Na linha da compreensão

Laryssa Caetano
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Revista Poranduba · Campo Grande, MS
5/8/2011 · 4 · 0
 

O trilinguismo malabarista na linha da fronteira do Brasil com o Paraguai gerou o nhengatu

“Sou nascida, criada e malcriada na fronteira”, ri Elizabeth Villalba. Aprendeu o guarani no berço paraguaio, espanhol na escola e português na rua. “;Para sobreviver, né? Porque a maioria dos meus clientes é de brasileiros” explica. Dona da cantina La Frontera, nome sugestivo para quem está situada exatamente na linha internacional (a fronteira entre Ponta Porã e Juan Pedro Caballero), Elisabeth já morou na Argentina e Espanha e se encanta com os tons dos idiomas que fala. “A mi me suena bueno, como portugues tambien, que es distinto”, emenda em castelhano. Ela atende os turistas que vão fazer compras no país vizinho, em busca de preços mais baixos graças aos impostos irrisórios.

Além do nhengatu, a poliglota Islene Mabel Lopez encontrou um jeito de aprender inglês. Já para a vendedora Priscila Aguilera o trilinguismo soa tão natural que não percebe quando mistura, mesmo quando decide falar um de cada vez. “Só percebo pela cara do cliente, de que não está entendendo nada”, diverte-se.

O sentimento de dupla nacionalidade só é resolvido em pensamento. “Eu me considero fronteiriça, mas penso em castelhano”, conta a paraguaia Nidia Alcaraz. Casada com brasileiro, a atendente de caixa em loja de importados Nidia aprendeu em casa os três idiomas, conseguiu o emprego por ser trilíngue e sente-se obrigada a passar o legado aos filhos brasiguaios. “Eles dependem de mim para aprender os idiomas, é fundamental para viver na linha”, completa.

Nome também dado à moeda paraguaia, o guarani é uma das línguas oficiais do país vizinho, ao lado do espanhol, e circula em duas vias. Ora é língua chula, de índios pedintes, ora é falado como o orgulho da nação. O castelhano e o português são compreendidos de ambos os lados, mas, tímidos, os moradores de Ponta Porã (MS) e Pedro Juan Caballero (Paraguai) não admitem falar o idioma do outro por vergonha de falar errado. É esta é apenas uma das peculiaridades da fronteira.

Como não se escreve em nhengatu, é preciso estar com os ouvidos atentos para perceber o momento tênue em que os idiomas sobem no picadeiro e trocam de malabares. Nhengatu se vivencia. É presenciado pela transição perfeita dos três idiomas. Natural, rápido, mutante, os idiomas costuram um diálogo rápido como, por uma sinfonia, onde cada instrumento tem o momento certo de entrar na música e, somente músicos e um maestro invisível conhecem a ordem, o tom e a melodia. Às vezes, a nota é tocada em português e, se desafina a corda em guarani, sempre tem o castelhano para remendar a conversa.

Lê-se nheêngatu, que significa “falador, fofoqueiro”. Falador para contar piada, para rir do turista que se perde nos meandros das línguas, para negociar com os clientes. Fofoqueiro para se divertir à custa dos outros, para confidenciar uma novidade. Para explicar exatamente a multiplicidade do que sente em expressões que não cabem em um idioma, divide-se em três.

A fronteira se apresenta mista, com pai paraguaio, mãe brasileira e filho “internacional”. Dos dois lados, sotaques e semblantes arrastados que indicam a mesma origem ou, pelo menos, origens próximas. A chipa, o tereré e o sotaque cruzaram a linha internacional, mas muito ainda desses povos permanece separado pelos quarteirões adentro de cada cidade. Em Pedro Juan Caballero, o estilo próprio de cidade pequena paraguaia impera com a arquitetura de influência espanhola e ruas de pedra. Um botequim oferece empanada de chilenita, uma espécie de pastel com recheio de carne moída, ovos e uva passas, temperada com pimenta e gosto adocicado. Muitos moradores vêm do interior para vender verduras frescas na feira local. No hablan portugues de todo, a veces ni tampoco castellano.

