbo Livre.

Sobre o disco, que Fernanda assume a co-produção, a artista explica ser o resumo de sua vida pelos palcos, onde liderou bandas por muitos anos, como a experiente e carismática Zero82; foi finalista nacional de grandes festivais de música; dividiu palco e abriu shows de artistas como Djavan, Flávio Venturini, Maria Rita e Vanessa da Mata; produziu e atuou em projetos musicais aclamados por público e crítica, como o Bossa + Nova – uma homenagem aos compositores do gênero realizada nos palcos por oito mulheres intérpretes e instrumentistas – e o 4Jazz, quarteto jazzístico de primeira linha que marca sucesso nas noites de Maceió. Fernanda criou um estilo muito próprio e cativante de interpretar canções nacionais e internacionais do pop ao jazz.

Levou tudo embora para o Rio e juntou a sua fase atual de interação com um dos cenários musicais mais observados do mundo. Entre descobertas, aprimoramentos, afinidades e contribuições da nova e da veterana música brasileira, Fernanda misturou no ponto certo os temperos suaves e apimentados das duas cidades para dar asas a Verbo Livre. O disco tem “poesia, cachaça e pão” com “tom tocado pela tarde ou de manhã”, como contemplam duas das canções presentes no CD. Tem vivacidade de areia e mar, temperamento variado de sol e lua, ginga de coqueiros ao vento, sem perder o traço urbano e cosmopolita na sonoridade. Se Verbo Livre é uma imagem, certamente é tropicana e elegante. Basta um passeio prévio pelo encarte do disco, cuidadosamente elaborado pela fotógrafa e designer gráfico alagoana Flávia Correia, que assina a autoria de todas as imagens e a execução gráfica do material. A narrativa visual tem poesia à parte.

O repertório de Verbo Livre foi construído por Fernanda e André Agra durante um longo processo de pesquisas e paqueras com compositores e composições do passado e da atualidade. Após alguns achados, mudanças e surpresas na lista, as 13 faixas do CD foram amarradas com ecletismo em doses de balanço e minimalismo latinos, principalmente de ritmos brasileiros, com letras que celebram sentidos e olhares femininos. Sutileza, sensualidade, melancolia, beleza natural, jogo de cintura e espírito guerreiro estão contidos nas canções.

Fernanda tem três composições próprias no disco: "Sobre o Mar", "Farol da Noite" e "Todo Tom", baladas confessamente ao melhor estilo Djavan, que exprimem relações poéticas bastante ligadas aos elementos e cenários de sua terra, bem como as suas experiências de vida.

"Verbo Livre", canção que dá nome ao CD, é uma composição do parceiro Fernando Lhama, gravada com um swingado astral de guitarras, metais e percussão. Afirma sem riscos que é o título do disco. Lhama participa ainda com a autoria de "Desabafo", que no CD virou um gostoso e chorado samba de partido alto. Um convite para sambar cantando.

Três clássicos ganharam roupa nova e emoção repaginada nas interpretações de Fernanda Guimarães. Uma delas é a salsa cubana De qué callada manera, de Pablo Milanés e Nicola Guillen, junto à versão em português Como se fosse a primavera, de Chico Buarque, na qual Fernanda faz um vibrante e elegante dueto com o cantor João Pinheiro. Outra é Bonita, de Tom Jobim e Ray Gilbert, que caiu deliciosamente sedutora na voz de Fernanda e nos arranjos jazzísticos de uma bossa com sutis pitadas eletrônicas.

O terceiro clássico é Kalu, composta pelo fluminense Humberto Teixeira, em 1952, especialmente para Dalva de Oliveira. A canção, um adorável lamento romântico sertanejo, é cantada à capela por Fernanda antes da entrada de "Feitiço Santo", de Marcus Lima e Elisa Lucinda, que por sua vez é um doce poema de devoção aos encantos do amor. A música chega acompanhada do choro do acordeon de Marcelo Caldi, e a interpretação única de Fernanda chega a conter o fôlego. A dupla Marcus e Elisa ainda assina a gostosa e chacoalhada "Danada", segunda faixa do disco, com a qual Fernanda dá entrada ao molejo e à sensualidade de Verbo Livre.

Para completar o primor das interpretações do disco, Edu Krieger entregou sua inédita "Catarina Guerreira" a um forte hit feminino bem ao toque do afoxé. Já Fred Martins, em parceria com Marcelo Diniz e Manoel Gomes, apostaram em suas canções "Tudo Embora" e "Olhos em Chamas" para transformarem-se em dois excelentes hits na voz de Fernanda, um do pop e outro do samba, com ares sofisticados.

O disco traz um nada fraco time de músicos e arranjadores. Tem violões e guitarras de Norberto Vinhas; cello de Lui Coimbra; 7 cordas de Fábio Nin; Flávio Santos na bateria; cavaquinho de Nilze Carvalho; baixos de Fernando Nunes, Felix Baigon e Magno Vito; percussão de Jadna Zimmermann e Fabiano Salek; piano e acordeon de Marcelo Caldi; sax e flautas de PC Castilho; vocais de Fernanda Guimarães e Pedro Lima.

Verbo Livre é uma conquista natural de Fernanda Guimarães. Depois de tanto viver e reconhecer-se pelos palcos, a experiência de gravar seu primeiro disco só reafirma que é nos palcos que ela deve estar, como agora e a cada próximo disco. Seu jeito curtido, danado e competente, somado ao veludo, firmeza e afinação impecáveis de sua voz, levantam a certeza de que entre Maceió e Rio de Janeiro há mais sotaques em concordância do que supõem os ouvidos fora deste percurso.

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Carlos ETC
 

Uma observação (bastante atrasada): Humberto Teixeira é cearense da cidade do Iguatu.

Carlos ETC · Salvador, BA 20/8/2012 17:41
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