o outro lado da mesma moeda

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Thaysa · Campo Grande, MS
12/5/2011 · 1 · 1
 

Esse texto é uma reflexão sobre a matéria de capa da edição 67 do Diário Digital, publicada em 11/05/2011, facilmente encontrada no excelente arquivo do site. Por gentileza, caro leitor, procure a matéria mencionada para entender o caso, não coloco o link porque o site do jornal não direciona corretamente.

Passei 4 anos na universidade com uma turma que, entrando no último semestre, se mostra cada vez mais hostil e cada vez mais ostensiva, e que possui jornalistas tão ignorantes com os quais não se pode conversar. Mais que irritação, sinto tristeza. Nunca fui do tipo idealista-revolucionária-quero-mudar-o-mundo. Hoje, porém, li uma matéria de um colega de sala e senti uma impotência assustadora. Porque eu tenho a péssima mania de achar que porque o Jornalismo me humanizou e me fez ser mais ponderante, deveria ter feito isso com os meus colegas. É quase como que irmãos criados na mesma casa, com as mesmas regras e o mesmo amor, mas que optam por estilos de vida completamente diferentes. Não dá pra entender, mas é perfeitamente compreensível.
Isso aqui não ofensa pessoal. Fosse qualquer Severino Costa que tivesse escrito a matéria, receberia meus elogios ou minhas críticas. Mas me sinto no direito (assim como o repórter que escreveu a matéria o tem) de dar minha opinião sobre o assunto. E, mais do que isso, me sinto no dever, enquanto quase-jornalista-diplomada, de expor aquilo que eu acho que são valores profissionais que o fazer jornalismo (pelo menos deveria) exige.
O texto tecnicamente não é ruim. A ideologia é que me incomoda. O jornal reafirma a todo momento sua política de fazer a diferença, permite inclusive textos que falam sobre si mesmo (sempre com elogios, claro), valoriza o fotojornalismo (de excelente qualidade, por sinal) como nenhum outro veículo o faz e seu slogan é “o novo papel do seu jornal”. O que li ontem, porém, foi um texto comum de outros jornais aqui do estado, com uma ironia a mais talvez, e uma dramaticidade reforçada por imagens devidamente escolhidas. O texto que se diz neutro não foi, não deu o mesmo peso para ambos os lados. São cerca de 5 mil índios envolvidos, ele ouviu 1 cacique (dentre 9 que lá existem). O Bacha teve direito a duas declarações.
É errado assumir posições dentro do Jornalismo? Não. Se tiver informações devidamente apuradas, é claro que o repórter e/ou o veículo são livres para se posicionarem. Mas se sua posição for tão senso comum quanto às outras, não use ‘diferença’ como bandeira.
No editorial a lógica dos índios (que deve ser muito bem conhecida pela equipe do jornal) é questionada e é pedido que se espere que a justiça seja feita sem violência. Mas quem não é visto não é lembrado.
Na semana passada aconteceu em Brasília o Acampamento Terra Livre, que reuniu mais de 800 lideranças indígenas de todo o país com o intuito de articular povos indígenas. Foi um movimento extremamente pacífico e exemplo de participação popular democrática e respeito à justiça e aos valores da sociedade ocidental. A mídia fez estardalhaço em cima disso como faz quando há ocupações de fazendas? Eles falaram sobre Belo Monte, debateram o código florestal e suas terras, mas não foi dada tanta importância. Aí quando tomam medidas extremas para serem ouvidos e notados, são violentos. Apenas. Ocupações, violentas ou não, colocam os indígenas na pauta do dia. E, nesse caso ousado e admirável do Diário Digital, na capa!
Aí no mesmo editorial do nº 67 a gente lê que seria necessário voltar anos e anos na história para talvez entender todo esse conflito. É disso que estou falando! Um jornalista não pode dar um ponto de vista, criticar e tacar o foda-se. É preciso contextualizar a situação, que é uma das mais complicadas no país. Contextualização, minha gente! Lembra daquela historinha que ouvimos no primeiro ano de faculdade que precisamos ouvir todos os lados? Foram feitos reféns? Ok. Nossa! Que bárbaros! Mas alguém parou pra verificar as ações da Funai naquela região? Sabem quantas reuniões aconteceram esse ano em que eles fizeram reivindicações e não foram atendidos? Sabem porquê não foram atendidos? Algumas liderança indígenas perdem de vista a sobrevivência material e imaterial do seu povo dentro de sua própria cultura, sim, pra se ocupar de politicagem. Mas em que momento da história e por qual motivo isso começou a acontecer? É a partezinha do iceberg que nunca aparece acima da superfície.
Acho que estou falando de modo geral. O pobre (nem tão pobre ou coitado assim) do Diário Digital foi só a deixa pra eu desabafar. Serviu de bode expiatório.
Nunca vou pedir nada utópico (eu acho que) nem que algum jornalista queira mudar o mundo. Não vou pedir pra ser imparcial, pra brigar com todo e qualquer veículo de comunicação e ficar sem emprego, nem pra abrir mão de seus ideais, por mais corrompidos que eu acho que eles estejam. Mas eu vou pedir pra que se preocupem em entender que cada caso é um caso. Vou pedir pra tentar ouvir dos 79 lados da questão.
Não pode tratar os índios como se fossem tudo uma coisa só. Terena é terena e kadiwéu é kadiwéu. Cada terra indígena tem uma história diferente. Cada aldeia (ainda que pertençam a mesma etinia) possui uma história diferente. E parece que os jornalistas não têm o menor interesse em conhecer e divulgar essas especificidades.
Não dá pra falar desses impasses sem levar em conta a política partidária. Não dá pra pensar que a justiça vai resolver as coisas sem pensar que quem executa é o executivo e quem manda fazer o serviço só vai indicar gente da sua própria peixada. O índio não é bandido, o fazendeiro não é bandido. Os grandes bandidos estão lá em Brasília, os grandes culpados por essas tensões intermináveis.
Pra noticiar problemas que envolvem fazendeiros e índios é preciso não estar contaminado com a sujeira de dentro dos círculos do poder (e só estou falando dessa questão, pra não passar 14 dias e 14 noites digitando). Não dá pra estar recebendo dinheiro ou benefícios de nenhum dos lados. Só o jornalista pode fazer isso, pela natureza mesma da sua profissão. Ficar acima dessas coisas, ou abaixo.
Agora me botam um repórter que vive metido na Acrissul, Famasul, motherfuckersul pra escrever sobre conflitos de terras. Só podia dar nisso. Nesse meu descontentamento.
Claro que tudo (ou parte d) o que falei é uma imensa bobagem. Uma mentira parcial influenciada e manipulada pelo meio onde me formei (não onde fui criada): a UFMS (ou meus colegas baderneiros). Talvez eu pense tudo isso porque, segundo uma colega de sala, só vou “entender mesmo o que se faz no jornalismo quando precisar honrar as calcinha que veste”, ou, no caso, visto. A mesma colega que me disse que o mundo não gira em torno dos índios. Aliás, foi tão bom ela me avisar isso!
Vou ali rapidinho me preocupar com outras coisas e já volto. Mas antes gostaria de reforçar minha opinião. Pra conseguir fazer um trabalho jornalístico de verdade, o jornalista tem que gostar de independência. Se o cara pende sempre pra um lado ou pra outro, por fraqueza, necessidade, simpatia ou porque deu vontade, lascou-se!


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Thaysa
 

há dois erros gramaticais no texto (lideranças e etnias), mas não consigo editar a publicação. peço que me desculpem.

Thaysa · Campo Grande, MS 12/5/2011 11:06
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