O Mundo Certo de Werneck

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Rai Junior · Rio de Janeiro, RJ
17/4/2011 · 7 · 0
 

Em "Sonhos Roubados", de Sandra Werneck, tudo me parece certo. É o primeiro filme que assisto desta autora e me impressiono com as qualidades das escolhas e acertos nas formas.

A fotografia simples parece dançar conforme os tipos de música daquelas atmosferas, do funk do baile ao baile de 15 anos. As locações só não se tornam as mais verossímeis possíveis pelo apelo dramático da personagem de Nanda Costa jogada no barro de um ermo chuvoso... - me parece que tudo seria melhor se acontecesse ali mesmo no complexo da favela, em um microcosmo, evidenciando o mundo pequeno e limitado, com muros à guiza de fronteiras como já o resto do filme coloca. O colorido dos figurinos dessas extraordinariamente bem escolhidas meninas enche os olhos voluptuosos do espectador tarado por sobreposições ao cinza dos concretos e alaranjado dos blocos sem acabamento. Cada enquadramento bem preenchido pela figuração crível me parece estudado como o interior de cada personagem, como se tivesse partido da opinião do ator - da forma como ele concebeu aquele mundo pra si e pra sua persona.

Marieta Severo me parecia estranha ali. Não consegui me desviar das idéias pré-concebidas que a atriz traz consigo, desde "ex-mulher de Chico Buarque" e "Dona Nenê da Grande Família". E cabeleireira? Tive dificuldades para me distanciar e entendê-la como a proposta parece pedir. Mas, mesmo assim, não foge à este mundo certo de Sandra, pois que estava ela ali em seu minimundo exato, um salão de beleza que não é estranho à ninguém e nem tão familiar assim.

E Nanda Costa, com sua beleza adolescente que parece não ter fim, nos seduz mais uma vez e, em algumas cenas, pelos braços de MV Bill que, surpreendentemente (para mim), se mostra um ótimo ator nessa película. E a recifense Kika nos lembra que nem tudo ali é Rio de Janeiro, que o microcosmo apresentado está em todo canto e nas mais tenras idades, como também nos diz Amanda Diniz, a pequenina "autista" tímida que se transforma naquela adolescente cheia de charme e sensualidade.

O tema não nos é novidade, mas as relações de amizade e companheirismo à volta dele nos é. As heroinas compartilhando seus segredos e experiências deixa-nos a grande impressão de normalidade para todos os atos e atenua o impacto das comunicações visuais e textuais. E, por mais deturpadas que as relações externas à elas sejam, concluem alicerces reais para a vida das personagens que, então, não são baseadas na violência e descaso de um mundo corrupto e estranho, mas nos novos parâmetros estabelecidos na sociedade e na família brasileira.

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