Um dos momentos muito felizes da curadoria nesta Bienal de São Paulo está na passagem entre os dois “lados†do terceiro andar do prédio. No projeto arquitetônico labirÃntico e fragmentado proposto por Marta Bogéa, outro ponto alto desta edição, há um falso fim de espaço expositivo na altura do terreiro A pele do invisÃvel, criado pelo esloveno Tobias Putrih, com a instalação A origem do terceiro mundo, de Henrique Oliveira, funcionando como uma das passagens possÃveis para o espaço onde estão as obras de Leonilson e Efrain Almeida. Migramos assim do corpo da cidade e da arte para o corpo propriamente dito, com os tecidos bordados por Leonilson e obra de Oliveira funcionando como encruzilhadas entre estas duas vertentes.
Batizado de Alvorada, o terreiro de Tobias Putrih faz referência à impressionante fachada criada por Oscar Niemeyer para o Palácio da Alvorada, em BrasÃlia, com uma única coluna, estelar, repetida em série. Este é um espaço dedicado à exibição de vÃdeos e vai funcionar ininterruptamente na Bienal. O interessante é que o artista esloveno corrompe a visão de Niemeyer com um corpo menos harmônico e menos otimista que nossa arquitetura moderna. Por trás do arremedo de palácio há um revestimento de papelão e fita adesiva, revelando cicatrizes e remendos da cidade. O nome do prédio, Alvorada, também é digno de nota: um novo amanhecer é também uma esperança e as marcas de fita crepe por trás da beleza de Niemeyer mostram que um dia não começa sem a herança da noite passada.
Metáfora para a urbe, tão presente nesta Bienal, mas também alusão a outros corpos – a arte, a pele – o terreiro tem uma vizinhança que só lhe acrescenta sentidos. De dentro da estrutura de Putrih se enxerga Faça você mesmo: território liberdade e O paÃs inventado (Dias-de-Deus-dará), dois clássicos de Antonio Dias.
A bandeira vermelha do segundo trabalho é feita de um retângulo com o canto superior direito ausente, recortado – marca recorrente na obra do artista – , sinal de uma falta que aponta para a impossibilidade de uma totalidade, de um absoluto, levando territórios e definições para o eixo das mutações constantes. Fincar uma bandeira incompleta relê de muitas maneiras o gesto de demarcação de fronteiras, de apropriação de terreno, de conquista de Oeste. Cigano na vida e na obra, Dias também cria um mapa virtual, mutável, em Território liberdade – há um espaço simbólico a ser explorado.
Se por um lado saÃmos do terreiro enxergando Antonio Dias, por outro se vê Alvorada de dentro da sala onde está O Sol me ensinou que a história não é tudo, de Daniel Senise. Desenvolvimento e radicalização de Eva, trabalho apresentado no fim do ano passado no Centro Cultural São Paulo, a instalação reveste as paredes do espaço com a “outra pintura†que caracteriza o trabalho do artista carioca. Placas feitas a partir do processamento de restos de convites, folders e catálogos de exposições constroem e pintam o espaço de arte com os vestÃgios e os resÃduos da própria arte.
Outra aproximação curiosa é a de Skira, trabalho de Senise que fica do lado de fora da sala do artista, com a janela do prédio da Fundação Bienal, outra obra de Niemeyer. Feito de páginas de livros de arte marcadas pela falta de uma imagem, a pintura sem pincel e sem tinta constrói com colagem de papéis de tons diferentes um grande escaninho ou uma tÃpica fachada modernista. Se por uma lado se comunica com Alvorada pela alusão direta à arquitetura, por outro o trabalho de Senise cria um diálogo com as faltas do território de Antonio Dias.
Como Putrih, Senise está falando de memória e de deriva. Em última instância, ambos discutem também a possibilidade de sobrevivência da arte em um mundo repleto de imagens e transbordando excessos. Esta ideia é ampliada pelo fato de A pele do invisÃvel ser o terreiro da reprodução de outros vÃdeos, isto é, ser o palco contÃnuo para o movimento e a efemeridade das imagens. Há uma costura sutil e impressionante feita pelos curadores Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos na construção deste outro mapa que arranja as proximidades entre trabalhos em uma Bienal.
A passagem criada pelo trabalho de Henrique Oliveira é um túnel real e simbólico para os pensamentos da curadoria. Dá corpo, literalmente, a este segmento da exposição. A forma da saÃda da instalação do artista e o tÃtulo do trabalho nos levam diretamente para a pintura A origem do mundo, de Gustave Courbet. É interessante pensar numa reinvenção desta vulva clássica, que na obra de agora é revestida com tapumes precários usados em construção. Não estamos falando do mundo, aquele criado biblicamente por Adão e Eva, mas ironicamente do Terceiro Mundo. O buraco é mais embaixo, com perdão do trocadilho.
De qualquer maneira, há no trabalho do artista paulista uma fusão do corpo orgânico, com seus fluidos, sua pele e sua imperfeição, com as veias e artérias urbanas. E ainda com um outro corpo, quase invisÃvel, que permeia e dá feições aos extratos sociais. É como se Oliveira tornasse os indicadores demográficos mais tangÃveis, dando-lhes carne e vÃsceras. Parindo-os, enfim.
A fenda de A origem do Terceiro Mundo deságua nos bordados e na pintura de Leonilson. Cor, corpo e diário Ãntimo reunidos em um só suporte, a obra do artista se relaciona diretamente com o “outro lado†do túnel, não só por questões estéticas, mas também por outras, que tampouco são irrelevantes: as do afeto. Leonilson é contemporâneo de Senise e ambos são expoentes de uma geração que, mais do que retomar a pintura, deu a ela novos alicerces. Os dois foram grandes amigos.
Para o meu vizinho de sonhos (1991) , um dos trabalhos de Leonilson incluÃdos na exposição, é quase uma ponte para a bandeira faltosa de Antonio Dias. Morando fora do Brasil desde os anos 1960, Dias recebeu Leonilson em Milão, quando a carreira do pintor começava a decolar. Também é um grande colecionador do artista, que morreu vÃtima da Aids em 1993.
As marcas do corpo, presentes na vida e na obra de Leonilson, também estão nos autorretratos escultóricos de Efrain Almeida. Talhadas em madeira, estas peças têm como tÃtulo o nome do artista e mostram seu corpo tatuado por motivos da cultura popular brasileira. O que se apresenta aqui, mais uma vez, é um território nublado e intangÃvel entre as figuras do artista e do homem. Do palácio mendigo de Tobias Putrih à s miniaturas que Efrain cria de si mesmo, o que se vê sempre é uma membrana translúcida e frágil. Ela deveria delimitar arte e vida, mas o que estas obras afirmam é que, quanto mais se tenta separar, mais estas fronteiras se amalgamam.
No lugar do torniquete, o que há é a sangria, o fluxo, a enchente.
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Texto originalmente publicado em meu blog: http://daniname.wordpress.com
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