“Alvorada festiva é assim, a gente tem que guentar as perna e sambá até mais tarde”
Sr. Luís, cidadão laranjeirense e brincante do Lambe-Sujo
Chegar à Laranjeiras durante a festa dos Lambe-Sujos e Caboclinhos é como viajar para um outro tempo, em que naquele espaço a lei é outra. Indo atrás dos grupos, fugindo do chicote dos taqueiros, tentando alcançar o melhor ângulo das batalhas. A adrenalina toma conta dos brincantes durante a festa e essa há de nos acompanhar durante todo o dia.
O cheiro doce do melaço da cana, a cor fosca do vermelho do caboclo, a cor negra linda “brilhenta” da pele dos Lambe-Sujos, os foguetes e batuques de marcação. Todos os sentidos envolvidos na poética e espontânea tradução da história do Brasil.
Maracatu no tambor e o samba no pé. Os músicos do grupo Lambe-Sujo são incansáveis. Todo um dia de caceteiras, alfaias e onça, e muito gogó pra entoar os cânticos. Nas passadas ligeiras, dá tempo de dar uma sambada entre uma virada e outra. O coro do grupo é sempre mais encorpado, tamanha euforia dos brincantes, a alegria contagiante dos sambas sincopados.
A diversão infantil de “melar” e ser “melado” por alguns é evitada, mas não há como sair de Laranjeiras num dia de Lambe-Sujo e Caboclinhos sem alguém lhe dar um abraço melado, ou um “Dá, Dá, iô-iô” que não resulte numa “mãozinha” de cabaú.
Os Lambe-Sujos lançam até moda. Suas indumentárias tradicionais são incrementadas com óculos escuros, chupetas, colares e pulseiras. A festa, que possui uma maioria de figuras masculinas, agora é invadida por modelitos femininos feitos com a flanela das guritas.
A timidez encantadora dos caboclinhos, algozes dos negros, desfila pelas ruas com seus passos lépidos e o toque solitário da caixa. Penas de pavão e de galo enfeitam os cocares dos índios, a maioria ainda criança. A princesinha caminha para o seu seqüestro majestosa e coroada com sua escolta vermelha.
As embaixadas são verdadeiros eclipses, êxtases da evolução dos dois grupos. Batalhas simbólicas, momentos de atenção em que nem mesmo na eminência da luta, cessam os sambas. A batalha final consagra os índios vencedores, que saem com os negros a seu encalço a pedir esmolas em nome dos vencedores. O último a se render é o negro vigilante, aquele que vê o sol de mais perto, bem como vê do alto seu grupo se render, ainda festivamente, é claro.
O brilho da festa é ofuscado pelos brincantes de ânimos exaltados, não zeladores da tranqüilidade e da festa em si. O policiamento foi reforçado por forças de cidades vizinhas, e atrás do maracatu dos negros seguia o carro da polícia. Uma pena, tanta probabilidade de problemas num evento tão singular e significativo.
Nem tudo são flores. Mas o encantamento com certeza sobressai os percalços. Vida eterna, a essa luta que é mais pela Cultura Popular Brasileira, do que entre índios e negros brasileiros.
Os Lambe-Sujos
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Culturas...
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