Do outro lado, no Brasil, à mesma distância da linha, o guarani já não é ouvido e o morador demonstra esforço para compreender o castelhano. À medida que se distancia da fronteira de ambos os lados, ela parece suja, feia, perigosa. Uma vez ali, percebe-se a riqueza das mesclas e entende-se porque o nhengatu escolheu a fronteira para vivir. Ele só sobrevive neste burburinho, entre os camelôs, as bugigangas e os infinitos ambulantes que oferecem de tudo. De tudo.

“Estrangeirismos”

Resultado da criatividade de moradores de países vizinhos, o nhengatu foi a solução encontrada para o convívio entre os fronteiriços. Vizinhos que, metaforiacamente, atravessam a rua para pedir uma xícara de açúcar, encontram infinitas maneiras de se fazer. O nhengatu permite que paraguaios e brasileiros mantenham a identidade, negociem com o cliente e não se percam com a linha transitória e invisível de fronteira.

Na fronteira também se usam três moedas. Os preços dos produtos são cotados em dólar, paga-se em real convertido e se pode aceitar ou não o troco em guarani. Como Ponta Porã é habitada desde o século XIX, ao se tornar ponto de descanso para viajantes, a fronteira desenvolveu um pólo comercial para esses cidadãos em trânsito e, depois que a exportação da erva-mate decaiu, a venda de produtos importados na década de 1960 reergueu a região. Dona do maior erval nativo já encontrado, a região exportava a iguaria que aquecia as guampas sulistas, argentinas e paraguaias – espécie de cuia feita a partir de chifres bovinos. Ícone, bebida quente ou gelada, por causa da influência indígena e as altas temperaturas no verão, o tereré (gelado) e o mate (ou chimarrão) se instalaram junto aos costumes de quem ia e vinha.

O limite entre os países foi firmado em 1494, pelo Tratado de Tordesilhas, que dividiu o mundo entre Espanha e Portugal. Somente em 1777 é que a primeira linha limite foi estabelecida. O próximo marco histórico é em 1865, quando o exército paraguaio, liderado por Solano Lopez, invade o Brasil, na esperança de conseguir uma saída para o oceano. Começa, então, a Guerra do Paraguai. Perdedor na batalha, o país tem as terras confiscadas pelos inimigos. O que antes era Paraguai foi agregado às terras da província de Mato Grosso.

Do lado de cá, Ponta Porã, do lado de lá, Pedro Juan Caballero. As duas cidades dividem o lucro e o preço de serem irmãs de países diferentes. Comércio aquecido o ano todo, principalmente aos fins de semana e feriados, a fronteira seca também é alvo de quem quer fugir sem deixar rastros e porta de entrada de produtos ilícitos. E deu-se a fama.

Fama que incomoda a todas e deixa o desconforto entre os fronteiriços exposto. Conversam pouco, abaixam a cabeça. As palavras mágicas foto-entrevista-jornalista transformam qualquer sorridente vendedor no mais taciturno dos seres. Em seguida, na rua, descubro o motivo de tanta desconfiança. “Vocês vem para cá só para tirar foto nossa e mandar pro Fantástico dizendo que somos trombadinhas”, reclamam em português enquanto deixam algumas palavras soltas e incompreensíveis em guarani.

Quando a questão é esclarecida, a nuvem de ambulantes se dissipa e a tensão se ameniza. “Somos todos pais de família, dona, não tem bandido aqui não”, finaliza Bruno, vendedor de perfumes. Com documentos brasileiros, que faz questão de mostrar, e sotaque guarani, Bruno reclama da publicidade negativa que a sua terra de dois lados recebe. “Aqui é zona de fronteira, vai ter bandido, claro que vai, mas é assim em todo lugar, não acho certo mostrar só esse lado”, finaliza, enquanto recosta no poste da esquina com as ruas Rodriguez de Francia e Curupayty.

Na linha paraguaia, o regatón e a cachaca – ambos ritmos tropicais –, lideram no rádio. Do lado brasileiro, música sertaneja e axé. O lugar-comum é confuso: quando Brasil lhe parece, é bem provável que seja Paraguai. A física afirma que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Os 200 mil habitantes de Ponta Porã e de Pedro Juan Caballero mostram o contrário. Passam seus dias cruzando de um lado para o outro da fronteira sem se sentir estrangeiros em nenhum.

Por Laryssa Caetano

*Esta matéria foi editada e faz parte da edição nº 2 da Revista Overmundo.

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